A ARTE QUE FALA PORTUGUÊS

por Zé Roberto Padilha

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Em 1932, uma bola foi alçada sobre a área da equipe do Carioca, pelo campeonato estadual do Rio de Janeiro, em direção a Leônidas da Silva., então atacante do Bonsucesso. Quando ele se preparava para concluir de cabeça, a bola quicou em uma irregularidade do terreno e tomou um novo rumo. Qualquer jogador que não pertencesse a esta iluminada raça miscigenada, não incorporasse a capoeira e outros ritos culturais pela colônia preservados quando de suas capturas, lamentaria o seu curso. E colocaria as mãos na cintura. Leônidas da Silva, não.

Negro, safo e habilidoso virou de costas para o gol adversário e se jogou no ar num rodopio a tentar alcançar seu objeto de desejo. Nada era fácil para eles, como perderia aquela bola? E pés e bola se encontraram no ar e as redes, ao balançarem, registraram o espanto do público diante de uma inédita obra de arte. Desta vez ela não chamava Mona Lisa. Era um gol de Bicicleta.

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Quarta feira, pela Champions League, contra a Juventus, em Turim, um descendente dos nossos colonizadores, que certamente carregou em sua árvore genealógica um ramo miscigenado, Cristiano Ronaldo pintou um novo quadro, ao vivo, para um mundo boquiaberto pela plasticidade e raridade do movimento. Desta vez a bola veio reta, o gramado era um tapete, não irregular como em Teixeira de Castro, mas alcançou uma altura tamanha, 2,40m, quase impossível de ser encontrada. E o artista atirou seu pincel no vazio e desenhou, com a ponta da chuteira no terceiro andar, uma nova obra de arte que se alinhou nas redes de Buffon.

Historiadores se dividem: afinal, fomos descobertos ou achados pelos portugueses? Pelo menos agora, na história da arte do futebol, não há mais dúvidas: quando Leônidas da Silva e Cristiano Ronaldo captam a essência do Rei local, Édson Arantes do Nascimento, e perpetuam a bicicleta como um quadro raro e precioso exposto no Baú do Esporte, o mundo fica sabendo que quando o pincel é uma bola, a tela um campo de futebol, todo Leonardo da Vinci fala português. Se por baixo se desentenderam em revoltas, motins e insurreições, no ar encontraram a paz e a harmonia em forma de arte.