JOGOS INESQUECÍVEIS

Vasco 1 X 3 Flamengo (Final do Campeonato Carioca 2001)

por Mateus Ribeiro

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A final do Campeonato Carioca de 2001 é um dos jogos mais emblemáticos deste século para os flamenguistas. Dificilmente alguém esquece dessa partida, tão marcante para flamenguistas e para vascaínos. Obviamente, o torcedor rubro negro tem lembranças melhores que os torcedores do Gigante da Colina.

O Flamengo vinha de dois títulos do Carioca, ambos em cima do Vasco. O time de São Januário, por sua vez, apesar de ter perdido o título estadual duas vezes seguidas para o Flamengo, passava por um dos períodos mais vitoriosos de sua história, com títulos da João Havelange e da Copa Mercosul conquistados em 2000.

Na primeira partida, o Vasco levou a melhor, vencendo por 2 a 1, com um gol no final da partida. Por esta pequena vantagem, o Vasco entrava como favorito para o segundo jogo, até porque jogava com a vantagem de dois resultados iguais.

Parecia que daquela vez tudo seria diferente dos anos anteriores. O Vasco tinha um time experiente, que “no papel” era até um pouco melhor que o do Flamengo. Somado a isso, o fato de que os comandados de Joel Santana poderiam até perder por um gol de diferença dava um pouco mais de esperança para a torcida do cruz-maltino.

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Eis que chega o dia 27 de maio de 2001, tão esperado por ambas as torcidas. De um lado, a esperança de reverter a situação, e conquistar um épico tricampeonato. De outro, a confiança em quebrar uma incomoda escrita que já durava dois anos. Tinha tudo para ser um grande jogo. E foi.

O Flamengo abriu o placar com o infernal Edílson, um dos craques do time, e com um gigantesco histórico de títulos em sua carreira. Porém, o Vasco também contava com um baixinho bom de bola e vencedor, chamado Juninho Paulista. E o xará do Pernambucano (que já estava no Lyon) empatou a partida no fim do primeiro tempo, jogando um balde de água gelada na torcida flamenguista.

Acontece que o Flamengo tinha um camisa 10 chamado Petkovic. O sérvio batia como poucos na bola, e em um cruzamento seu, Edílson marcou o seu segundo gol no jogo, dando um pouco mais de esperança para os rubro negros.

Mas a bola não queria entrar. De maneira alguma. Até que no final da partida, o árbitro marca uma falta para o Flamengo. Não tão perto da área, e mesmo um especialista do calibre de Petkovic precisaria acertar o chute de sua vida para marcar um gol daquela distância, naquela situação do jogo. Como se não bastasse, o Vasco tinha um ótimo goleiro, o jovem Helton.

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A história poderia ser escrita ali. E Pet, com seu letal pé direito, escreveu sem o mínimo de piedade dos vascaínos. A bola passou pela barreira, fugiu dos elásticos braços de Helton, e foi parar no único lugar que poderia entrar. Na caixa. Na gaveta. Onde a coruja dormia até aquele momento.

A coruja voou, e levou com ela a esperança vascaína de acabar com o incômodo histórico de derrotas para o rival. Flamengo tricampeão carioca. Pet entrava definitivamente para o Hall dos imortais.

O gol de Pet é uma imagem que fala por si só. Qualquer um que veja a imagem, sabe do que se trata, e relembra cada momento desse jogo inesquecível. E é este gigantesco gol que ilustra mais um humilde relato que faço para um jogo tão grandioso.

E você, quais as lembranças que guarda dessa memorável partida?

Um abraço, e até a próxima!

A HISTÓRIA DOS UNIFORMES NAS COPAS

por Idel Halfen

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Além das disputas esportivas que ocorrem na Copa do Mundo outras acontecem no campo do marketing, onde as marcas de equipamentos esportivos buscam através do fornecimento dos uniformes estar presentes não apenas aos olhos de quem acompanha o evento, mas, sobretudo, na mente dos potenciais clientes e em suas respectivas compras.

