A IMPORTÂNCIA DE NOVE MINUTOS NA VÁRZEA

texto: Marcelo Mendez | foto: Eduardo Lima

(Foto: Eduardo Lima)

(Foto: Eduardo Lima)

Faltavam nove minutos para o fim...

Em dia em que o sol novamente ousou aparecer em meio ao inverno do ABCD, 22 homens suavam gotas de poesia pelas têmporas. No bico de suas chuteiras coloridas carregavam toda a dignidade de seus sonhos, de suas ambições mínimas, do réquiem para um instante de grandeza.

Era mais uma final de várzea...

No Estádio do Baetão, Corinthinhas de Alves Dias e Jurubeba definiam quem era o melhor time da cidade.

De um lado, uma máquina de jogar futebol, o Corinthinhas, com seus dois anos de invencibilidade, sua defesa intransponível, seu ataque avassalador e seu escrete de jogadores fortes e atléticos.

Do outro lado, havia então o Jurubeba. Time do Jardim Jussara e sua trajetória de lutas e conquistas múltiplas. Em cinco anos de atividades na liga da cidade, o rubro-negro tem quatro títulos de acesso, em quatro anos seguidos. No primeiro ano da divisão de elite, chegou à final do campeonato com todas as honras possíveis, imaginem que ousadia:

Não perdeu para o Corinthinhas! E mais, ousou a fazer gol em um empate de 1 a 1 contra os invencíveis!

Uau!

Tudo isso e muito mais me credenciavam a ter uma história rica para contar, como sempre acontece nas coisas do futebol de várzea. Nada no mundo da bola marrom, adornada por todo o terrão que se possa pensar, é, tão somente, comum.

Mas então, faltavam nove minutos para o fim...

Até aquela altura do campeonato as coisas eram lúdicas. O Jurubeba contara com duas falhas clamorosas de uma zaga inexpugnável para virar uma partida que havia saído perdendo. Com os gols de Binho e Da Lua, o caçula abusado vinha conseguindo uma proeza, uma façanha. Vencia por 2 a 1 toda a pompa de um time que sem dúvida é o melhor do ABCD

Mas ainda faltavam nove minutos...

Nesse minuto em que olhei para o relógio, uma bola se ofereceu limpinha para o lateral esquerdo Roque, do Corinthinhas e então, com a frieza quase que cruel que têm os grandes, os vencedores, mandou a pelota para o fundo das redes do goleiro do Jurubeba. Nesse momento tudo mudou.

A realidade, quando chega a um campo de terra, vem com a força de um milhão de centuriões em fúria. Dilacera paixões, frustra sonhos e vilipendia amores, apenas por charme do destino. Não, o Jurubeba não seria mais o campeão.

Como que por capricho também não perderia o jogo; seria vice-campeão com um empate em 2 a 2 pra reafirmar ainda mais a excelência do outro, que conquista assim o caneco por uma campanha que as Gentes do Jurubeba sabem, foi a melhor do certame.

Não fica o choro. O honrado time do Jardim Jussara sabe que seu vice campeonato é grande, dado a dureza em que foi conquistado. É merecedor de todas as odes do mundo da bola, por um bom tempo ousou vencer um time que é uma máquina e se não conseguiu perpetuar isso agora, decerto em breve o conseguirá. De lição ficam outras coisas, mas a principal, ressonará por muito tempo para o Jurubeba:

Cuidado!

Afinal, faltavam nove minutos...