A CÉSAR O QUE NÃO É DE CÉSAR

por Zé Roberto Padilha

 Zé Roberto Padilha

Zé Roberto Padilha

Quando o córner contra o Flamengo foi batido, logo cedo pela manhã de domingo, e a bola caiu na pequena área, segundos antes do meu filho deixar a sala inconformado com o segundo gol tomado pelo Flamengo contra o Atlético-PR, lembrei-me de um goleiro que fez parte da nossa formação: Jorge Vitório. Alto, forte e disposto, quando uma bola daquela era alçada sobre a grande área, porque a pequena ele já tomava com sua envergadura, ele saia em todas e gritava: “Sai que é minha seus juvenis!”. E com aqueles joelhos à frente do corpo subindo em todas as direções, crescemos tomando cuidados a cada escanteio. Não tem trauma de infância? Então o trauma juvenil meu e do Rubens Galaxe, e do Cléber e do Pintinho, e de outros tantos que se formaram nas Laranjeiras, era de ser atropelado durante a cobrança de um escanteio.

César não. Podendo usar suas mãos e socar aquela bola, ficou plantado em cima da linha do seu gol a esperar que a sorte, ou o tempo de bola, porque esqueceu que quem possuía seus melhores fundamentos, Rever e Juan, não estavam por ali a protegê-lo, acabou levando impávido, estático, o segundo gol do Furacão. Fora de ritmo, sem o tempo da bola e ainda dando azar de pegar um campo de grama sintética que dá velocidade aos tiros em sua direção, César recebeu o que não é para ser do César: a camisa titular do Flamengo para defender sua liderança no Campeonato Brasileiro.

O treinador pode poupar todo mundo. Menos o goleiro. Este, quando mais joga, mais esperto, mais ligado nas inúmeras situações que rondam sua cidadela fica. O tal ritmo de jogo lhe é fundamental e por isto Rogério Ceni jogou um milhão de partidas seguidas no auge do São Paulo. Nos anos 70, falava-se em Palmeiras, e lá estava o Leão no gol. Era o Félix no Fluminense e o Raul no Flamengo. E era Gilmar dos Santos Neves o nome que abria as escalações dos gloriosos tempos do Santos FC.

Em Minas, não tem mais Atlético x Cruzeiro: é Victor x Fábio. Em Recife, a escalação de Magrão, no gol do Sport, é mais certa no programa de domingo do que a de um boneco de Olinda. E no gol do Grêmio, Renato Gaúcho quando entrou o titular era o Marcelo Grohe. E ele jamais pensou em mexer naquela peça cheia de segurança. Cheia de confiança e detentora de todos os rumos e tempos da bola.

Portanto, Barbieri, poupe o Diego, que já passou dos 30, e reveze seus goleadores que não marcam gols. Mas não brinque com aquela nobre posição. Ou você escala o Diego Alves, e continue a brigar pela liderança, ou continue a dar a César o que não é, ainda, de César.

É O MESMO CARA?

por Claudio Lovato

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É o mesmo cara ou não é?

Claro que sim.

Lógico que não.

Sim, senhor.

Não mesmo.

Foi craque, jogou na seleção, disputou Copa do Mundo, encerrou a carreira há trinta anos.

E, agora, cabelo grisalho, sobrepeso, marcas do tempo espalhadas pelo rosto.

É o mesmo cara ou não é?

Só é.

De jeito nenhum.

O sorriso de quem fez tudo o que havia para fazer na condição de ídolo de várias torcidas, os gestos que já não guardam tanta energia, as palavras de poucas ênfases.

Mas o olhar.

É o mesmo cara ou não é?

Claro que é.

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Dá pra sacar pelo olhar.

O olhar de quem ainda solta bombas na lembrança. (E ainda tentaria mandar algumas hoje mesmo se fosse chamado a fazê-lo.)

De quem encobre goleiros na imaginação. (Sendo que nenhum desses devaneios supera o que ele fez na realidade quando era jovem, magrinho, cabeludo e feliz proprietário de um canhão na perna esquerda.)

O olhar de quem levou exércitos de meninos a decidir ser jogadores de futebol. (Sim, ele, figura maior na galeria pessoal de cada um daqueles para os quais sempre será o mais referencial e inspirador dos mestres.)

O olhar de quem sabe que fez milhões de torcedores se sentirem fodões-soberanos-donos-do-pedaço dentro do ônibus e depois na firma na segunda-feira de manhã.

Sim, é o mesmo cara.

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Sentado no sofá do apartamento de três quartos, a cerveja colocada na mesa de centro pela companheira de muito tempo, o pensamento longe, um herói temendo o esquecimento em seu descanso tão merecido quanto indesejado.

Mas o mesmo cara.

CRAQUE, A FAMÍLIA AMORIM FAZ EM CASA

por Marcos Vinicius Cabral

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Jogar bola no campo de várzea em frente à sua casa, em Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro, nunca foi problema para o pequeno Jorginho. 

Difícil era conviver com as constantes agressões verbais e físicas, sofridas por ele e sua mãe quando seu Jayme - um português vascaíno - chegava em casa.

- Meu pai era muito violento. Batia demais na minha mãe, que inclusive é surda de tanto tomar soco dele. Já em mim, meu pai me agredia como se eu fosse um homem, apesar dos meus 8, 9, 10 anos! - conta o treinador que recentemente foi demitido do Vasco.

Ainda na infância, viu por muitas vezes seu irmão mais velho - hoje Pastor Jayme Amorim, da Igreja Internacional da Graça de Deus e braço direito do Missionário R.R Soares - chegar em casa alcoolizado enquanto um outro irmão completamente drogado, às vezes nem chegava.

Mas se isso era ruim, o pior foi ver uma de suas irmãs fechar os olhos definitivamente para a eternidade. 

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Portanto, resistir aos duros golpes dados pela vida era determinante para seguir em frente.

O futebol era, naquele momento, sua rota de fuga, no qual sua única certeza era que não  desistiria e seria alguém na vida. 

