VOLTAMOS A TORCER

por Leandro Ginane

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Depois de muitos anos os brasileiros se entregaram de corpo e alma durante cento e vinte minutos a um jogo da seleção brasileira. O sentimento que parecia adormecido com a seleção masculina parece ter despertado com as mulheres brasileiras em campo na Copa do Mundo da França.

O grito uníssono que ecoou por todo o Brasil quando a bola balançou a rede francesa empatando o jogo em um a um trouxe um sopro de esperança de que ainda há algo que possa unir um povo tão dividido nos últimos anos!

Há de fato uma conexão especial entre essa seleção e o torcedor brasileiro, que vai muito além do esporte. Torcer pelas mulheres brasileiras foi um ato feminista que despertou um sentimento de nostalgia de um futebol que não existe mais: sem vaidades; onde suas jogadoras não caem ao gramado a cada contato com o adversário e que emocionou a cada cena de seus familiares na torcida durante o jogo. Uma seleção que joga por amor, um sentimento raro atualmente no futebol e que transbordou na entrevista da Marta logo após a eliminação brasileira ( https://glo.bo/2X39px6 ) e no narrador que, mesmo com o gol que parecia ter sido anulado, não parou de gritar e acertou!

Ao mesmo tempo em que a Copa do Mundo de futebol feminino está acontecendo na França, aqui no Brasil está sendo jogada a Copa América masculina de futebol com estádios vazios e rendas milionárias, onde o preço médio para assistir ao jogo de estréia da seleção brasileira foi de quatrocentos e oitenta e cinco reais e com isso atraiu uma torcida irreconhecível que entoou o canto "Defense!" durante a partida, numa referência ao tradicional grito das torcidas americanas em jogos de basquete.

Em meio a escândalos no judiciário, páginas policiais e estádios vazios, o Brasil se uniu novamente em torno do futebol, dessa vez representado pelas mulheres que puderam mostrar mais uma vez o quanto os homens precisam aprender com elas.

BOTAFOGO 1989

por Marcelo Mendez

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O ano de 1989 foi o ano do Bragantino na minha vida.

Meu Palmeiras voando, 23 partidas invictas para dinamitar o final dos 13 anos sem títulos que amargávamos. Eis que num sábado à tarde aparece um tal de Bragantino, metendo um 3x0 inapelável nos nossos sonhos e então já era; Mais um ano de fila.

Talvez por isso eu tenha me solidarizado com o time de hoje, aqui em ESQUADRÕES DO FUTEBOL BRASILEIRO.

Para acabar com 21 anos de sofrimento, vamos voltar para 1989 para encontrar o Botafogo que tirou o alvinegro da fila.

O Fogão 89 

As paixões de Seo Emil

A segunda metade dos anos 80 marca a fase mambembe do futebol Brasileiro.

A CBF quebrada, os times à míngua, estádios vazios, os campeonatos deficitários que eram uma zona em seus regulamentos e tudo de pior pela frente. Um horror. O Botafogo, que não vencia títulos desde 1968, era uma dessas equipes vitimadas por aquela bagunça.

Ao longo da década dá para dizer que o Botafogo teve um ano bom, 1981, quando foi garfado no Morumbi contra o São Paulo, pela semifinal do Campeonato Brasileiro. Dali pra frente, só derrocada. O Clube tinha sua sede em Marechal Hermes em plenas ruínas. Não tinha estádio para jogar, lugar pra treinar, material de treinamento, nada. Uma desgraça só.

Eis que chega então um homem, sua loucura e seu intrínseco amor pelo Fogão, para mudar isso. Emil Pinheiro chega e então, a luz que havia no fim do túnel ganha uma força considerável... 

Botando a Casa em Ordem

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Da maneira como foi possível, Seo Emil mete a mão no seu bolso para resolver os problemas urgentes do Botafogo. Paga os funcionários, estrutura minimamente o departamento de futebol, traz o técnico Valdir Espinosa e então, vai às compras e monta um time forte.

Paulinho Criciúma, Mauricio, Luizinho, Carlos Alberto, Wilson Gottardo e Mauro Galvão se juntam ao ótimo lateral Josimar e ao eficiente Marquinhos para formar uma base sólida que vai classificar o Botafogo no Campeonato Carioca daquele ano. O time chega à decisão e então começa a noite que vai lavar a alma Botafoguense... 

