AH, O FUTEBOL DE PRAIA...

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::

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Se tem algo que não dá para reclamar é da minha memória, mas ela falha, não tem jeito. Em minha última coluna sobre futebol de praia esqueci de citar o Dínamo, dos queridíssimos Tião Macalé e João Carlos Barroso, e recebi uma enxurrada de mensagens, uma delas de Jean-Pierre, o Francês, goleiro do Dínamo, e outra de Jorge David, o Baba, produtor do espetacular “Ao som do mar, à luz do céu”, dirigido por Pedro Amorim. Quem não viu esse documentário é uma excelente dica para o início do ano.

O Chicão Carneiro enviou uma informação importantíssima: o futebol de praia está prestes a completar 100 anos! Data linda!!! O Chicão também informou que o Paula Freitas foi campeão invicto de 2018. Parabéns!!! Cassius Cunha lembrou do Colorado. Foram belas mensagens e viajei lendo cada uma! Na verdade, na correria de escrever a coluna, não falei da qualidade do futebol de Ronaldo Boó, considerado o “Zizinho da Praia” por vários jornais da época, inclusive pelos colunistas Don Rossé Cavaca e Othelo Caçador.

Mas dessa família de boleiros, o futebol que mais me encantava era o de Rogério Boó, que sempre me dava carona ao final dos jogos a pedido de meu pai, Marinho. Rogério mandou mensagem dizendo que o Eurico foi grande no Grêmio e no Ouro Preto, não no Radar, como eu havia dito. Lembrou de Paulinho Tovar, campeão pelo Botafogo, em 48. Quantas recordações maravilhosas!!! Ah, lembrei um jogo em que meti três no Lagoa! Desculpa, Dadica, Kkkkkk!!!!

O amigo Careca também lembrou dos tempos na Montenegro quando Jorge Ben levava a bola para disputarmos dupla de praia, e das apostas promovidas pelo saudoso Doval. Foram áureos tempos! Olha, após essa coluna fui abençoado e recebi mensagem até de Jesus!!! Calma, não é milagre! Jesus é antigo amigo do Colégio Francisco Alves, em Botafogo, onde, sem modéstia, eu já dava os meus showzinhos!!!

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Ele afirma que os craques da praia teriam vaga em qualquer time profissional. Não tenho dúvida, tanto que muitos foram aproveitados. Em outra mensagem, essa carregada de emoção, Rubens Freitas disse que chorou lendo a coluna e relembrou algumas de suas passagens pelo futebol de praia. Lembrou da Pelada do Manoel, na subida da Niemeyer, e quando o técnico do time 44 o chamou para jogar. Também lembrou que Pedro Paradella narrava os jogos pela Rádio Continental. Lembrou de Tubarão, Mazinho, Felipe, Silvio Parodi, Pepa, irmão de Lula, e do árbitro Reinaldo Serra.

Enfim, ficaríamos falando aqui eternamente e sempre esqueceríamos de alguém porque o futebol de praia era um celeiro de craques. Não é fácil mostrar qualidade conduzindo a bola na areia fofa, mas essa rapaziada tirava de letra e atraía milhares de torcedores. Não existe modalidade mais carioca do que o futebol de praia porque reúne duas de nossas grandes paixões.

Fui um privilegiado por ter jogado bola sob o sol dessa cidade um dia maravilhosa. Depois, um mergulho e a resenha com os amigos. Hoje, as lembranças, intactas, douradas, eternas.

MEMÓRIAS DA AREIA

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::

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Como todos sabem sempre fui festeiro e adorava as noitadas cariocas. E quando chega essa época do ano é impossível não lembrar dos eventos que aconteciam na praia e reuniam milhares de pessoas. Era uma multidão para assistir os torneios de futebol de praia - beach soccer é o ca.... - e até mesmo nossos jogos festivos.

Posso dizer que joguei em todos os pisos porque, menino, corria atrás da bola no paralelepípedo da Aníbal Reis, em Botafogo, de lá fui para o futebol de salão - futsal é o ca... - e em seguida para o gramado do Botafogo, que conciliava com a praia. Sou Columbia F.C!

Logo após ser campeão do mundo, em 70, eu e meu irmão Fred organizávamos partidas sensacionais, que contavam com várias estrelas. Nelinho, Zico começando, Samarone, Dadá Maravilha e tantos outros. Mas, a areia também era recheada de estrelas... do mar, Kkkkk!!!!

Os anos 60/70 foram mágicos! Eu era do Leblon, mas Ipanema lançou Tom Jobim, Helô Pinheiro, Vinicius, o Píer, o fio-dental e os seis irmão boleiros do Lagoa: Gugu, Paulinho, Jonas, Dadica, Marcelo e Fernando. Foram campeões em 1964. Tempos depois ganharam pelo Montenegro.

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Em 1965, quem papou o título foi o Copaleme, da famosa zaga Pellicano e Canolongo. O Columbia também teve seus dias de glória, assim como o Porongaba, o Juventus, de Junior, o Guaíba, de Leoni, o Tatuís, de Tuca, o Radar, de Eurico Lira, e o Maravilha, de Armando Monteiro.

