CRAQUE DAS LENTES

por Marcelo Soares 

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O Museu da Pelada bateu um papo com o fotógrafo do Corinthians, Bruno Teixeira Rolo, 35. Autor de fotos que conseguem transmitir a emoção dos torcedores corintianos e contar através de um clique um pouco mais sobre aquele momento registrado.

Por influência do tio e padrinho Ariovaldo, o“culpado” por passar a paixão pelo Corinthians, Bruno teve os primeiros contatos com o time. Nas peladas de rua e na escola durante a infância, se aventurou no futebol chutando muitas bolas nos portões dos vizinhos como ele mesmo conta. 

Autor do livro “Arena Corinthians - Tu És Orgulho”, ele nos conta como entrou na fotografia, os momentos marcantes que viveu dentro do estádio com a câmera na mão e diz que trabalhar no time do coração é: deixar que o coração trabalhe por você.

Confira a entrevista completa com ele que faz registros únicos das emoções dos torcedores nas arquibancadas de uma das maiores torcidas do brasil.

Entrevista

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• Infância e o primeiro contato com o Corinthians:

Fui contaminado pelo corinthianismo através do meu tio e padrinho, Ariovaldo Francisco. Passava alguns dias das férias escolares na casa dele, e senti que torcer para o Corinthians era algo que me tornaria feliz pelo resto da minha vida. Eu era uma criança que apesar de gostar de jogar futebol, era péssimo com a bola nos pés, mas mesmo assim eu jogava na rua, chutava muitas bolas em portões dos vizinhos e nos recreios da escola.

• Antes da fotografia e o interesse por ela

Minha mãe é formada em artes, e durante a infância os livros que utilizou na universidade faziam parte da rotina, acredito que isso me aproximou muito da compreensão de como é se expressar pela produção artística. A luz, a sombra, o contraste e a cor são algo que estou sempre procurando, mesmo que eu não esteja com uma câmera na mão.

Para mim a fotografia sempre se mostrou ser um meio e nunca o fim da produção de conteúdo. Na infância a fotografia era um meio que meus pais utilizavam para eternizar a história da nossa família, e mais tarde percebi que seria divertido eternizar alguns momentos da história da família corinthiana na arena Corinthians.

Eu sempre fui avesso a redes sociais, achava enfadonho as pessoas querendo contar suas intimidades ou partes do cotidiano e pensamento ao público muitas vezes desconhecido, porem meus pensamentos mudaram depois que fui na arena Corinthians no segundo jogo oficial. Na época eu fazia mestrado em gestão do esporte e lia muito sobre comportamento e consumo dos torcedores e percebi que a fotografia era um produto que os torcedores consumiam nas redes sócias.

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Dentro da própria arena Corinthians eu instalei o Instagram e fiz meu cadastro, publiquei a primeira foto que registrei os telões provisórios que existiam na época, em virtude da Copa do Mundo de 2014. Após navegar na rede social percebi que a história do maior patrimônio do Corinthians era pouco encontrada em fotografias, e comecei a registrar com o celular mesmo, parte do cotidiano da fiel torcida rumo aos jogos. Com o passar dos tempos fui insistindo até receber um convite para colaborar com conteúdo para o departamento de comunicação do Corinhtians, pois era algo que eles já haviam identificado que havia uma demanda dos seguidores.

Diante deste convite passei a estudar mais, investir em equipamentos e buscar referências, algo que tento fazer até hoje.

• Chegada no Corinthians e o primeiro jogo

O primeiro jogo foi estranho, as coisas não faziam muito sentido para mim e quem conhece a arena Corinthians sabe que lá dentro é complexo de se locomover pela grandiosidade dos locais.

A partir do convite do André Stepan (gerente de conteúdo do Corinthians) para fazer fotos da torcida e do estádio, ficou estabelecido que seriam 3 jogos testes que faríamos a princípio, sendo o primeiro um jogo da Libertadores contra o Cobresal – CHI. Neste jogo eu me recordo de que tinha a certeza que não iria dar certo pois estava longe do setor que costumava assistir os jogos, não conhecia os locais direito e que não havia nenhum amigo por perto enquanto os gols iam saindo. Mas ao mesmo tempo eu sabia que era algo que eu poderia aprimorar e aprender junto com os profissionais da comunicação do clube, a contar uma história emocionante e resgatar a imagem do torcedor corinthiano nos dias de jogos.

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• Trabalhar para o time do coração. Formação técnica e aprendizagem

Eu tive o privilégio de escrever no meu livro “Arena Corinthians – Tu És Orgulho”, que trabalhar para o Corinthians é a realização de um sonho que jamais sonhei um dia, e isto me motiva todas as vezes que vou para um evento, jogo ou treino. Trabalhar para um clube como o Corinthians é ter a certeza que você sempre estará exposto a situações que irão exigir de você o melhor, e mesmo depois de tanto trabalho e suor, o resultado dentro de campo pode exigir muito equilíbrio emocional de você. Tenho a honra de ter trabalhado na campanha de 4 títulos e 2 vices lugares pelo Corinthians, tudo isso em apenas 4 anos de colaboração.