A maior das noites 21...

Muito já foi dito daquele 21 de junho de 1989 nesses 30 anos.

Na arquibancada no Maraca, entre as 56 mil pessoas que pagaram ingresso, Botafoguenses ilustres como Zagallo, Saldanha, Afonsinho, Beth Carvalho e tantos outros corações. Dá pra dizer que o Flamengo tinha uma seleção, com Zico, Leonardo, Andrade, Bebeto, Renato Gaúcho, Jorginho. Mas os olhos da poesia não estavam nestes, naquela noite.

Foi Mazolinha que virou verso...

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Saído do banco para arrancar pelo lado esquerdo do ataque botafoguense, o camisa 14 foi ao fundo do campo com o mesmo afã o qual um adolescente virgem vai atrás do seu primeiro beijo na boca. Nada o pararia. Nenhum mortal seria capaz de interceptar aquele cruzamento que por magia, chegou até Mauricio.

Quando o ponta, com a lendária camisa 7 do Fogão, empurrou a bola e Leonardo para o fundo das redes, o que se viu no Maracanã foi o encanto voltando de onde jamais poderia ter saído. Era o título, era a vitória, era glória.

Ricardo Cruz, Josimar, Gottardo, Galvão, Marquinhos, Carlos Alberto, Luizinho, Mauricio, Gustavo e Paulinho Criciúma são os 11 que formaram a base que fez esse, entre tantos times lendários do Botafogo, entrar para a história do nosso futebol.

É de direito, portanto, sua vaga em ESQUADRÕES DO FUTEBOL BRASILEIRO.

 

PARABÉNS, RIQUELME!

por Israel Cayo Campos

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O tempo passa...

No dia de hoje, o craque argentino Juan Roman Riquelme completa 41 anos. 

Um jogador que deu trabalho a Seleção Brasileira, embora tenham sido jogos parelhos. 

Mas principalmente foi um "carma" para os clubes nacionais quando defendia o Boca Juniors.  

Mas antes de tudo isso, um absurdo de jogador!  

Quando o Brasil de Luxemburgo enfrentava a Argentina que tinha poupado a maioria de seus títulares na Copa América do Paraguai em 1999, a mesma que revelou para o mundo Ronaldinho Gaúcho, os jogadores brasileiros já reclamavam no intervalo ao Tino Marcos que estava difícil marcar o garoto de 20 anos que atuava pela meia direita. Era o primeiro indício de que ouviríamos falar muito do nome Riquelme no futebol. 

Com o passar do tempo não deu outra...

Além de três campeonatos argentinos, duas Libertadores. Somente antes da Copa de 2002 que seria disputada na Coréia do Sul e no Japão. Um desses torneios continentais vencido em cima do Palmeiras de Felipão em 2000. 

Em 2001, a final foi contra o Cruz Azul do México. Mas no meio do caminho o Boca de Riquelme mandou para casa Vasco e novamente o Palmeiras. 

Apesar de ser o destaque do maior clube argentino, com dribles desconcertantes e gols espetaculares, Riquelme ficou de fora da lista de Marcelo Bielsa para a Copa do Mundo de 2002. Aquela mesma Copa em que a Argentina foi um fiasco, não passando da primeira fase, mesmo sendo favorita ao título!  

Retornou a albiceleste logo no pós-Copa. O objetivo era substituir Ortega e até Verón, que não vinha muito bem no Manchester United. Riquelme nesse período também fora jogar fora! No Barcelona, onde teve uma passagem apagada! O esquema tático não o ajudou! E ele ficou no banco a maior parte do tempo que atuou pelo clube da Catalunha! 

Ás vezes era acusado de ser um jogador lento. Que não dava prosseguimento ás jogadas. Quem vê seus dribles, passes e arremates ao gol sabe bem que tal acusação não é verdadeira! Era um falso lento!

Já em 2003 fora vendido ao pequeno Villarreal da Espanha, e aí reencontrou seu futebol.

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Embora não tenha vencido nenhum torneio importante, ao lado do Uruguaio Forlán e de uma legião Sul-americana comandadas pelo técnico chileno Manuel Pellegrini, conseguiu os melhores desempenhos da história do clube. 

Inclusive o levando a uma semifinal de Champions League, onde acabou perdendo um pênalti contra o Arsenal em 2006 que poderia ter levado o time espanhol a uma final inédita e inacreditável contra o Barcelona! 