E foi assim, obstinado, que Jorge de Amorim Campos, não hesitou: com 19 anos, começou a jogar futebol no América/RJ.

Nesse período, o lateral-direito já se destacava nas categorias inferiores da seleção brasileira, conquistando as medalhas de prata nos Jogos Pan-Americanos de 1983, numa geração  que merecia o ouro.

Não demoraria muito para algum clube contratar aquele lateral.

Em seu currículo, um jogador que era rápido, com excelente visão de jogo, passes e cruzamentos precisos e que voava pelas extremidades do campo com uma velocidade impressionante.

Para quem na infância "comeu o pão que o diabo amassou" literalmente, jogar no "Mais Querido" não seria tarefa inglória.

Na sua cabeça, passava um filme de terror quando lembrava dos momentos em que apanhava do pai ou quando chorava ao ver o sofrimento da mãe e quando também se escondia dos irmãos para não ser maltratado.

Porém, foi em 1984 que os joelhos de Leandro lhe obrigariam a jogar de zagueiro, deixando a camisa 2 sem dono.

Eis que a oportunidade batia à porta do jovem Jorginho, que - apesar da responsabilidade de substituir Leandro, a maior referência da posição - encararia o desafio com maturidade de quem enfrentou problemas pessoais mais graves até chegar ali.

Agarrou e não largou mais. 

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- Certa vez, eu estava fazendo tratamento no clube e o Jorginho chegou. Eu disse para o meu filho Leandrinho, que estava comigo: está vendo aquele jogador ali? (disse apontando o dedo para Jorginho), ele joga muito. Mas sabe quando ele vai jogar igual ao seu pai? Nunca, conta Leandro ao Museu da Pelada, fazendo questão de dizer que isso motivou Jorginho a ser o grande jogador que foi.

E completa:

- Depois de Carlos Alberto Torres, foi o melhor lateral que eu vi jogar!

Para Jorginho, o que antes era inferno, se tornara um paraíso, pois afinal de contas, não era qualquer um que tinha o privilégio de conviver com o falecido goleiro Zé Carlos, Leandro, Mozer, Tita, Andrade, Júnior, Adílio, Nunes e Zico.

Assim como na cidade de Jericó, onde Jesus foi tentado pelo Diabo no Monte, o jovem Jorginho, então dono da camisa 2 do Flamengo, resistia às tentações da Cidade Maravilhosa. 

Em 1986, conquistou o Campeonato Carioca e entregou sua vida a Jesus, naquele 1° de junho daquele ano.

No ano seguinte, já recebeu as primeiras convocações para a seleção brasileira principal, sendo ao lado de Zé Carlos, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Bebeto, Renato Gaúcho e Zinho, Campeão Brasileiro de 1987 e prata nas Olimpíadas de Seul, em 1988, na Coreia do Sul.

Em 1989, quando ainda defendia o Flamengo, conseguiu se tornar Campeão da Copa América.

Logo após a conquista, Jorginho se transferiu para o Bayern Leverkusen, da Alemanha. 

O lateral-direito foi destaque na conquista da Copa da Alemanha na temporada de 1992/93.

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O sucesso foi tanto que, no mesmo ano, foi contratado pelo arquirrival Bayern de Munique.

Então, o menino de Guadalupe chegou ao auge, vencendo a Liga dos Campeões (1995/96) e Campeonato Alemão (1993/94).

Em meio a essa excelente fase, o craque foi chamado para a seleção brasileira na disputa da Copa do Mundo de 1994, em solo americano. 

O título conquistado veio coroar uma geração contestada, que sob o comando de Parreira, deu a resposta em campo e quebrou um hiato de 24 anos sem título. 

Nos anos seguintes, já experiente, Jorginho ainda passou pelo Kashima Antlers, do Japão, levantando as taças do Campeonato Japonês (1996 e 98), da Copa da Liga Japonesa (1997), além da Copa do Imperador (1997).

Uma década depois, retornou ao Brasil para atuar no São Paulo. 

Em 2000, foi Campeão Brasileiro e da Copa Mercosul com o Vasco da Gama, tornando-se ídolo nos corações vascaínos e deixando seu pai, o velho Jayme, feliz no céu. 

Antes de encerrar a carreira, Jorginho defendeu ainda o Fluminense, onde foi Campeão Carioca, em 2002. 

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Pendurando as chuteiras, resolveu se dedicar às carreiras de treinador e de auxiliar, sem jamais ter abandonado sua Bíblia Sagrada, já que nos tempos de jogador, ele foi um dos principais nomes dos Atletas de Cristo, movimento que começou a ganhar força no futebol brasileiro no começo dos anos 1990.

Casado com Cristina e pai de Laryssa, Vanessa, Daniel e Isabelly, Jorginho também atua no social, sendo presidente do Instituto Bola Pra Frente, que nasceu de um sonho quando ele tinha 11 anos de idade e jogava bola no campo de várzea, em frente à sua casa, em Guadalupe, onde até hoje funciona o Instituto. 

Desde a sua inauguração, no ano 2000, o Bola Pra Frente, vem investindo em pesquisa e desenvolvimento de ferramentas que utilizam o futebol para a transformação social. 

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O Instituto atende crianças e adolescentes de baixa renda na faixa etária de 6 a 17 anos, no contraturno escolar e oriundos de escolas públicas. 

Hoje este numero gira em torno de 2.000 crianças.

Jorginho, craque dentro e fora de campo, apostou na fé para ter a sua vida transformada e, mesmo sendo um homem de palavras fortes, traz consigo a capacidade de crer que nenhuma causa é perdida. 

Contudo, lição esta que aprendeu em casa a duras penas e se imortalizou no coração dos torcedores dos clubes que defendeu, e que hoje, 17 de agosto, o felicitam pelo seu 54° aniversário.

REVELANDO UM SÓCRATES DESCONHECIDO

por Émerson Gáspari               

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Dito e feito.