O Lula, do Lagoa, foi o maior que vi! Pior que o levaram para um teste no Botafogo quando eu já estava lá! E éramos da mesma posição, fiquei preocupado, Kkkkk!!!! Mas não vingou na grama. Vários não se adaptavam ao piso e chuteiras.

O goleiro Renato saiu do Lá Vai Bola para o Atlético-MG e o cracaço Tubarão, do Copaleme, para o Santos. As partidas eram assistidas por vários técnicos do futebol profissional, jornalistas, como Fernando Calazans e José Trajano, e celebridades, como Chico Anysio, Miéle e Milton Gonçalves. As partidas eram apitadas por Arnaldo Cezar Coelho e há relatos de que em algumas ocasiões ele precisou fugir nadando da ira da torcida, Kkkk!!!

Ah, outro que treinou no Botafogo foi o lendário Geraldo Mãozinha. Raphael de Almeida Magalhães também jogou demais, assim como Santoro, do Lá Vai Bola. O campo do Columbia era o último da praia, na subida da Avenida Niemeyer. O mais bacana é que muitos jogadores eram do Vidigal. Essa integração morro e asfalto sempre ocorreu no futebol de praia. Chapéu Mangueira e Babilônia, no Leme, Tabajaras, em Copacabana, e Cruzada São Sebastião, no Leblon. E o futebol era misturado com muita música e escolas de samba.

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Os torneios de futebol de praia faziam parte do calendário carioca. Também tinha a linha de passe com goleiro e o famoso jogo dos brancos contra os pretos. Nunca perdi, Kkkkk!!!! Tudo sem maldade ou preconceito. A praia sempre me revigorou, me deu preparo físico e amigos.

Fim de ano é o momento de mentalizarmos positivamente e peço para Iemanjá, a Rainha do Mar, que traga toda essa pureza de volta porque nosso futebol depende dela para sobreviver. 

CRAQUES DO CAMPO E DA PRAIA

Vídeo inédito da resenha com Júnior, Jairzinho e Gilmar Popoca, grandes craques do futebol de campo, que nunca dispensaram uma pelada na praia!

De óculos escuros e braços cruzados, o "rei da praia" observa do calçadão toda aquela resenha da rapaziada do Areia Leme. Embora tenha sido ídolo do Juventus, grande rival, Júnior não poderia deixar de comparecer na festa de 50 anos de um dos times mais tradicionais do futebol de praia.

- Venho com o maior prazer e satisfação, principalmente porque reencontro amigos que dificilmente vou ver no dia a dia! - disse Júnior.

Outra figurinha carimbada, que não perde uma pelada, seja na praia, na grama ou nas quadras, Jairzinho também marcou presença na festa do Areia. Morador de Copacabana, o "Furacão" estava em casa e não escondia a felicidade pelo encontro.

Além de Júnior e Jairzinho, Gilmar Popoca, ex-camisa 10 de Flamengo, Santos, Botafogo e Ponte Preta, bateu um papo divertidíssimo com a equipe do Museu da Pelada. Ao lado do amigo Brasília, o craque escalou o Flamengo da sua época, lembrou da concorrência com grandes ídolos do clube e falou sobre um jogo histórico nas divisões de base, no Maracanã.

- Eu fiz três gols de falta e ele empatou o jogo aos 45, com um gol de cabeça.

E Brasília reforçou a importância da partida:

- O João Saldanha dedicou sua coluna toda ao 'jogo da tarde", a preliminar do jogo de juniores.

FESTA DO AREIA

Através do parceiro Dime Cordeiro, um dos maiores zagueiros do futebol de praia do Rio de Janeiro, recebemos o convite para participar da festa de 50 anos do tradicional Areia, do Leme, e não pensamos duas vezes antes de aceitar e ser um dos patrocinadores da confraternização.

Se hoje em dia o futebol de praia está longe de ser o esporte mais praticado entre a garotada, o mesmo não se pode falar do passado. Grandes craques do Brasil deram os primeiros passos nas praias do Rio de Janeiro, em uma época em que centenas de pessoas se aglomeravam para assistir aos clássicos em Copacabana.

Neimar, Neyvaldo e Dime

Neimar, Neyvaldo e Dime

O Areia Leme, sem dúvida era um dos times mais temidos pelos rivais. Enquanto Dime Cordeiro fazia a segurança lá atrás, Neimar e Neyvaldo faziam chover no ataque e balançavam a rede com extrema facilidade. 

- Jogamos juntos por uns 20 anos e vivemos grandes momentos na praia.

O artilheiro Neyvaldo reforçou a felicidade por participar dos 50 anos da equipe.

- O mais legal disso tudo é que a amizade permanece. O Areia é um grupo de amigos. Além de companheiros de time, somos amigos desde os seis anos de idade.

