A TROCA

por Zé Roberto Padilha

Zé Roberto Padilha

Zé Roberto Padilha

Sempre que tem um Fla-Flu acordo com a sensação de que um dia não fui jogador de futebol. Fui mercadoria. Não com o preço fixado, embalado para presente e exposto nas prateleiras, mas como objeto de troca entre dois dos clubes mais importantes do futebol brasileiro. Em uma conversa entre seus dois presidentes, Hélio Maurício e Francisco Horta, em dezembro de 1975, ambos esqueceram, no afã de promover o próximo estadual, que a moeda já havia substituído o escambo. E que a escravidão já havia sido abolida. E propuseram, no Ceasa que se tornara suas salas de reuniões, uma troca: “Tu me dá o Doval e leva o Zé Roberto!”. Gostaram tanto que acabaram fazendo um pacote: “Então leva o meu goleiro, Renato, que eu fico o seu mais novo, Roberto!”. E para fechar o carrinho, “Que tal Rodrigues Neto pelo Toninho Baiano?".

Estava em Iguabinha, Região dos Lagos, curtindo a melhor fase vivida na carreira. Como ponta esquerda tricolor, tinha sido titular na Taça Guanabara e recuperado a posição na reta final do Campeonato Brasileiro disputando a posição com Mário Sérgio Pontes de Paiva, que nos engrandecia profissionalmente e valorizava nosso currículo. Há pouco havia disputado, com Lula do Internacional, Joãozinho, do Cruzeiro, e Ziza, do Guarani, a cobiçada Bola de Prata de melhor ponta esquerda do Brasileirão. E acabara de ler nas bancas que Osvaldo Brandão, em entrevista ao Jornal dos Sports, incluía meu nome na lista dos pré convocados para a seleção brasileira.

Mas quando abro na praia o Jornal do Brasil estavam estampadas as trocas sem consultar a gente. E me senti o pior dos homens por mesmo ter nascido detentor de todos os meus direitos, de liberdade e expressão, não me deram a oportunidade de escolher o meu destino. Afinal, foram oito anos de Laranjeiras, dos infantis aos profissionais, três Taças Guanabara conquistadas, dois títulos estaduais e o orgulho de ter transformado a bandeira que levava para as arquibancadas na camisas que entrava em campo. Calçar as chuteiras para torcer e jogar por sua paixão não tem preço. Aliás, tinha. E até hoje, quarenta e um anos depois, não sei quanto foi.

No primeiro Fla-Flu do troca-troca, (17/5/76, público de 155.116 mil pagantes, com renda de CR$ 4.073,586,00 e arbitragem de José Roberto Wright, Walquir Pimentel e Carlos Costa) deu no que deu: a mercadoria se perdeu. Não havia dormido, passara tantos filmes na minha cabeça às vésperas de sair da utopia de defender uma paixão para iniciar, de fato, minha profissão, que quando o time entrou em campo fui saudar a torcida errada. Tantos anos virando a direita das tribunas segui a tradição, e Zico, Júnior, Tadeu, Rondinelli e Cantarelli foram para a esquerda saudar a massa rubro-negra.

A vaia comeu, me atiraram copos de água, e enquanto retornava do vexame procurando meus companheiros, ainda ouvi os comentários de Iata Anderson e Mário Jorge Guimarães: “Você não tinha nada que ir lá provocar os tricolores!” Pouco adiantava responder que o subconsciente foi quem conduzira meu corpo para lá, talvez para abraçar aquela torcida e agradecer a formação, o carinho e a paciência que sempre tiveram por mim. E pedir desculpas pela primeira vez na vida jogar contra eles.

Neste instante me acertaram um saco de pó de arroz e despertei de vez para a realidade. Era jogador profissional de futebol, e do Flamengo, e passei a ter muito orgulho disto. Mas se como mercadoria errara a prateleira, teria que jogar muito para convencer o dono da Gávea, ou da Sendas, que era aquele produto, de rótulo novo, não perdera a essência do seu conteúdo.