RETRATO EM PRETO E BRANCO

por João Carlos Pedroso

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Esta foto é produto de um carinhoso e consentido roubo no arquivo do velho Jornal do Brasil, ainda na Avenida Brasil 500. E isso, a referência a um jornal mitológico, de tempos românticos, sonhos e liberdades possíveis, é apenas umas das inúmeras de possibilidades de felicidade reunidas neste pequeno quadrilátero em duas cores.

Tem um negro lindo, forte, jovem e vitorioso em primeiro plano, troféu reluzente. O cenário é Maracanã ainda do povo, lotado, com apenas 10 anos de vida, em 1960, primeiro ano da nostálgica Guanabara. Ao fundo, à esquerda, como coadjuvante de luxo, João Havelange, já então presidente da CBD (depois CBF). Ao fundo, onde os dirigentes deveriam ficar em conquistas desportivas, vendo a vitória de um negro, capitão de um time pequeno. O Olaria, campeão do Torneio Início daquele ano, depois de derrotar o Fluminense (que era o campeão estadual, inclusive) por 2 a 0 na final. Sérgio, o zagueiro de boa técnica e muita personalidade da foto, capitão do time da Bariri, é meu pai. 

A Guanabara nasceu naquele ano. O Rio deixava de ser Distrito Federal, mas não perdia a pose, se transformando no menor e mais charmoso estado brasileiro. Charme com trilha de bossa nova, as cariocas em doce balanço a caminho do mar (a primeira miss do novo estado, Gina MacPherson, seria Miss Brasil daquele ano), o polêmico Carlos Lacerda no Governo do Estado e um futebol cheio de malandragem, quando o subúrbio mostrava suas armas a cada rodada e os grandes eram cinco — o hoje tão frágil América, inclusive, foi o campeão estadual de 1960. 

Mas, vejam só, não foi o primeiro campeão da Guanabara. Essa honra coube ao Olaria. É que, naquele tempo (e até 1967, com uma edição comemorativa em 1977) havia o Torneio Início, espécie de apresentação das equipes cariocas às torcidas. A competição era disputada num único e festivo dia de Maracanã lotado, com partidas que duravam apenas dois tempos de 10 minutos, com exceção da final, quase um jogo normal com seus dois tempos de 30 minutos.

No seu primeiro jogo, o Olaria não teve grandes problemas para passar pela Portuguesa por 2 a 1, gols de Jaburu e Da Silva, contra um de Castelo para o time da Ilha do Governador. A segunda partida já foi bem mais difícil. O adversário era o Botafogo, com o lendário Manga no gol e Amarildo (que dois anos mais tarde seria o Possesso da Copa de 1962) no ataque. Deu 1 a 1 no tempo normal, gols de Neivaldo para o alvinegro e Drumond para o Olaria. Nos pênaltis, disputados em séries de três, 5 a 2 para o time do subúrbio –— 2 a 2 na primeira série e 3 a 0 na decisiva, para desespero do quase nunca tranquilo técnico alvinegro, Paulo Amaral. 

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Já estava bonito para o time da Bariri. O próximo desafio era o Vasco, já pela semifinal. O time de São Januário tinha Brito na zaga (o mesmo que se tornaria tricampeão mundial em 1970), Pinga e Roberto Pinto na frente, além do folclórico técnico Filpo Nuñez no banco. O Vasco saiu na frente com Pinga, mas o habilidoso meia-esquerda Drumond voltou a marcar e garantiu o empate. Na série de três pênaltis, Roberto Pinto perdeu um e Drumond converteu os três. Olaria na final.

E o adversário era o Fluminense. Olha que o tricolor era o campeão estadual — e seria vice na próxima edição da disputa. O tempo de jogo era maior, quase normal: duas etapas de 30 minutos, o que, tradicionalmente, favorece o melhor time. E foi isso que aconteceu. Só que esse time, ao menos naquele domingo, era o Olaria. Um contundente placar de 2 a 0 garantiu a façanha, com gols de Jaburu e Petit. E isso mesmo com o time azul e branco perdendo o ponta-esquerda Da Silva, expulso.

Jogo encerrado, João Havelange entregou a taça para o capitão Sérgio, central de boa técnica que chegou à Bariri vindo do Flamengo e depois jogaria na Venezuela, antes que uma contusão no joelho abreviasse sua carreira. 

Hoje o JB não está mais nas bancas, a Guanabara só existe enquanto saudade, o Maracanã encolheu e ficou longe do povo. Negros continuam lindos, mas sofrem cada vez mais, o Olaria não assusta mais ninguém. Sonhos e liberdade parecem cada vez menos possíveis. E eu ainda poderia ouvir, parafraseando uma frase-símbolo dos tempos sombrios que vivemos: 

“O seu pai tá morto, ô babaca! ”

Um pouco menos, a cada pessoa que ler este texto. 

Assim como os sonhos, a liberdade e a esperança estarão menos mortos, a cada vez que lembrarmos como a vida pode e deve ser.

A luta continua.

 

 

Torneio Início Carioca 1960

 

LOCAL: Maracanã.

DATA: 17/07/1960. 

 

FLUMINENSE 0-2 OLARIA
Árbitro: José Gomes Sobrinho.
Gols: Jaburu e Petit.
Expulsão: Da Silva.
FLUMINENSE: Vítor Gonzalez, Jair Marinho, Hércules e Paulo; Edmílson e Dari; Maurinho, Wilson, Ivo, Jair Santana e Danilo.

 Técnico: Zezé Moreira.
OLARIA: Antoninho, Maurício, Sérgio e Jurandir; Nelson e Haroldo; Valter, Jaburu, Petit, Drumond e Da Silva. Técnico: Délio Neves.