Para avaliar esse comportamento das marcas sob a ótica do marketing, a Jambo Sport Business desenvolveu um estudo que analisa as seleções e seus respectivos fornecedores desde a Copa de 1974, edição em que as logos dos fabricantes passaram a “aparecer” em alguns uniformes. Na verdade, apenas a partir da Copa de 2006 que os uniformes de todos os participantes do Mundial tiveram a logo do fornecedor incorporada às peças.

Independentemente das razões, é fato que algumas seleções costumam ter uma maior rotatividade de fornecedores do que outras. Apesar dessa maior “infidelidade” ser mais comum nas federações com menos tradição na modalidade, o que pode indicar que nessas organizações a relação “tempo de contrato/valores” é mais desfavorável, há casos de equipes campeãs do mundo entre as que mais trocam de fornecedores.

O estudo também avalia o posicionamento das marcas baseado em quatro variáveis:

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• o nível de exposição, o que se obtém através da observação do número de seleções vestidas;

• a penetração no mercado, visto que é possível presumir que o suprimento à seleção propicia uma melhor distribuição e consequentemente maiores vendas naquele país;

• a distribuição global, pois o patrocínio a seleções reconhecidas mundialmente por praticarem um bom futebol faz com que a disponibilidade das camisas não fique restrita aos países dessas seleções;

• a associação a valores que remetam a sucesso e bom desempenho, afinal de contas, estar na camisa da equipe campeã permite não apenas uma maior exposição e desejo de consumo, como também fortalece os atributos ligados à performance e qualidade.

Diante do exposto, podemos concluir que as seleções mais tradicionais – aquelas em que as vendas de suas camisas não ficam restritas ao próprio país e que não são muito sensíveis aos resultados esportivos – são as mais cobiçadas pelas marcas esportivas, o que faz subir os valores dos contratos deixando assim o mercado mais seletivo.

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Tais conclusões podem ser atestadas através da infinidade de números disponibilizados no estudo, os quais mostram que a Adidas, através de seu pioneirismo aliado a sua sólida estrutura, aparece em uma ótima posição nesse mercado, sendo em dez das doze edições de Copa do Mundo analisadas a marca com mais equipes no torneio. Desde 1974, a marca alemã supriu cento e trinta e uma seleções (40,9%), mais do que o dobro da Nike, que apenas a partir de 1998 passou a fornecer para as seleções que disputam o torneio em referência. Como 3ª força aparece a Puma sem ameaçar o protagonismo das líderes, mas que busca com foco no patrocínio individual a jogadores ter um lugar de destaque nesse concorrido mercado.

Para os que quiserem mais informações sobre o tema, o estudo está disponível no link: https://www.slideshare.net/jambosb/as-selees-e-suas-marcas-esportivas-1970-a-2018

1979/80; O PALMEIRAS E A PRIMEIRA DOR AO SOM DE KATE BUSH

por Marcelo Mendez

Era o ano da graça de 1979.

A vida seguia sendo algo bucólico no Parque Novo Oratório.

Nas calçadas ainda havia árvores, o começo da minha rua tinha uns 30 metros de terra, o gás era vendido em caminhões, na quinta-feira a caminhonete de Seo Dermival vendia tubaína para pagar no fim do mês. Na TV, minha mãe assistia a novela Pai Herói e no rádio, uma música dessa novela tocava o tempo todo...

Wuthering Heights era um sucesso de uma moça muito bonita, de voz aguda, chamada Kate Bush e minha prima Marlene, mesmo com o parco inglês que falava na época, tentava cantar junto. Bem, ele não conseguia, mas cantava mesmo assim...

Eu, menino de 9 anos, observava isso tudo, agora, com alguns outros interesses. 

O Palmeiras estava voando naquele ano! Havia metido 5x1 no Santos, 4x1 no Flamengo, varreu com todo mundo no interior e tudo indicava que eu ia ver o Palmeiras ser campeão. Mas...

A Descoberta do Tapetão

Eis que ali, aos 9 anos de idade, descobri que o futebol tinha coisas para além do campo. E essas coisas quase sempre vinham para causar grandes problemas. Foi a primeira vez que ouvi a palavra "Tapetão" na vida...

O Palmeiras era só espetáculo!

O timaço de Telê Santana, passava por cima de todo mundo, com espetáculos de bola de Jorge Mendonça, Baroninho e Jorginho. Tudo ia muito bem, até a hora que o Presidente da federação teve la uma ideia para a fase final.