Basta eu começar a ler qualquer texto sobre o Dr. Sócrates, seja em livros, revistas, jornais, sites e – invariavelmente – todos descambam para um lugar comum: seu engajamento político, suas convicções, sua luta pela democracia plena.

Não que eu ache que jogador ou torcedor deva ser alienado. Ninguém deveria ser.

Mas, para mim ao menos, é uma chatice só. Mais do mesmo, sempre! E nada de se falar daquilo que realmente nos interessa: seus feitos em campo, numa partida de futebol.

Apesar disso, boa parte dos leitores já deve conhecer razoavelmente a carreira do “Magrão”: seus títulos pelo Corinthians, seus gols e jogadas na Seleção. E a luta pelas “Diretas Já”, a “Democracia Corintiana” e aquele “blá, blá, blá” político todo, que não acaba mais, ocupando sempre a maior parte do texto, infelizmente.

Embora respeitando o direito de quem queira abordar mais política do que futebol, meu objetivo aqui é diferente: contar jogos e casos memoráveis do querido Doutor Sócrates – do qual fui fã de carteirinha na juventude – que sejam desconhecidos pela maioria dos torcedores brasileiros, ocorridos muitas vezes na cidade em que moro, a Ribeirão Preto que ele adotou como terra natal.

Sim, porque embora a família de Sócrates vivesse na minúscula Igarapé-Açu – interior do Pará – o menino nasceu mesmo, foi na capital Belém, em 19/02/54.

Primeiro de seis filhos homens, ele receberia o exótico nome, devido às leituras do pai, sobre filosofia grega. Seu Raimundo amava os livros em geral e foi através deles, que aos poucos, conseguiria passar em concursos, melhorando a vida da família e vindo terminar sua saga em Ribeirão, para onde se mudariam, quando Sócrates tinha seis anos. O garoto já era santista.

Um dia (04/9/65), assistiram o Santos de Pelé golear o Botafogo – ainda no antigo Luiz Pereira – pois Raimundo se tornara botafoguense e frequentava o estádio. Já Sócrates, ficou bem satisfeito com a goleada de 7x1 imposta pela equipe praiana.

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Para desespero do técnico tricolor Oto Vieira, sua dupla de zaga naquele dia – Baldochi e Veríssimo – levou um tremendo baile da dupla atacante sensação do Peixe: Pelé marcou três gols e Coutinho, outros dois.

Foi um período mágico para o menino, que adorava jogar bola na rua com a garotada, diante de sua casa. Usavam o próprio portão da garagem como gol. Sócrates já estudava no tradicional Colégio Marista e atuava por um time amador da cidade, o Raio de Ouro.

Além de excelente revelação do amador, ele também disputava jogos de futebol de salão no colégio e foi assim que o professor de educação física Haroldo o conheceu e o encaminhou para o Botafogo, até por ter estreitas relações com o clube.

Foi nesse período das quadras, que o craque desenvolvera rara habilidade no toque de calcanhar. Por ser alto, magro e lento, percebia que demorava muito tempo para virar o corpo e se acostumou a tocar a bola de primeira, recorrendo a essa estratagema, com frequência.

O ano de 1970 marcou os primeiros jogos dele, nas categorias inferiores do Bota. Tudo ia bem, até que a Faculdade de Medicina entrou em sua vida dois anos mais tarde e ele precisou se esforçar muito para conciliar as duas obrigações, a partir dali.

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Devido aos estudos, era dispensado de vários treinos ou mesmo atividades físicas, para fortalecer a musculatura, pois sempre havia aulas ou plantões a comparecer, na USP. Por causa disso, certa vez viajou às pressas para São Paulo, chegando em cima da hora de uma partida contra o Corinthians (29/5/75), tendo que pagar ingresso (!) para poder entrar no estádio e assim, se aproximar do túnel dos vestiários do Botafogo, de onde foi visto e afinal, incorporado à delegação. O Botafogo até perdeu por 4x1, mas o gol de honra foi dele, após apanhar o rebote de uma bola na trave chutada por Geraldo, igualando o marcador, naquela altura do jogo. Mais uma de suas peripécias!

Obviamente isso atrapalhou sua carreira por um tempo.

No ano de 1972, participaria de suas primeiras partidas pela equipe de cima (quando até marcaria seu primeiro gol), porém, sempre com um déficit no preparo físico, ainda não conseguia se destacar, apesar dos lampejos de inteligência que já exibia em campo. Foram eles, que mantiveram o Botafogo interessado naquele jogador tão frágil e ao mesmo tempo, tão promissor. Parecia ser impossível alguém com 1,91 m. de altura e pesando pouco mais de 70 quilos, conseguir jogar futebol em alto nível. Ainda mais, sendo fumante.

Às vezes criavam-se situações muito embaraçosas, pois seu Raimundo jamais descuidou da rigidez paternal exercida pelo bem do filho. Se por um lado, cobrava-lhe para que priorizasse os estudos, por outro, ficava em cima de suas atuações nos gramados, desde o começo.

Daí ocorrerem casos como o do dia em que tinha prova num cursinho daqui da cidade e – no mesmo dia e período – Come-Fogo decisivo da categoria de base.

Raimundo o deixou de carro na porta do colégio, pouco antes da prova. Mas Sócrates não entrou: saiu de lá, atravessou boa parte da cidade a pé e foi para o jogo, onde teve destacada atuação, definindo a vitória botafoguense com dois gols. Só que o pai descobriu sua peraltice, pois os amigos vieram lhe cumprimentar pelo desempenho do filho, naquela decisão. Imaginem só o tamanho da bronca que ele ouviu!

Como disse, as exigências do pai ocorriam ao mesmo tempo, pelo outro lado: nos jogos, ele costumava berrar para que o filho saísse da sombra que se formava na lateral do gramado, geralmente no segundo tempo dos jogos. Explique-se: digamos que a temperatura da “Califórnia Brasileira” sempre foi inescrupulosamente quente e abafada (a ponto de dizermos que aqui só existem duas estações: verão e “inferno”).