Quem também fez questão de participar da festa foi o craque Adílio. Embora tenha sido ídolo do Royal, do Leblon, rival do Areia, o ídolo do Flamengo vê o encontro como uma boa lembrança do futebol de praia do Rio de Janeiro. 

Ao ser perguntado sobre qual time costuma vencer o duelo, Adílio puxou a sardinha para o seu lado:

- O Royal vencia mais!

Ao saber da resposta de Adílio, Dime preferiu não polemizar:

- Nessa época eu ainda não era nascido.

Por fim, o camisa 8 da Gávea exaltou a amizade com Neimar, com quem dividiu as quadras com a camisa da seleção brasileira e foi campeão mundial na Holanda.

- Esse cara é meu ídolo. Tive o prazer de conviver com ele durante um mês e meio e aprendi muito com ele! - retribuiu Neimar.

VAI ENCARAR?

texto: Sergio Pugliese | fotos: Marcelo Tabach | vídeo: Daniel Perpétuo

Em nossas andanças pelos campos e resenhas da vida alguns nomes se repetem como um mantra. São jogadores que atingiram um teto e ganharam o status de lendas, craques lembrados por seus feitos anos e anos depois, ídolos que cravaram sua marca no paredão dos melhores de todos os tempos. Um desses mantras é "Pellicano e Canolongo formaram a zaga mais respeitada da praia", "Pellicano e Canolongo formaram a zaga mais respeitada da praia", "Pellicano e Canolongo formaram a zaga mais respeitada da praia". Quem os enfrentou sabe bem, se não entrou pelo cano com um, certamente entrou pelo cano com o outro, sempre na sobra. Dois canos de precisão, que, em 1965, formaram a muralha do Copaleme e levaram o troféu de campeão carioca.

– Jogávamos na bola! - garantiu Pellicano.

Um brinde à Pelicano e Canolongo! | Foto: Marcelo Tabach

Um brinde à Pelicano e Canolongo! | Foto: Marcelo Tabach

– Minha canela não confirma isso - brincou Filé, adversário de peladas, que brilhou nos campeonatos do Aterro, pelo Ordem e Progresso, do Flamengo.

O Museu da Pelada reuniu velhos amigos, no Leme Tênis Clube, para homenagear os zagueiros camaradas, entre eles o chefe da torcida Caiuby, Luisinho, do Embalo do Catete, e Dr Paulo, ponta do Copaleme. Pedro Pellicano abriu o baú da saudade e exibiu, orgulhoso, faixa de campeão e uma antiga camisa, a tradicional amarela e azul. Fotos, aos montes!!! Uma delas mostrava o timaço Jomar, Vitor, Foguete, Camilo, Pará, Tide, Fernando Canolongo, Fernando Francês, Pellicano, Celinho e Pavão. Dava medo!!! 

– E ainda tinha João Santa Rita, o Tubarão, maior craque da praia!!!! - lembrou Leozinho, ex-presidente do Copaleme e excelente contador de histórias.

Mas ele tem razão. "O Tubarão fazia chover!", "O Tubarão fazia chover!" é um desses mantras ouvidos exaustivamente em nossas resenhas. E fazia mesmo! Fez tanto sucesso, que foi para Santos e, depois, África. O Copaleme era respeitadíssimo! A zaga, nem se fala! Em 66, Pellicano e Canolongo foram convocados para defenderem o time da Caixa Econômica Federal (RJ) contra a agência de Niterói, na preliminar de Brasil x Tchecoslováquia, no Maracanã, em amistoso preparatório para a Copa de 1966. Do Copaleme ainda foram o goleiro Gerson, que jogou na lateral e Osório, único funcionário da CEF. Ganharam de 1 x 0, gol de Tuca, do Tatuís, adversário das areias. O Brasil venceu de 1 x 0, gol de Pelé, que num jogo, em Santos, vestiu a camisa do Copaleme ao lado do saudoso Vitinho. 

O futebol de praia e sua dupla de zaga campeã da década de 1960. | vídeo: Daniel Perpétuo

– Tá vendo, não fizeram gol neles nem no Maracanã - brincou Luisinho, do Embalo.

Realmente passar pela dupla não era tarefa das mais fáceis. Mas, humildes, elegeram alguns atacantes que davam canseira: Lauro, canhotinho do Columbia e, depois, Velho Pescador, Gugu, do Lagoa, Jorginho, Ivan e César, ponta esquerda, todos do Lá Vai Bola. Na torcida, sempre alguém de peso, como Chico Anysio, Miéle, Milton Gonçalves e os jornalistas José Trajano e Fernando Calazans, que ia ver seu primo Calazans, no aspirante.

– Abre logo essa champa!!! - pediu Filé.

Pellicano e Canolongo estavam posando com cara de mau para Marcelo Tabach, fotógrafo do Museu da Pelada. Filé pediu licença e entregou as taças aos dois que, sorrindo, brindaram aos bons tempos e a alegria de estarem ali, entre amigos, celebrando a vida.