AINDA É CEDO, MONTILLO!

por Zé Roberto Padilha

 Zé Roberto Padilha (Foto: Guillermo Planel)

Zé Roberto Padilha (Foto: Guillermo Planel)

De um jogador do seu nível ético e profissional não era de esperar outra coisa: seguidamente impedido por contusões a cumprir o seu contrato, não acha correto continuar a receber e não jogar. E levado pela emoção atrelada a uma profissão praticada a céu, microfones e corneteiros abertos, reúne a família, a imprensa e comunica que vai encerrar a carreira. Tudo compreensível. Menos para o futebol. Ele não pode se dar o luxo de perder tão precocemente um talento como o seu.

Deus concede um dom a cada um de nós. E um tempo certo para suas criaturas o exercerem. Aos 33 anos, está provado, o homem alcança o máximo do seu desempenho físico e intelectual. Sabe aquela manga espada no auge? Pois bem, ela teria 33 anos se colhida no tempo certo. Portanto, não contrarie seus desígnios, cuide das suas contusões dentro do tempo manual de instruções da fisioterapia e não volte porque a sua consciência, mais o clamor das arquibancadas e o desejo do Jair Ventura assim o determine. Quem é do ramo sabe que a sua quinta contusão nada mais foi que conseqüência da primeira mal curada porque todo mundo lhe queria ver jogar.

Tinha a sua idade quando ia jogar a toalha também. Jogava no Americano, de Campos, e capengava nos treinamentos após minha quarta cirurgia no joelho esquerdo. Até que apareceu um anjo negro em minha vida: Professor Paulo Nascimento. No lugar de me levar para o campo, me conduzia ao parque aquático do clube. Meus companheiros vestiam shorts, eu a sunga. Calçavam chuteiras, eu o pé de pato. Não tinha mesmo mais nada a aprender nos treinamentos, a não ser produzir nos jogos, e a natação, aos nos condicionar sem impactar as articulações, me concedeu mais quatro anos de sobrevida. Comecei com 100, 200, e hoje, aos 65 anos, nado 2.000 metros, claro, sem aquela intensidade.

Se durante a semana algum companheiro torcia o nariz porque refrescava o treino e garotas bonitas se bronzeavam ao lado, e o corneteiro de plantão cochichava “Ué, o clube contratou um jogador ou um nadador?”, tudo desaparecia domingo quando voava em campo. Caixa ampliada, cabeça motivada com pneus e amortecedores preservados.

Vamos tentar? Tenho um filho botafoguense em casa e sei da alegria que teve com sua chegada e das lágrimas que compartilhou contigo na despedida. Tenho certeza que litros de lágrimas cheias de cloro e esperança vão lhe trazer de volta para o bem de quem ama o futebol arte. E com os exemplos de cidadão decente que sempre nos concedeu

Obs. Só tem um problema: sabe aquela confraternização concorrida de final de ano com amigo oculto? Esquece. Daqui pra frente será apenas entre você e o guardião da piscina. Mas é esta solidão semanal que lhe trará de volta à multidão que lhe aguarda de braços abertos no Engenhão.