O problema térmico é agravado pelo fato da cidade ficar numa depressão que pode ser facilmente notada por quem chega de São Paulo, pela Via Anhanguera.

Isso se complica ainda mais no estádio Santa Cruz, escavado na encosta de um morro, sendo fechado por todos os lados e tendo suas arquibancadas bem altas, o que parece dificultar a circulação dos ventos e ampliar a sensação de intermitente mormaço. Uma espécie de “panela quente” a céu aberto.

Daí Sócrates buscar um “refresco” na sombra das numeradas, às vezes, para irritação de seu exigente pai. Bem diferente do modo como alguns pais tratam seus filhos jogadores hoje em dia, não é mesmo?

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A partir de 1974, Sócrates passaria a entrar mais assiduamente no time titular, depois que o meia Maritaca se contundiu durante uma partida e ele ajudou na vitória de 1x0 diante do América/SP, em casa, no estádio Santa Cruz (06/02/74).

Assumindo a condição de titular, esteve nas vitórias em cima da Ponte Preta por 2x0 (10/02/74), do SAAD por 2x1, quando marcou um gol (10/3/74) e do Paulista por 4x1, quando fez dois pela primeira vez. Dali por diante, deslanchou.

Logo de cara, se tornaria o principal articulador de jogadas e também o craque do time, fazendo do raçudo e pouco talentoso centroavante Geraldão, o artilheiro do Paulistão, com 23 gols na temporada. O meia já demonstrava toda a sua genialidade em campo, com toques surpreendentes e clássicos, além de incrível visão de jogo, bem como, noção exata do valor das assistências que distribuía.

Foi um atleta que sempre preferiu dar o passe para um companheiro melhor colocado, que tentar ele mesmo, um gol. Era o avesso do chamado “fominha”.

Apesar disso, não deixava de assinalar muitos gols, também, pela meia-direita: em 1974 faria 12, em 1975 seriam 21, em 1976 foram 27, em 1977 também 27 e em 1978, outros 13 gols, desta vez em pouco mais de meia temporada, pelo Botafogo.

Só não marcaria quando de sua última (e curta) passagem pelo clube, já em 1989, para encerrar a carreira. Ao todo, 101 gols em 271 partidas pelo Fogão. Em 1976, por exemplo, ele foi artilheiro do Paulistão, com 15 tentos assinalados.

Formidável, ainda mais em se tratando de um time de interior e de um atleta que preferia conceder gols aos outros. Aos poucos, suas atuações foram empolgando mais e mais a torcida, pois ele começou a desequilibrar partidas a torto e a direito. 

O meu Paulista de Jundiaí mesmo, que foi o primeiro clube a ter a “primazia” de levar dois gols dele, acabaria sendo também, o primeiro a tomar quatro, na vitória do Bota por 5x3 no Santa Cruz (21/5/75). Nem a presença do ótimo goleiro Edson Borracha adiantou para o “Galo da Japi”, naquele dia. 

Outros times, como o Juventus e o São Bento, também levaram dois gols de Sócrates numa só partida, mais de uma vez, enquanto ele esteve no Botafogo.

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Foram vários jogos com dois gols marcados por ele, contra vários clubes; inclusive num compromisso pelo Brasileirão, Botafogo 4 x 0 Goiás  (17/10/76)  que parte da torcida panterina considera o melhor da equipe em todos os tempos, porque ele e Zé Mário (outro fenômeno daquele time) “gastaram a bola”, naquele dia.

Mas, três dias mais tarde (20/10/76) fariam também aquela que “a maioria” dos botafoguenses considera a “obra-prima” daquele time: o 1x1 em casa, diante da poderosa “Máquina do Prof. Horta”, o Fluminense bicampeão carioca de 1975/6, gerando recorde de público “oficioso” no “Santão”, inclusive.

Aos 8 minutos, Zé Mário abriu a contagem, pela direita, num belo gol por cobertura e aos 43 do segundo tempo, PC Caju trouxe pelo meio e serviu à Rivellino na ponta-esquerda, que pegou um lindo chute de três dedos, livrando o time da derrota em cima da hora.

O Botafogo estava “jogando muito”, mesmo quando Sócrates não marcava.

Imaginem então, no dia em que ele desembestou a marcar gols sem parar!

Isso ocorreu naquele mesmo ano, só que pelo Campeonato Paulista. A vítima seria a     

Portuguesa Santista e antes, cabe aqui uma explicação, pois a partida guarda alguma relação com outras três. Eu explico.

Em 06/9/64, o Santos (desfalcado de Pelé) perdeu por 2x0 para o Bota em Ribeirão, que quis dar “olé” em campo. Pois bem: no jogo de volta pelo Paulistão, em 21/11/64, Pelé vingaria o Santos, marcando oito gols na goleada de 11x0 sobre o Fogão. Seu treinador, Oswaldo Brandão, que acabou demitido e indo parar no Corinthians; teria dito antes do jogo, que Pelé “não estava mais no auge, marcando menos gols”.

Duas semanas depois daquele massacre (06/12/64), o Santos enfrentou o Timão e tome nova goleada, dessa feita por 7x4, com Pelé marcando mais quatro, fazendo com que Brandão se arrependesse do que teria dito e levando doze gols do Rei, em poucos dias. Mas o que Sócrates tem a ver com isso tudo, afinal?

Acontece que a traumatizada torcida botafoguense jamais esqueceu o vexame (até porque os comercialinos os gozavam sempre) e doze anos depois, no campeonato paulista de 1976, a pobre Portuguesa Santista é que acabaria “pagando o pato”.

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Nesse dia (13/6/76), Sócrates esteve impossível: aos 16 minutos, fez seu primeiro gol. Aos 20 ampliou, num golaço que merece ser recordado em todos os detalhes (eu mesmo o ilustrei, para uma série com os maiores gols dele, publicada por um jornal daqui), tal sua plasticidade.

