BALADA NÚMERO 7, O CANTO DO ENCANTO NA VÁRZEA

por Marcelo Mendez

 (Foto: Reprodução)

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A várzea sem dúvida é um berço santo de subversão de tudo que a razão tenta empurrar goela abaixo sem nenhum charme. Na várzea impera a transgressão dos sentidos. 

Pensando assim, o que pode então ser mais subversivo que a figura lendária do ponta, do ponta direita?

Em tempos de glória do futebol nacional, a posição do lado do campo, foi representada por nomes como Julinho Botelho, Tesourinha, Friaça e o maior de todos, Garrincha. Eram tempos em que se driblava em cima do lenço que ficava por sobre a linha lateral, tempos em que a magia se fazia pelo lado do campo. E agora, em 2017, aonde está esse ponta?

Sim, ele está com a camisa 7 do Santa Rosa de Mauá e atende pelo nome de Fernando.

Em um domingo de multi cores, aceitei o convite de meu amigo Marcelo Ferreira a acompanhá-lo no oficio de suas funções cobrindo o futebol da bola de marrom de Mauá. A cidade do ABC Paulista acorda com um sorriso na cara em dias de jogo na várzea...

Carrinhos de feira apostos, vira-latas de fronte às maquinas de frango e seus cheirosos galetos, meninos que comem pastéis, homens que carregam instrumentos de samba de olho no relógio a esperar pela hora adequada para a primeira latinha de cerveja.

É um domingo de várzea...

A beira do alambrado da Vila Mercedes começa a encher para a segunda partida das oitavas de final do principal campeonato da cidade. Mocidade x Santa Rosa jogariam e então alguém me diz:

- Presta atenção nesse camisa 7 do Santa Rosa...

Prestei...

A inexorável mística que há na camisa 7, se faz nos pés de Fernando. Na primeira bola que pega, ele olha na cara do seu marcador o desafiando para o duelo de pernas que o futebol faz. Para, balança a anca para um lado, sai para o outro e a galera vem junto:

“OOOOOOOOLÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!”

É o maior momento do futebol. O drible do menino no marcador bufão é o que salva pra além do futebol; Consagra a vida!

Quando a bola vinha aos pés de Fernando ele a colava junto ao seu pé direito e não deixava ninguém tirá-la dele. Com a ginga de um bailarino, driblava lindamente, driblava todos, driblava todo mundo! Ao redor de sua cintura, estava ali, toda a imortalidade de gingas e gafieiras lendárias, de seus pés, sambas e picardias a fazer todos sorrirem. 

Fernando driblava e sorria.

Seu time venceu, ele fez os dois gols e mesmo que não fizesse isso não importaria muito. No campo da Vila Mercedes, com a camisa do Santa Rosa, Fernando jogou por muito mais que um título. Jogou pela poesia. Driblou as caretices todas e ali naquele campo, perpetuou todo um sem-fim de odes épicas a craques imortais.

Nesse domingo, Fernando jogou por mim. A ele agradeço.

Profundamente, agradeço...