A DOR DE UMA PAIXÃO

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São dez livros, muitas noites concorridas, outras vazias. Fora de casa, já não temos os amigos próximos, parentes, apenas aqueles "tu é responsável por aquilo que cativas" que cativamos.

Já cascudo, passei a dar valor a quem compareceu, e procurar entender aqueles que não dei razões para se deslocarem até la. É uma sensação estranha: "você a caneta os livros e uma incógnita no ar: Será que vão aparecer?

Ontem foram poucos, fora meus parentes, dois atletas que treinei, dois com quem joguei: Nielsen e Eduzinho.

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É uma professora de história. Edu, com quem joguei um ano no Flamengo, foi o bálsamo de todas as ausências. Carinhoso, gentil, educado com todos, valeu cada quilômetro percorrido. Nestes exemplos, de qualidade e afeto, aprendi a valorizar no lugar de quantidade de livros vendidos. Por eles, os 30 livros vendidos valeram passar uma noite tão agradável. O livro ficou lá em consignação e posso dizer: com 250 páginas contém tudo o que gostaria de deixar como legado. Você vai gostar, tenho certeza. Abraço

BIOGRAFIA DAS COPAS

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Os fanáticos por futebol sabem que a vida é feita de ciclos que duram quatro anos. Eles são capazes de fazer referências a períodos de suas vidas, apenas com base em Copas do Mundo. O espetáculo esportivo faz parte da memória afetiva de todo brasileiro, até daquele que não acompanha futebol. Todos temos alguma lembrança de Copa, e não somente das cinco vencidas pelo Brasil (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002)

Em “Biografia das Copas”, da Editora Onze Cultural, o jornalista Thiago Uberreich, apresentador do Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan, promete resgatar passagens históricas, oferecendo ao leitor um cenário de cada mundial, de 1930 a 2014.

- A intenção é que o leitor faça uma viagem no tempo. Normalmente, lemos biografias de pessoas. Mas é perfeitamente possível biografar eventos que mexem conosco, como a Copa do Mundo, o torneio esportivo mais assistido do planeta – a final da última Copa foi vista por 1 bilhão de pessoas.

Especializada em títulos de futebol, a Onze Cultural traz um material diferenciado.

- O livro está recheado de fotos e exibe tabelas com os resultados das Copas. Visualmente, está maravilhoso. É um prato cheio para quem ama futebol e para quem quer relembrar passagens dos mundiais: os títulos do Brasil, os principais jogadores e as seleções que marcaram época! -  afirma o autor.

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Destinada a todos os públicos, a biografia tem 20 capítulos, um por Copa, divididos de 1930 até 2014. Além da história de cada mundial, seu contexto político e histórico, expõe fichas dos jogos do Brasil, um resumo das partidas das demais seleções e, a partir de 1970, o início da transmissão ao vivo pela TV.

- Realizei uma ampla pesquisa sobre relatos das partidas feitos pelos jornais e as transmissões dos mundiais pelo rádio e pela TV, sobre como funcionou o pool das transmissões em 1970, além de colocar a grade da televisão antes de cada jogo do Brasil. Assim, quem viveu e quem tem curiosidade poderá se recordar de quais emissoras transmitiram os jogos, os horários... A história da Copa do Mundo está intimamente atrelada à evolução das comunicações. - explica o jornalista, que acumula, no rádio, mais de 20 anos de experiência.

Aficionado por Copas

- Na época da Copa de 1990, ainda com 13 anos, comecei a colecionar material relativo aos mundiais. Ganhei dos meus pais o primeiro livro que li sobre o assunto. Era uma obra pequena, escrita pela jornalista Solange Bibas:

- ‘As Copas que ninguém viu’ contava os bastidores dos mundiais de 1930 a 1978. Apesar de defasado, ainda era vendido em livrarias, às vésperas da Copa de 1990. A partir daí, nunca mais parei de colecionar material sobre futebol. - conta Uberreich.

O jornalista é, ainda, um inveterado colecionador de imagens de futebol:

- Tenho guardados todos os jogos na íntegra de 1966 (Inglaterra) até hoje. Antes daquele mundial, eram raras imagens de jogos completos, mas os poucos que existem tenho em meu acervo. O material foi fundamental para escrever “Biografia das Copas”.