O jogador Alfredo veio com a bola dominada pelo meio e à cerca de quinze metros da grande área a lançou, por elevação, para Sócrates que estava na meia-lua, tendo dois beques colados por trás, “fungando em seu cangote”.

O craque, ainda de costas para o gol e seus marcadores, saltou e a matou no peito, direcionando a bola para o lado direito, a fim de ludibriar a marcação. Girou o corpo e assim que o espaço para o chute se abriu, naquela fração de segundo, o Doutor acertou um tiro seco, de direita, sem deixar a pelota sequer quicar no gramado. Indefensável! Entrou no ângulo esquerdo da meta do goleiro Pedro Paulo, que sequer esboçou reação. Um gol para aplaudir de pé!

Só por isso, já teria valido o ingresso, mas Sócrates não parecia satisfeito: decidiu “acabar” com o jogo, na segunda etapa, marcando mais cinco gols!

Aos 15, 25, 27, 31 e 44 minutos. Como se não fosse o bastante, deu também as três assistências para os demais gols da equipe, que massacrou a Portuguesa Santista por 10x0, com sete gols dele. Os outros tentos – com passes dele – saíram aos 25’/1º com João Marques, aos 37’/1º com Zé Mário e aos 16’/2º com Alfredo.

Acharam pouco? Pois a torcida botafoguense achou. Tanto, que no último lance do jogo, uma bola foi cruzada na área e Sócrates chegou atrasado, perdendo a chance de marcar o oitavo dele, devolvendo o escore de 11x0 para a cidade de Santos. Na sequência da jogada, o juiz encerrou a partida e (acreditem!) começaram a surgir algumas vaias das arquibancadas, por ele não ter conseguido o mesmo feito de Pelé.

Pensam que foi coisa de torcida? A própria imprensa, insatisfeita, acabou elegendo o meia-esquerda Alfredo, como “o melhor do jogo” e Alfredo acabaria por faturar o prêmio oferecido ao maior craque em campo. É mole ou querem mais?

Isso revela o quanto o futebol podia ser exigente com seus jogadores. Lembro vocês, que Zico declarou certa vez numa entrevista, que no tempo deles, era preciso marcar uns três gols e fazer umas dez jogadas legais num jogo, pra ganhar uma nota 10.

Hoje – segundo Zico – bastam um gol e uma jogada legal e o “carinha” leva o dez, numa boa. Concordo com o Galinho: é exatamente isso!

Outro clube que sofreu horrores com Sócrates no Botafogo, foi o rival da cidade, o Comercial. O tradicional “Come-Fogo” hoje apresenta retrospecto equilibrado: em 170 jogos, 61 vitórias do Fogão (212 gols), 57 empates e 52 vitórias do Bafo (208 gols).

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Mas vejam a importância de Sócrates nessa rica história que já dura quase um século: na primeira fase do confronto, quando o Comercial era o time da elite, chegando a vencer o primeiro clássico por 8x0, o “Leão do Norte” estabeleceu larga vantagem de vitórias. Porém, a partir de 1954, essa diferença foi caindo, inverteu-se e foi ampliada, em especial nos tempos do Doutor, à favor do “Pantera”, durante a década de 70.

Depois dele, se reequilibraria novamente.

Em mais de cinco anos de participação, Sócrates disputou 19 clássicos, marcando seis gols ao longo de nove vitórias, sete empates e três derrotas.

Entretanto, talvez nenhuma delas tenha sido tão incrível quanto a que “profetizou” a vitória e seu gol. Na verdade, uma coincidência muito grande, que vale à pena ser contada para vocês.

Após decidir com gols, os dois últimos clássicos “Come-Fogo” por 1x0 (em 07/12/75 e 01/02/76), o Doutor, provocado por amigos comercialinos às vésperas de mais um clássico, “vaticinou” que repetiria a dose, com “requintes de crueldade”, marcando no último minuto da partida. E não é que aconteceu mesmo?

O jogo era em Palma Travassos, estádio do Comercial e o 0x0 modorrento, que já se arrastava principalmente nos dez minutos finais, sob um sol escaldante, estava prestes a terminar. 

Sócrates já havia marcado antes, no decorrer da partida, mas o juiz assinalara impedimento, invalidando o tento. Satisfeito com o empate – mesmo em casa – o Bafo trata de “fazer o tempo passar”: são 43 minutos e a bola, lançada ao ataque pelo Botafogo, é dominada pela zaga comercialina.

Nisso, surge a figura do goleiro Lula, que sai de sua meta e segura a bola, com as duas mãos. Aguarda alguns segundos e quando praticamente todos se afastam, solta a bola e se aproxima da risca da grande área, pelo lado esquerdo da zaga, tocando rasteiro, para o quarto-zagueiro Gonçalves, próximo dele.

Gonçalves, tendo apenas a presença de Sócrates – a uma segura distância – hesita por um instante e resolve devolver para o goleiro (numa época em que isso era permitido). Chegamos aos 44 minutos. O árbitro Almir Laguna observa o lance, ali da meia cancha,

aguardando um chutão para o círculo central. Vaias eclodem da torcida, em direção ao gol “dos fundos” do estádio (aquele que fazia fronteira com o antigo poliesportivo do alvinegro).

Lula recolhe a bola e por um instante, faz de conta que vai descarregá-la para o campo de ataque, mas decide tocar outra vez para Gonçalves, chegando agora até a linha da grande área. Sócrates se aproxima preguiçosamente do zagueiro. Gonçalves recebe a pelota e sente o botafoguense de repente se aproximar por trás, correndo. Pressionado, recua às pressas para o goleiro, mas a precipitação faz com que o passe não seja perfeito e Sócrates mantém o trote, agora atrás da bola.

Lula se assusta e corre na direção da redonda, que adentra a área, seguindo quase na direção da marca penal. O Doutor acelera, passa pela meia-lua e parece que vai chegar atrasado, um segundo após o arqueiro. Mas Lula escorrega ligeiramente e quando se atira, não consegue alcançar o craque, que de carrinho, empurra a bola para as redes, de pé direito. A “profecia” se cumpria. E tome gozação botafoguense, depois disso.