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Na reta de chegada da peleja, Nabi Abi Chedid, marcou uma rodada dupla no Morumbi com direito a venda de direitos de transmissão para a TV. 

Corinthians e Ponte Preta fariam a preliminar de Palmeiras e Guarani, no dia 11 de novembro. 

Alegando que seu time não poderia fazer o jogo preliminar e que a sua torcida era maior que as outras três juntas, o presidente corintiano Vicente Matheus não aceitou a proposta da rodada dupla. O Corinthians não participou do evento e entrou na justiça, paralisando o campeonato.

A pendenga se arrastou e os jogadores entraram de férias obrigatórias. O campeonato só seria decidido no ano seguinte e, em janeiro. E 1980, não me parecia começar muito bem... 

A Canelada de Biro Biro doeu em mim

Na semifinal contra o Corinthians, o primeiro jogo já havia terminado em 1x1 e isso jamais aconteceria se o campeonato não tivesse sido paralisado. O Palmeiras tinha muito mais time, muito mais brilho. Mas em janeiro, já não tinha mais as mesmas pernas...

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No segundo jogo, após perder dois caminhões de gols, o Palmeiras vê uma cobrança de escanteio perambular na sua área. Após um bate-rebate, a bola Drible branca, encontra a canela de Biro Biro e chutada por esta, vai calmamente morrer no fundo da meta de Gilmar.

Atônito, estarrecido, em choque, vi aquilo acontecer. Como era possível?! Um time como o nosso, com a campanha que fez, ser eliminado com um gol de canela? E do Corinthians!!!!

Foi demais.

Naquele dia, não quis jantar. Também não fui até a sala ver a novela Pai Herói como a família, nem ouvir a música da moça bonita de voz aguda.

Fui pra meu quarto e o mundo dos adultos, no caso, representado por minha mãe, respeitou minha dor.

No escuro do meu quarto, procurei não sofrer, pensando que logo mais haveria outros campeonatos para o Palmeiras jogar, que dor latente logo mais passaria. Mas não consegui.

Naquele dia, senti que algo não estava bem. Que um tormento estava acontecendo.

Mal sabia que fosse ser o que viria pela frente...

CAMISA 10

por Marcos Vinicius Cabral

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Seja nas águas cristalinas de rios esverdeados, por onde passeiam em mansidão fúnebre e enlutada, ou em qualquer outro quilômetro sem fim, a camisa 10 nunca morre!

Nas folhas das árvores ou nas sementes das frutas comidas pelos pássaros que caem do alto e fazem companhia à corrente d'agua, ela se agiganta e demonstra sua grandiosidade.

É mais pura que a emoção do primeiro choro em vida do filho que chegou ao mundo, pois ela exorta qualquer resultado contrário à seus magnanimidade.

Selada em quatro linhas e traçadas na maternidade, ela não é nem de longe inocente e requer cuidado numa aproximação que seja.

Ah, o que dizer, da mística da camisa 10?

Talvez, diriam os insanos por futebol, como cachorro raivoso, que são ídolos mortais.

Não, definitivamente não são!

O torcedor, aquele que conhece os preâmbulos deste esporte, destina um intervalo de seu precioso tempo, e ao subir no palco, em prosa e verso, transformando em cenas inesquecíveis de uma jogada.

Se o gol arranca aplausos, o que dizer de uma jogada com um happy end no descortinar dos atos?

A mística da Camisa 10 e suas glórias resgatam uma lição poética, histórica, trazem à luz uma paixão antiga e uma infinita magia.

Uma pena que ela seja extinta cada vez mais em solo verde e inóspito por tantos pernas de pau que a vestem.

Estes merecem o pior castigo do mundo e que me desculpem os que têm compaixão deles.

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Mas aos jogadores que vestiram esse número em seus clubes, cravaram seus nomes em letras folheadas a ouro que nem o tempo será capaz de apagar minha referência e ovação.

No máximo, um empoeiramento será notado, mas nada que uma pano úmido do avivamento seja utilizado.

Os torcedores que enchiam os estádios, com bandeiras, bandeirolas, diria o locutor fanático, que estremeciam as ondas sonoras do rádio com sua voz tresloucadamente de um apaixonado torcedor.