Prefácio de Mauro Beting

“Biografia das Copas” tem prefácio do amigo e colega de Rádio Jovem Pan Mauro Beting:

“Thiago é um Cafu que faz tudo e muito bem. Parece estar em todos os lugares. Ou sabe onde procurar. Traz não só uma sinopse bem observada e condensada de cada partida como a cobertura da mídia brasileira em cada torneio. Resgata manchetes e consegue nos projetar naqueles meses que ficam por toda a vida com a gente”.

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Livro: “Biografia das Copas”

Autor: Thiago Uberreich

Editora: Onze Cultural

Lançamento: 12 de junho de 2018

Horário: 18h

Local: Livraria Cultura do Conjunto Nacional

Endereço: Avenida Paulista, 2.073

Contato do autor: thiago.uberreich@jovempan.com.br

FECHADO POR MOTIVO DE FUTEBOL

por Claudio Lovato

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Em 1995, o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940- 2015) lançou o clássico “Futebol ao sol e à sombra”, um livro cuja presença é essencial na mesa de cabeceira de todos os interessados em compreender a importância do futebol nas sociedades mundo afora. Mas antes e depois dessa obra magistral, Galeano produziu muitos textos sobre futebol, publicados de forma esparsa em outros livros seus, em jornais e revistas. Esses escritos, e mais a íntegra de uma entrevista concedida à revista argentina “El Gráfico”, um prefácio e dois discursos, foram reunidos no livro “Fechado por motivo de futebol” (editora L&PM, 2018, 228 páginas). Fruto de um extraordinário trabalho coordenado pelo editor argentino Carlos E. Díaz, esse resgate de uma parte valiosíssima (inestimável) da literatura de Eduardo Galeano incluiu contribuições de Helena Villagra, companheira de Galeano durante 40 anos, e de Ezequiel Fernández Moores e Daniel Winberg, amigos com quem o escritor compartilhou projetos e a profunda paixão pelo universo da bola. O título do livro refere-se ao fato de que, no começo de cada Copa do Mundo e ao longo do mês inteiro, Galeano pendurava na porta de sua, em Montevidéu, um pequeno cartaz com o aviso “Cerrado por fútbol”. Palavras de Galeano: “Quando retirei [o cartaz], um mês depois, eu já havia jogado 64 jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida”.

Uma amostra do que se encontra no livro:

Papai vai ao estádio

Em Sevilha, durante um jogo de futebol, Sixto Martínez comenta comigo:

- Aqui existe um torcedor fanático que sempre traz o pai.

- Claro, é natural – digo. – Pai boleiro, filho boleiro.

Sixto tira os óculos, crava o olhar em mim:

- Este de quem estou falando vem com o pai morto.

E deixa as pálpebras caírem:

- Foi seu último desejo.

Domingo após domingo, o filho traz as cinzas do autor de seus dias e as põe sentadas ao seu lado na arquibancada.

O falecido tinha pedido:

- Me leva para ver o Betis da minha alma.

Às vezes o pai ia até o estádio numa garrafa de vidro.

Mas numa tarde os porteiros impediram a entrada da garrafa, proibida graças à violência nos estádios.

E a partir daquela tarde, o pai vai numa garrafa de papelão plastificado.

COPA DO MUNDO DA MÚSICA

por Mateus Ribeiro

A Copa do Mundo está chegando, e já estamos todos no clima. Seja trocando figurinhas do álbum, seja fazendo simulações com a tabela, todo mundo já está se imaginando na Rússia.

Como sou ser humano, amo futebol (principalmente a Copa do Mundo), decidi que entraria no clima do Mundial, mas de maneira diferente: resolvi que era a hora de listar atletas que disputaram o maior campeonato de futebol do planeta, e que se aventuraram no mundo da música.

Nessa pequena lista, você encontrará de tudo: desde campeões geniais até jogadores não tão talentosos, seja cantando samba ou judiando de uma bateria. Sem mais conversa, vamos ao que interessa!