Mais um gol que ilustrei para a tal série de gols dele, num jornal daqui de Ribeirão.

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Obviamente esta não foi a única história entre Sócrates e o rival, o Comercial.

Houve de tudo um pouco: do dia em que o treinador Alfredinho Sampaio mandou o time recorrer ao “cai-cai” com medo de uma goleada, até jogo decidido com gol dele, após uma briga generalizada que durou praticamente dez minutos.

Sócrates ainda não era exatamente aquele jogador frio e calculista que vocês se acostumaram a ver no Corinthians e na Seleção.

Jovem, às vezes dava mostras de instabilidade emocional, nos momentos em que o clássico mais esquentava. Num deles (09/10/77), novamente disputado no campo do rival, acabaria sendo agredido pelo arqueiro. Caído ao solo, seria agora, pisado por um zagueiro, na sequência. Eram outros tempos no futebol...

O goleiro foi expulso e, com a saída providencial de um atleta da linha, entrou o arqueiro Lula, que estava na reserva.

Poucos minutos depois, pênalti para o Botafogo! Sócrates, ainda intranquilo com o ocorrido e molestado pela vaia intensa da torcida, mais a catimba do novo goleiro, acaba chutando para fora, pegando mal na bola.

Algo difícil de ocorrer, pois o Magrão tinha certas particularidades em campo e uma delas, era justamente sua incrível vocação de chutar no canto, sem desperdiçar. Não só nos penais: nos gols que fazia, Sócrates costumava tocar seco, no canto e a bola, bater na lateral da rede, pelo lado de dentro. Quer dizer: difícil para o goleiro pegar e com uma margem de segurança, até a trave.

Naquela época, apesar da altura, Sócrates ainda não cabeceava bem. Chegou a jogar na Seleção de Cláudio Coutinho com a camisa 9, mas não tinha no cabeceio, uma virtude, ainda. Foi a perseverança de Telê Santana em fazê-lo treinar esse fundamento, que o tornaria um bom cabeceador, com o tempo.

Poucos se lembram, mas Sócrates ainda ajudava na marcação. Ele era um dos poucos que davam carrinhos perfeitos, rasteiros, com os pés bem juntos, sem ocasionar faltas e no tempo preciso de desarme. Dava até gosto de ver. No Corinthians, apenas ele e Wladimir faziam isso de maneira precisa e perfeita. Essa precisão fazia com que o desarme não fosse perigoso, por mais difícil que seja acreditar, para quem não viu.

Naqueles tempos de Botafogo, Sócrates já era ótimo cobrador de faltas, também.

Não bastasse isso, o Magrão possuía privilegiada visão de jogo e uma virtude que poucos atletas tiveram: o sentido de antecipação de jogadas fabuloso.  Impressionante a facilidade com que, num único toque, conseguia ludibriar a zaga e colocar um companheiro na cara do gol. Os passes denotavam um jogador de rara inteligência.

Agora, o “ponto fora da curva” do Doutor, era mesmo o toque de calcanhar. Em qualquer situação, com grande variação de força e precisão absurda, ele o utilizava e praticamente nunca errava. Impunha respeito em qualquer partida e em quaisquer circunstâncias. Não há registro, em todo o planeta, de algum outro jogador que o tivesse usado com tamanha habilidade, em qualquer período da história do futebol.

O próprio Pelé (ídolo o qual Sócrates conseguiria enfrentar em campo, na Vila Belmiro, em 14/8/74, num Santos 2x1 Botafogo), afirmava achar o Doutor um jogador “melhor de costas do que muito jogador, de frente”.

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Muitos se lembram do golaço de calcanhar que ele fez pelo Timão, contra o Guarani, em Campinas, após um rebote da zaga. Alguns, de um treino no Parque São Jorge, em que brincou de bater pênaltis contra o goleiro Solito.

Mas poucos sabem que ele já havia usado sua especialidade jogando pelo Botafogo e frente a um clube grande, o Santos. E na Vila Belmiro! Claro que acabou sendo mais um gol que ilustrei para o jornal daqui de Ribeirão.

Foi numa virada sensacional e que é considerado por muitos, o jogo que “revelou para o país”, aquilo que Ribeirão já sabia: que o Bota era um timaço com dois craques fenomenais: o ponta Zé Mário e o meia Sócrates. Antes, é preciso que eu abra um pequeno parêntese e explique para os que não o conheceram quem foi Zé Mário.

Um craque! Um extraordinário ponta-direita. Rápido, driblador; tem até, quem julgue que ele foi melhor que Sócrates, porque se tornou o primeiro jogador do clube, a ser convocado diretamente para a Seleção Brasileira.

Exageros à parte, a grande verdade é que ambos – ele e Sócrates – atuavam na meia-direita. Por Magrão ser mais cerebral e articulador e Zé Mário, mais rápido e driblador, acabou o primeiro virando o dono da camisa 8 e o segundo, o dono da 7. Sobrava para Paulo César Camassuti, reserva de dois cracaços e que mais tarde, acabou indo jogar no São Paulo, Corinthians e outros clubes.

Mas o destino seria cruel para Zé Mário: após dois jogos nos quais entrou e mostrou virtudes na Seleção Brasileira (onde Gil era o titular), exames diagnosticaram que ele tinha leucemia. Morreu poucos meses depois e seu enterro causou uma consternação inesquecível na cidade. Uma perda irreparável!

Isso posto voltemos ao tal Santos x Botafogo (23/3/77): o Peixe vencia por 2x0, quando o Doutor diminuiu a vantagem santista, aos 42 minutos da primeira etapa. Lançado por Zé Mário, Sócrates correu para a área, perseguido pelo zagueiro Neto. Invadiu a área e, diante da saída do goleiro Wilson, tocou por sobre o defensor, aplicando-lhe um chapeuzinho. Só que Neto correu pelo outro lado e prensou com o craque, contra a trave. Sócrates, mais esperto, tocou de calcanhar para dentro do gol, enquanto Neto se desequilibrava para fora do campo. Um gol com a marca registrada do Doutor.