Ainda não tive a oportunidade de me dedicar a formação técnica em fotografia, algo que confesso sentir falta em algumas situações, principalmente as que exigem um conhecimento do comportamento da luz. Mas eu sempre gostei de estudar e aprender algo novo, além de gostar muito de tecnologia, então no início eu busquei conhecimento em cursos e workshops online, canais sobre fotografia básica no Youtube, mas a principal ferramenta de aprendizado é o treinamento e observação, durante muitos jogos eu separei uma parte o tempo para treinar a técnica e tentar melhorar a habilidade.

Em 2018 fui convidado a fotografar o time de futebol feminino do Corinthians, algo que devido a dinâmica do trabalho, ainda exige muito estudo, treinamento e muita habilidade com outros equipamentos para mim, mas é algo que faço com o maior prazer e dedicação possível. Mas ainda acredito que a melhor técnica de um fotógrafo é a humildade em reconhecer que o conteúdo a ser produzido será sempre mais importante que o fotógrafo, e que o melhor equipamento do fotógrafo é a empatia com o conteúdo.

 

• Livro Arena Corinthians - Tu és Orgulho 

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O livro tem uma importância histórica para mim, são os 4 primeiros anos do estádio, e os mais vitoriosos momentos até agora, e tive o privilégio de lançá-lo no ano do centenário de inauguração do primeiro estádio do Corinthians, o estádio da ponte grande.

Eu apenas assinei o livro, mas quem fez o livro da Arena Corinthians foi o suor, empenho e amor de milhões de corinthianos que durante décadas lutaram para torná-lo uma realidade. Um livro de um estádio de futebol sem a sua torcida como protagonista é um livro de arquitetura. Com o livro da Arena Corinthians tentei transmitir a emoção que bate no peito do corinthiano durante os 90 minutos, e a grandiosidade do Corinthians permite que sejam inúmeros momentos de felicidade de conquista. Ter o trabalho eternizado em um livro é ter eternizado o suor, amor e fé de milhões de torcedores que fizeram daquele estádio um hospício durante estes quase 5 anos de história.

• Momentos marcantes

Os momentos mais marcantes para mim foram todos os acontecimentos do treinamento aberto na Arena Corinthians que antecedeu a final do Paulistão 2018. Ser um dos mais de 25 mil torcedores que fecharam a radial leste para receber o ônibus com a delegação do time, viver e presenciar a festa dentro da arena Corinthians, e perceber que aquela festa não foi apenas para motivar os jogadores para a final, foi para que o mundo pudesse ver parte da importância do que representa o Corinthians para nós. 

Quem produz conteúdo para o Corinthians precisa ser profissional, precisa colocar o conteúdo na frente das emoções ou desejos pessoais, mas sempre que estou muito emocionado com algum momento marcante eu reservo alguns segundos para curtir e comemorar.

• Não passa despercebido

A simplicidade do amor pelo Corinthians, a felicidade plena em simplesmente ver o Corinthians jogar. Todo torcedor quer vencer os jogos, ganhar títulos e marcar uma geração com recordes e estatísticas, mas fora e dentro do estádio, sinto que a coisa mais importante é o orgulho de ser corinthiano, de estar junto dos amigos e familiares, de poder vestir o manto corinthiano, seja ele original ou réplica, estar no setor de maior poder econômico ou até mesmo ficando do lado de fora do estádio, mas o simples fato de ser corinthiano já é a coisa mais importante a ser fotografada.

• Jogos, torcida e trabalhar no time do coração

O futebol é o fenômeno cultural mais importante da história da humanidade, é o sonho da maioria dos garotos e garotas ao redor do mundo, e viver estes momentos de perto exige responsabilidade e equilíbrio, é muito fácil que o reconhecimento sobre o seu trabalho se torne algo que te deixe arrogante e prepotente. Eu me sinto orgulhoso pelo resultado que o Corinthians tem em suas redes sociais, no projeto de resgate da imagem do torcedor corinthiano nos estádios e da nossa Arena Corinthians, mas tenho a certeza que este reconhecimento não é fruto apenas do meu trabalho, ele é creditado a mim por uma questão legal ou apropriação cultural devotada aos profissionais da fotografia. Sem a equipe de comunicação do clube o trabalho jamais teria chegado aos torcedores e ao mercado, sem a ótima recepção dos torcedores e principalmente sem o apoio da família e amigos, não seria possível manter a motivação e propósito do trabalho. 

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Não há como fotografar felicidade sem se sentir feliz, e todos que colaboram com este trabalho me permitem ser feliz fazendo este trabalho. O reconhecimento do clube é fruto da mesma paixão que bate aqui neste peito.

• Trabalhar no time do coração é: 

- Deixar que o coração trabalhe por você.

• Reação dos torcedores as fotos e reconhecimento

Faço e refaço amizades todos os jogos, e mesmo dias após eles, a reação dos torcedores é sempre única e muito gratificante, é o verdadeiro propósito do trabalho, o orgulho de ser corinthiano, é o orgulho de saber que o mundo agora sabe que no peito bate um coração alvinegro. Mas a reação mais comum dos torcedores é agradecer pelo registro e elogiar o trabalho, que sempre faço questão de transmitir a todos da comunicação do Corinthians. As amizades, respeito e carinho são as minhas melhores formas de sentir a gratidão da torcida.