Alexi Lalas, o zagueiro rockeiro

É muito provável que você se lembre de Alexi Lalas, um dos maiores fenômenos da inesquecível Copa de 1994. Em razão de sua cabeleira e sua barba um tanto quanto chamativas, Lalas foi um dos jogadores mais falados durante o Mundial. Se fosse nos dias atuais, certamente viraria um meme.

Lalas não era apenas jogador de futebol. Desde sua adolescência, fazia parte de uma banda chamada Gypsies. Porém, seu “sucesso” veio com a carreira solo, com o zagueiro/guitarrista chegando a lançar dois discos enquanto jogador: “Far From Close”, em 1996, e “Ginger”, em 1998. Lalas ainda está na ativa, passeando por várias vertentes do rock and roll. Seu último disco, lançado em 2016, chama se “Shots”, e conta com a ótima “Big Break”, que pode ser conferida no vídeo.

Sócrates, um fã de sertanejo:

Que Sócrates é um dos maiores e mais emblemáticos jogadores da história do futebol brasileiro, todos nós estamos cansados de saber. O que muita gente talvez não saiba é que o saudoso Doutor tem um disco de música sertaneja lançado.

Dois anos antes de disputar sua primeira Copa do Mundo, Sócrates gravou um disco de música sertaneja, intitulado “Casa de Caboclo”. O craque do Corinthians e da Seleção Brasileira gravou músicas como “Cabocla Tereza”, “Luar do Sertão” e Couro de Boi”. Para quem gosta de uma boa moda de viola, vale a pena ouvir este grande achado.

Júnior Capacete, um craque do samba: 

Um dos principais jogadores da história do Flamengo, Júnior, carinhosamente (ou não) chamado de Capacete, esbanjou talento e longevidade pelos gramados do Brasil e do planeta.

No ano de 1983, Júnior gravou um LP, com destaque para a música “Povo Feliz” (também conhecida como ‘Voa, Canarinho, Voa), tema da Seleção na triste Copa de 1982. Seu LP é algo difícil de se encontrar, mas enquanto não encontro, você pode ficar com essa regravação de 2014 para a citada música.

Petr Cech:

Em 2006, Petr Cech pintava como um dos melhores goleiros do mundo. A seleção da República Tcheca, que disputava seu primeiro Mundial, despertava curiosidade, e alguns até imaginavam que Nedved e sua turma poderiam fazer uma boa campanha. Isso não aconteceu, e o sonho acabou na primeira fase.

Essa foi a única participação de Cech em um Mundial. Sua carreira foi um sucesso, com títulos nacionais e continentais pelo Chelsea. Hoje, já em final de carreira, alterna bons e maus momentos no rival Arsenal.

Pelo menos depois que aposentar, o goleirão já sabe o que fazer: aulas de bateria, uma vez que seu kit sofre um pouco na mão do grandalhão. Mas imagina só se ele tivesse com as baquetas o mesmo talento que tem com as luvas? Desfrute de bons momentos em seu canal no Youtube:

Miguel Herrera cantando Ska: 

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Miguel Herrera foi um lateral da Seleção Mexicana, e como a grande maioria dos seus companheiros de selecionado, nunca chamou muito a atenção pelo talento. Talvez você se recorde de seus espetáculos na Copa 2014, quando como treinador, proporcionou algumas cenas bonitas como essa:

Pois bem, mas se você acha que esse comportamento, e o fato de ter sido demitido do cargo de técnico da Seleção Mexicana por ter descido o braço em um jornalista foram suas maiores bizarrices, está redondamente enganado.

Em 2002, quando treinava o Atlante, o treinador gravou uma canção do ritmo SKA para ajudar a promover e divulgar o bom momento do clube. Clique no link abaixo, e assista essa preciosidade do mundo alternativo.

VIDEO| Miguel Herrera al grito de guerra - SanDiegoRed.com
La canción del género "Ska" que alguna vez hizo el 'Piojo' para el Atlantewww.sandiegored.com

Ümit Davala, o rapper Turco: 

Davala foi um dos pilares da Seleção Turca na inesquecível campanha na Copa de 2002. Chamou a atenção pelo seu futebol e seu penteado de gosto duvidoso.