Dois minutos depois, outra bela jogada de Zé Mário – agora pela direita – e o Magrão, num lindo peixinho, empatou. No segundo tempo, após uma disputa de bola pelo alto entre ele e o goleiro adversário, o Botafogo viraria.

Aquele ano de 1977 acabou sendo iluminado para o clube. Após uma excelente campanha no primeiro turno, no qual perdeu uma única partida (para a Ferroviária), o time, treinado pelo experiente Jorge Vieira e que contava também com o goleiro Aguilera, o lateral Mineiro, o meia Lorico, entre outros, acabou dando “liga” e chegou à final do primeiro turno daquele Paulistão, diante do São Paulo, no Morumbi.

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Após uma brilhante partida na semifinal diante do Guarani – na qual perdeu um gol incrível – Sócrates repetiu a dose contra o São Paulo e o empate de 0x0 após a prorrogação, daria o Título da Cidade de São Paulo ao clube ribeirão-pretano. Pena que o juiz viu uma falta dele onde ninguém havia enxergado e anulou um belo gol dele.

A festa na chegada do time a então “Capital do Café” (19/5/77) acabaria sendo a maior de que se tem notícia, até hoje, na cidade.  A conquista seria capa do jornal Gazeta Esportiva e da revista Placar.

No segundo turno, o Botafogo acabaria perdendo a chance de uma final contra o Corinthians, num jogo frente a Ponte Preta em Campinas, onde valeu até, apagarem os refletores, para impedirem o empate iminente do Botafogo.

Mas a campanha tricolor foi elogiável e isso atraiu o interesse dos clubes pelos atletas panterinos. A equipe acabaria sofrendo algumas mudanças.

Sócrates se formou meses depois e finalmente decidiu por continuar sua carreira de jogador – uma decisão que ele havia deixado para tomar mais tarde – renovando com o Botafogo. O Doutor não foi convocado para a Copa de 1978, mas chegou a estar na lista dos 40 “selecionáveis” do então treinador da Seleção, Cláudio Coutinho.

Em agosto daquele mesmo ano, numa manobra espertíssima de Vicente Matheus, o Corinthians “passou a perna” no São Paulo (que já estava de olho no atleta fazia tempo) e contratou o Doutor primeiro por 5,860 milhões, a segunda contratação mais cara do futebol brasileiro, até então.

Um ano depois, a revista Placar já publicava uma edição especial dele, sob o título, na capa: “Sócrates – O melhor jogador do mundo”. 

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A partir daí, todos praticamente já sabem, o Doutor se tornaria nacionalmente conhecido como o grande ídolo do Timão e mais tarde, através da Seleção Brasileira, seria mundialmente respeitado, como o capitão daquele selecionado que encantou o planeta, com seu futebol-arte.

O restante da história, também: que Sócrates atuou pela Fiorentina, onde não se adaptou muito ao futebol (e ao frio) italiano. E que um problema de hérnia de disco o prejudicaria mais tarde, na Seleção de 1986 e no Flamengo.

Chegou a parar de jogar, encerrando a carreira prematuramente. Mas retornaria, quase dois anos depois, para atuar no Santos, seu time de infância, já aos 34 anos.

Sua estreia se deu na partida Santos 4 x 2 Cerro Porteño. Apesar de ter já ter feito um gol no primeiro tempo e de ser o melhor em campo (mesmo sentindo falta de ritmo de jogo), Sócrates comandaria a virada dos santistas sobre os paraguaios, ficando na lembrança dos torcedores, o lance maravilhoso que protagonizou na segunda etapa, momentos antes de deixar o gramado, quando foi substituído.

O Magrão recebeu um passe praticamente no meio-campo, pela direita. Deu um drible da vaca no primeiro marcador que surgiu pela frente e acelerou, levando também, a marcação do segundo, passando entre os dois.  Arrancou com vontade e quando o terceiro zagueiro chegou para enfrentá-lo, enfiou-lhe a bola por entre as pernas.

Invadiu a área pela meia-direita, perseguido por esse último zagueiro e tocou ante a saída desesperada do goleiro Roverano, numa jogada simplesmente cinematográfica!

Por um capricho dos deuses, a bola – matreiramente – encobriu o travessão, saindo pela linha de fundo. Foi aplaudido de pé por uma torcida acostumada com as jogadas geniais de Pelé, no passado.

A propósito, assim como o Rei, o Doutor merece ser lembrado não apenas pelos gols geniais que marcou em sua carreira, mas também, pelos que perdeu.

Com a carreira praticamente encerrada, na temporada seguinte – a de 1989 – ele topou fazer algumas poucas partidas, apenas para ajudar o Botafogo no Brasileiro da Segunda Divisão e se despedir do clube, como os torcedores tanto pediam.

Fez uma meia dúzia de partidas e fui com meu saudoso pai, assistir sua despedida dos gramados em jogos oficiais, aqui em Ribeirão Preto, no “Santa Cruz”. Foi um 0x0 diante do São José, sem maiores emoções (11/10/89), no qual ele procurou armar o time e arriscou dois chutes de fora da área, que saíram por sobre a meta adversária.

Notei que colocava a mão nas costas ao fazer esse tipo de esforço maior, após chutar de longe e comentei com o velho, de que ele certamente sentia dores lombares, ainda. Fruto de sua hérnia de disco na coluna operada e de uma joelhada que levara nas costas, logo no início de sua reestreia com a camisa botafoguense.

Entretanto, apesar dos 35 anos e das limitações físicas, nos pareceu o único com alguma lucidez em campo, naquele dia. Tecnicamente então, era um absurdo a disparidade que o distanciava dos demais.