Talvez, um dia tenhamos a curiosidade de saber como é difícil ser um José Carlos Araújo ou um Luiz Penido ou um Washington Rodrigues, na ocultação dessas emoções ao microfone.

O camisa 10 repousa antes, vê o mestre aproximar-se distante, o templo (estádio) tem o sopro do dragão e a expressão de milhões de curiosos.

Zico, Platini, Maradona, Roberto Dinamite, Zidane, Rivelino, Ronaldinho e outros tantos têm um lugar especial ao lado do trono do Rei Pelé.

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Portanto, o que dizer da soma de valores, em que a fama - osso do ofício - se torna ínfima para olhos que registram tanto encantamento e saúda em prosa, o artista da bola que ele é em verso?

Ali, dentro de campo, a largos passos românticos, o lance que encanta, levanta, tem brilho próprio, nota-se a marca do artilheiro, preso a um visgo, ao místico de vestir a camisa que se identifica com ele.

É a 10 sem dúvida!

Um presente aos mestres, craques e deuses do futebol arte!

Viva o futebol e seus camisas 10!

ENTRE VELHOS LOBOS E SÁBIAS RAPOSAS DA BOLA

por Zé Roberto Padilha

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Todas as vitoriosas gerações do nosso futebol tiveram o privilégio de contar com uma velha raposa à beira do gramado. Usando a expressão da época, em que não haviam delimitado as cercanias do burródromo à frente do banco de reservas, “na boca do túnel”. De que valeria Mario Jorge Lobo Zagallo disputar várias copas do mundo, tantos estaduais e brasileiros pelo Botafogo, se não repassasse à frente todo o seu aprendizado? Certa vez, nos vestiários, ele nos chamou a atenção pela maneira pela qual amarrava o cadarço da chuteira. “Desse jeito, no lado interno, você vai machucar seus pés. Faça o nó do lado externo porque as trivelas são raras. Os chutes com o peito do pé são maioria”.

Parece simples, mas são dicas que vão se juntando ao contexto da sua obra, e só podem ser repassadas por quem calçou chuteiras. Teve calos e criou, pelo lado esquerdo, as funções de um ponta moderno, que armava as jogadas, fechava os meio e possibilitava, por seus deslocamentos, a subia de um Nilton Santos para abrir a contagem em 1958 contra a Áustria.

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Quem sabe, o primeiro gol de um lateral esquerdo, que antes só marcava, na história das Copas? Depois de Pinheiro, Telê e Zagallo, tive como treinadores Didi, Evaristo de Macedo, Jouber Meira, Jair da Rosa Pinto, Paulo Henrique e outros monstros da arte de bater na bola. Cada um deles nos deu uma dica. Somadas, ajudaram várias gerações a jogar e se posicionar melhor.

Recordei tudo isto pensando nos jogadores do Flamengo. Que dica poderia dar o Barbieri aos seus comandados? Foi treinado por quem? Chupou gelo com quem? Quando Carlos Alberto Parreira foi técnico da seleção, colocou o Zagallo como seu auxiliar. E no Flamengo, as coisas ainda pioram quando o auxiliar se aproxima do ouvido do Barbieri. Ele veio do Futsal, e tão novo não teve tempo de conhecer nenhuma dica para auxiliar o Lucas Paquetá. Por onde esconderam o Jaime? E porque sumiram com o Adílio e o Andrade? E com que motivos dispensaram o Mozer?

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No Santos, Serginho Chulapa está no banco transmitindo “vestiários”. No São Paulo tem o Raí e o Ricardo Rocha. E o Vasco tem o Waldir para dar conselhos aos garotos que sobem. É preciso que o Flamengo convoque suas lendas, como Rondinelli e o Julio César, porque não há ninguém ali por perto a marcar território. E mostrar aos que chegam o tamanho da sua glória. É preciso um desses seus heróis na comissão técnica, como Nunes, que a tenho vivido e o manto sagrado, não aprendido nas apostilas das Universidades.

Mesmo porque fechar e abrir os livros você o faz pelos dois lados. Livros não têm cadarços e não dão calos. Mas para você treinar o Flamengo é preciso conhecer, e repassar, os dois lados da sua grande história.