Se você achou o penteado dele um tanto quanto alternativo, é porque não ouviu disco de Rap cantado em turco pelo ex jogador. Lançado no ano de 2004 , o disco chamado de “UD 2004” é um tesouro para quem gosta de curiosidades e excentricidades.

Ryan Babel, boleiro e rapper nas horas vagas: 

O atacante holandês está bem longe de ser um craque. Mesmo assim, conseguiu participar de poucos minutos entre os Mundiais de 2006 e 2010. Sua carreira em Mundiais não passa disso.

Talvez sua carreira como rapper seja mais interessante. Com o nome artístico de Rio, Babel tem participações em músicas de outros rappers. Mas seu melhor momento mesmo fica para a música gravada ao lado do compatriota Royston Drenthe (que chegou a jogar no Real Madrid). Vale a pena ouvir:

Raí, o homem que estava nos sonhos de Paula Toller: 

Achou que apenas Sócrates representaria a família Vieira de Oliveira? Achou errado, amante da música e do futebol.

No ano de 1993, antes de disputar sua primeira (e única) Copa, um dos principais jogadores da história do São Paulo participou do clipe da música “Eu tive um sonho”, da banda Kid Abelha. Raí faz um papel de Príncipe Enantado no clipe. Relembre esse grande crossover abaixo:

Tomas Brolin, dos gramados para as pistas de dança: 

No ano de 1999, as boybands estavam em alta. Nomes como BakstreetBoys, Five e N´Sync estavam no auge, e rodavam o mundo, fazendo shows para multidões.

O fenômeno rodou o planeta, e a Suécia não poderia ficar de fora. Um dos principais nomes da Seleção Sueca na Copa de 1994, Tomas Brolin fez parte do grupo Friends In Need, que executava um eurodance de gosto um tanto quanto duvidoso. O clip é tão inusitado quanto a música. A desenvoltura de Brolin como integrante de banda de adolescente mostra que escolher o futebol foi a melhor das opções.

Pelé, um pouco além do ABC: 

A lista tinha que terminar com o Rei. Pelé gravou uma música para promover os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

A canção, intitulada “Esperança”, é mais empolgante do que o jingle que dizia que “…toda criança tem que ler e escrever”. Porém, podemos dizer que como cantor, o rei continua sendo o maior jogador de futebol de todos os tempos.

E você, consegue se lembrar de algum outro craque (ou pereba) que participou de uma Copa do Mundo e foi fazer sucesso nos estúdios e palcos mundo afora? Caso se lembre, mande aí nos comentários!

Até a próxima!

FUTEBOL ARTE

por Sergio Pugliese

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Mesmo com uma perna bem menor do que a outra, o menino Candido se aventurava nos campos de várzea de sua cidade, no interior de São Paulo. Era impossível não tentar. Colado à sua casa havia um campinho e bastava abrir a porta da cozinha para ele quase bater a cabeça numa das balizas. Apesar disso, seus pés descalços nunca criaram jogadas brilhantes. Então, resolveu investir nas mãos. Não virou goleiro como alguns podem imaginar. Fora das quatro linhas, sentado num banquinho, deu seus dribles mais desconcertantes e, tal qual um reserva resignado, criou parte de sua obra prima. Como observador, coloriu os campos a seu modo, vestiu o time preferido com as cores mais vivas da aquarela e, de pincelada em pincelada, conquistou o mundo. O menino ruim de bola cresceu e virou Candido Portinari, maior expoente da pintura modernista brasileira. Em sua monumental história, contabilizou 5 mil obras e nunca esqueceu de retratar os campos de várzea, uma espécie de amor não correspondido.

- Era como se pintasse meninas que nunca deram bola para ele – comparou o filho, esse sim, bom de bola, João Candido Portinari, fundador e diretor do Projeto Portinari, responsável pela catalogação da obra do pai. 