O pênalti perdido por Riquelme fora defendido pelo goleiro alemão Lehmann. Não seria a última vez que eles iriam se enfrentar em 2006. 

Mesmo assim, Riquelme ganhou status de ídolo do "Submarino Amarelo". Onde jogou até 2007.  

Nesse interim, Riquelme perdeu a final da Copa das Confederações de 2005, levando um chocolate brasileiro. Mas "deu o troco" em Buenos Aires, com uma atuação de gala pelas eliminatórias Sul-americanas, onde com passes precisos e um golaço do camisa 10 a Argentina venceu o Brasil por três a um. 

Na Copa do Mundo da Alemanha era o maestro de uma fortíssima Seleção argentina que disputou aquele torneio. Para mim, o melhor elenco que a equipe albiceleste montou desde 1986. 

Mas nas quartas de final contra a Alemanha, Riquelme que havia dado uma assistência para gol de Ayala fora substituído. E do banco viu a Alemanha empatar com Klose e nos pênaltis seus companheiros tremerem diante do goleiro Lehmann, novamente ele no caminho do camisa 10. 

Mais um fracasso argentino em Copas do Mundo! 

Em 2007 voltou ao Boca. Mais maduro, novamente ganhou a Libertadores. Dessa vez, numa fácil final contra o Grêmio. Onde novamente marcou um gol espetacular. Do "meio da rua" em um belo giro! 

No mesmo ano, com a Seleção principal, uma derrota para o time misto do Brasil por três a zero na final da Copa América da Venezuela. O time com Mascherano, Cambiasso, Verón, Ele, Tévez e Messi fora arrasado por Júlio Baptista, Elano, Robinho e Vágner Love. 

Em 2008, uma espécie de troco.

Foi campeão olímpico pela Argentina como um dos três jogadores acima de vinte e três anos. Com o gosto especial de eliminar o Brasil "devolvendo" os três a zero do ano anterior nas semifinais. Com direito a assistência e gol de pênalti. 

O sonho do ouro olímpico brasileiro era adiado, enquanto os argentinos partiam para o bicampeonato. 

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Foi o único título de Riquelme com a Seleção. Excetuando-se claro os títulos da base, como o mundial sub-20 de 1997. Mesmo assim, não é considerado um troféu oficial. Já que os Jogos Olímpicos não são reconhecidos pela FIFA como tal. 

Acabou por viver parte do maior período de "seca" de títulos da Seleção argentina. Que mesmo montando time recheados de craques, não vence um torneio há 25 anos! 

Ainda pelo seu querido Boca, venceu mais dois campeonatos argentinos, uma Recopa Sul-Americana e uma Copa Argentina antes de migrar para o Argentino Juniors, onde encerrou sua carreira em 2014.

Antes de se aposentar, marcou gols antológicos, como o contra o Corinthians na Libertadores de 2013... 

Era o exemplo do bom futebol argentino. Dribles rápidos, toque de bola e passes precisos (por cima e por baixo!) e chutes precisos! Geralmente lá onde a "coruja dorme".

Poderia ter disputado a Copa de 2010. Mas problemas com o técnico Maradona o fizeram pedir pra não ser mais convocado para seleção. 

Os dois não se bicavam desde que surgiu a disputa pra ver quem fora o maior camisa 10 da história do Boca. E passaram a trocar farpas na imprensa! Quando Maradona assumiu a Seleção, Riquelme achou melhor encerrar sua participação na mesma. 

Uma das atitudes mais bonitas do atleta veio após ele encerrar a carreira! 

Após a tragédia da queda do avião da LaMia em novembro de 2016, que vitimou a delegação da Chapecoense, Riquelme, já aposentado dos gramados fazia quase dois anos, mas ainda em forma, se ofereceu para jogar no time de Chapecó! De graça! Até que o clube se reestruturasse! 

O auto-convite foi recusado pelos dirigentes da "Chape" mas só a atitude mostra o grande atleta e ser humano que é Juan Roman Riquelme! 

Parabéns pelo seu aniversário!

THALLES

por Marcos Vinicius Cabral

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A morte quando chega - apesar de ser um processo natural na nossa existência - causa estranheza.

O desaparecimento físico de Thalles nesse primeiro sábado de inverno, deixou reflexões e aprendizados.

Thalles nasceu Thalles Lima de Conceição Penha, era um garoto pobre e morador de favela.

Viu com seus próprios olhos, amigos trocarem lápis e caderno nas salas de aula por madrugadas perdidas nos bailes funks, regado à drogas e bebidas alcoólicas.

No meio do caminho, perdeu alguns e achou outros.

Como todo garoto de sua idade, ser jogador de futebol era a chance de mudar de vida.

Sonhava tirar os pais do gueto gonçalense e comprar uma boa casa para eles.

Passou dificuldades mas não desistiu.

Aos 11 anos, aprovado na peneira do clube cruzmaltino, persistiu.

Em 2013, então com 17 anos, deixou de ser promessa e vestia profissionalmente a camisa do Vasco da Gama para no ano seguinte ser convocado para a Seleção Sub-20.

Forte fisicamente e com bom chute, o atacante que usava a camisa 9 ou a 39 nos jogos, enfrentou duas lutas impossíveis de vencer: o peso, que lhe tirou a titularidade, e os "amigos" de infância, de quem fazia questão de estar perto nas folgas.

Thalles já era famoso e podia (quase) tudo.

E essa sensação de poder tudo, o fez perder a vida precocemente aos 24 anos.

Morreu na madrugada de sábado em um acidente de moto na Avenida Almirante Pena Boto, no bairro Monjolos, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, quando voltava de um baile funk conhecido como Cerâmica, em Monjolos.

Contudo, ao lado de Denner, morto também em acidente automobilístico em 1994 e Valdiram, em abril deste ano, estarão para sempre no coração do torcedor vascaíno.

AS NOSSAS MULHERES FORMIGAS

por Zé Roberto Padilha

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Apesar do descaso das pessoas daquele lugar, do abandono em que são constante vitimadas, as mulheres formigas não são uma espécie em extinção. Elas desaparecem e surgem em igual tempo e espaço pelas principais arenas do mundo. Seja durante uma Olimpíada ou em uma Copa do Mundo. As mulheres formigas do futebol brasileiro são espécies para serem estudadas pela Nasa. Pois são todas sobreviventes heroínas. E parecem surgir do nada com a missão de dar a seu povo orgulho demais.

Sem campeonatos municipais para realizar sua preparação de base, raras ligas desportivas à disposição, poucos estaduais e fora do calendário nacional, não contam com uma formação básica nos colégios. Como as americanas, as inglesas e as suecas. E ainda enfrentam um preconceito dentro de suas tocas que não cabem debaixo das suas saias. Jogar futebol? Escutam dentro de casa: isto é coisa para homem!

Assim pensam os habitantes do lugar aonde sobrevivem ocupando diversas profissões para sustentar a família. E comprar a própria chuteira. Quem pensava diferente, o jornalista Luciano do Valle, precocemente deixou sua espécie sem o único meio de comunicação que lhes dirigia atenção, campeonatos e oportunidades. Bandeirantes, o canal do esporte.

Durante a hibernação, algumas espécies saem pelo mundo em busca de uma equipe que as mantenha com os pés em movimento. Mas a maioria fica mesmo por aqui, jogadas à própria sorte. Vendo isto, Deus, sempre justo, fez de uma mulher formiga daquele ingrato lugar a abelha rainha. E Marta se tornou a melhor do mundo. Pouco adiantou. Continuaram esquecidas.

Domingo, as mulheres formigas do futebol voltaram a campo. Os cartolas do futebol brasileiro mal sabiam os seus nomes, de onde vieram, que equipe defendiam e desconhecem a superação que as fizeram chegar até ali. Devem achar que elas surgem de um toque de Marta, digo, de um passe de mágica, e mesmo assim, estavam sorrindo na Tribuna de Honra porque receberam um mês em Paris com tudo pago. Com o suor que não foram seus mas com a cara de pau que tem a cara, a marca e o descaso da CBF com o futebol feminino.

Liberdade, de jogar bola no colégio. Igualdade, nos clubes de futebol do país. Fraternidade, de uma sociedade machista que passe a reconhecer sua vocação e talento. Inaugurado pelos antepassados de suas adversárias durante uma revolução social, quem sabe um dia tais conceitos, de solidariedade e respeito, sejam também lhes concedidos?

Mulheres formigas do futebol brasileiro, nós temos orgulho de vocês.