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Tímido, o pintor expressava suas paixões com cores e palavras, como no trecho editado de uma de suas poesias publicadas no livro "O menino e o povoado": “Aos 8 anos tive uma namorada branca branca. Nunca lhe disse uma palavra. Depois nunca mais a vi e não ouvi seu nome. Namorei tantas meninas e ninguém soube”. Foi exatamente assim com os campinhos. Numa rápida navegada no site do projeto, a equipe do A Pelada Como Ela É encontrou 18 pinturas de campos de várzea, quase todos em Brodowsky, terra natal. Numa delas, um autoretrato, “Futebol”, aparece cercado de meninos e o que o diferencia do grupo é a perna menor do que a outra. Só especialistas para atentarem ao detalhe. O filho teve melhor sorte com a bola. Fundador, em 1954, do poderoso time de praia Copaleme, batizado inicialmente de Arizona, na década de 50 travou duelos espetaculares com os rivais Radar, de Copacabana, e Lá Vai Bola, do Leblon.

- A Avenida Atlântica, ainda com uma pista só, ficava apinhada de gente para assistir – recordou o filho.

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João Portinari veio jovem para o Rio e, aos 18 anos, era figura conhecida na noite carioca. Saía do Leme com sua turma e três violões - iam parando de bar em bar até Ipanema. Na volta para a casa, às 5h da madrugada, esticavam até a Siqueira Campos, em Copacabana, na Sinuca Balalaika e, depois, na Leiteria Bol, na Lapa, para tomar coalhada e roubar as garrafas de um litro de leite deixadas nas portas das casas. Ele e os amigos eram os reis do Rio. Saiu de Brodowsky sem prestar atenção no talento do pai. Deixou para trás a casa de tijolo, com poço, moinho, fogão de lenha e cadeira de balanço, e caiu na gandaia carioca com seu carraço Buick Dynaflow. Os amigos e companheiros de Copaleme, alguns do Morro da Babilônia, adoravam a farra. O goleiro Maurício, Pedro Paulo, Lelé, Zezinho, Amaury, Pará, Henrique Cabeludo e Flávio, filho de Ary Barroso, comemoravam os títulos em noitadas nas boates Arpege, do pianista Waldir Calmon, Drinks, Little Club, no Beco das Garrafas, e Maloca, em São Conrado.

- Não tinha noção de quem era meu pai e seus amigos – confessou.

As reuniões na casa de Candido Portinari eram frequentes e animadas, entre outros, por Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge Amado e Adalgisa Nery. Certa vez João Portinari chegou em casa e irritou-se quando viu, numa rodinha musical, um homem tocando seu violão. “Vai desafiná-lo”, pensou. Saiu irritado, batendo porta e só anos depois soube tratar-se do maestro Villa-Lobos. No Rio, João sentia-se verdadeiramente feliz e divertia-se com as loucuras do amigão Alcyr, que se enchia de caipirinha nas boates e após o derradeiro gole subia na mesa e gritava “Tequila!!” antes de cair desmaiado. Bons tempos! Mas um dia a ficha caiu e João resolveu olhar para trás. Foi quando aprofundou-se e encantou-se com a história do pai.

Reuniu documentos, fotos, livros, cartas, toda uma vida. A nosso pedido procurou algum registro que ligasse o pai ao futebol e achou uma foto rara, do início dos anos 20, de Portinari no time de pelada da Escola de Belas Artes. Emocionou-se. Na poeira dos arquivos, também achou uma reportagem de O GLOBO, muito antiga, intitulada "Como trabalham e sonham nosso pintores” e leu um trecho em voz alta: “Tenho, também, uma delícia grata e profunda. É quando componho, por exemplo, "Jogo de futebol em Brodowski", a cidade em que me fiz e onde a minha infância, sob a inspiração do modesto dinamismo do meio, embebeu-se de miragens, impregnou-se de melancolias ou sonhos. As imagens que ali se afirmam, a bola de meia, os pés descalços, os trancos, as caneladas, a cerca de pau, tudo isso são imagens impressas na minha memória, que se reúnem e gritam a um esforço evocador, que cruzam os caminhos do meu mundo secreto”.

No fim do texto, o filho coruja sorriu orgulhoso. Balançou a cabeça como um menino levado assumindo o reconhecimento tardio ao talento do pai e ao mesmo tempo transparecendo uma felicidade gigante por ter despertado a tempo de abraçar todo o seu passado e hoje viajar o mundo de mãos dadas com o seu melhor amigo.

 

Texto publicado originalmente no dia 5 fevereiro de 2011, na coluna "A Pelada Como Ela É".