Sócrates ainda fez mais um jogo – amistoso – despedindo-se sem festas, nem alarde. Sempre foi avesso a esse tipo de badalação nos gramados.

Estava encerrada uma carreira pela qual marcou mais de 330 gols, proporcionando outros mil aos seus companheiros. Alguns desses parceiros ficaram na memória, em tabelinhas sensacionais com ele, como Zé Mário, Geraldão, Palhinha, Casagrande, Zico.

Vestiu as camisas do Botafogo, Corinthians, Seleção Paulista, Seleção Brasileira, Fiorentina, Flamengo e Santos.

Ele ainda colaborou com o Botafogo, tendo uma breve passagem como treinador da equipe. Foi também secretário de esportes do governo de Antônio Palocci por pouco tempo, mas algumas de suas medidas eram, digamos, “socialistas demais” para que a população pudesse compreender e aceitar.   

Começou a exercer sua profissão de médico, procurando ampliar seus conhecimentos e, além da ortopedia, se especializou na área de fisiologia esportiva. 

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Montou a “Medicine Sócrates Center”, uma bela clínica fincada na Avenida Nove de Julho – então o endereço mais concorrido de Ribeirão Preto – e foi lá mesmo, que ele autografou algumas revistas e cards, para mim. Era uma pessoa afável, embora não curtisse muita tietagem futebolística.

Absolutamente desligado da fama, demonstrou sequer conhecer uma revista especial toda dedicada a ele, esboçando surpresa, quando a folheou, dizendo: “- Puxa, que revista legal; nunca a havia visto, antes!”.

Claro que ele não quis ficar com a revista, de presente. Assim como não cultuava o

hábito de tantos futebolistas, de guardar recortes de matérias e fotos de sua carreira. Sua secretária me presentearia, tempos depois (acreditem!) com um troféu já todo oxidado, que ele recebera no passado e uma camisa da Seleção Brasileira de Masters.

Havia acabado de jogar fora, duas caixas repletas de recordações pessoais do craque, após muito relutar – até que, receosa por uma bronca do patrão que insistia para que ela descartasse aquilo logo – cumpriu enfim o “sacrilégio” que ele havia determinado.

Após alguns anos, deixou também essa vida de lado e passou à militar na cultura, trabalhando num cine cultural de um amigo, bem no centro da cidade. Por um tempo, quase todas as manhãs, passava a pé, junto de sua última companheira em vida, na calçada de meu sebo, a caminho do trabalho.

Jamais o interpelei nessas oportunidades, mesmo tendo em meu modesto sebo, uma carga incrível de material futebolístico dele, com direito, inclusive, a pôsteres na qual envergava o uniforme do Botafogo, em um tempo no qual ele ainda usava aquelas borrachas para evitar que o “meiões” acabassem arriados, descendo por suas canelas tão finas. Sei que ele se sentiria incomodado; que não iria curtir.

Preferia ouvir suas análises sem aborrecê-lo, toda semana, no programa “Cartão Verde”, da TV Cultura.

Sócrates havia se tornado uma espécie, digamos, de “embaixador cultural” da cidade e muitas celebridades e intelectuais que por aqui passavam, adoravam visita-lo, ocasiões em que geralmente uma boa mesa regada à chopp era dividida com os novos amigos.

Um hábito que ele já cultivava há muito tempo.

Até que a cirrose hepática ceifou sua vida, em 04 de dezembro de 2011. Nesse dia, vi muito amigo botafoguense chorar. E eu – mesmo um comercialino nas horas vagas – também fui às lágrimas naquele domingo, já que sempre fui muito fã do Magrão.

A ponto de, na infância, chegar a apanhar de minha mãe por tanto fanatismo pelo futebol, pelo simples fato de saber absolutamente tudo sobre a carreira dele e até, de sonhar – ainda pequeno – com um inusitado encontro com meu ídolo.

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Há quase sete anos, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o craque dono de futebol tão gigantesco quanto seu próprio nome, se tornaria uma espécie de “vizinho” meu, pois seu corpo, sepultado, repousa até hoje no Cemitério Bom Pastor, muito próximo de minha residência, aqui no Jardim Zara, periferia de Ribeirão Preto.

Enquanto isso, sua personalidade fascinante continua sendo relembrada pela mídia e seus lances geniais permanecem na memória dos torcedores, órfãos de seu futebol.

BISCOITO VENCIDO

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::

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A demissão do técnico Rogério Micale, do Paraná, lanterna do Brasileiro, só mostra como os professores conseguem enganar tanta gente, principalmente a imprensa, que vive passando a mão na cabeça de todos eles. Micale foi campeão olímpico em 2016, mas ainda não disse a que veio. Ou seja, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Aliás, o Micale chupou laranja com quem? Kkkkkkkk!

A saída de Jorginho do Vasco foi mais um desses casos. Reclamou do clube, mas não pensou duas vezes antes de abandonar o Ceará quando foi chamado pelo time da Colina. Vale lembrar que ele ficou apenas duas semanas no Vozão.

A verdade é que eles não se preocupam muito, porque no fundo continuam ganhando o salário deles. Saem de um clube e na semana seguinte estão em outro. E alguns clubes os demitem e os chamam de volta como um alternativa de sanar antigas dívidas. 

Prestem atenção nessa lista das danças das cadeiras para vocês verem se o ranzinza aqui está errado: para assumir a vaga de Micale no Paraná, o mais cotado é Claudinei Oliveira, que pediu demissão do Sport no último domingo. O rubro-negro, por sua vez, anunciou Eduardo Baptista, demitido do Coritiba há quatro dias e que já passou por Sport, Palmeiras etc. Fernando Diniz durou 21 jogos no Atlético-PR, com sete empates e nove derrotas. Adilson Baptista foi anunciado como novo técnico do América-MG após a saída de Ricardo Drubscky. Cuca foi o escolhido do Santos para assumir o lugar de Jair Ventura. Demitido pelo Palmeiras no fim de julho, Roger Machado deu lugar a Felipão. Gilson Kleina foi chutado da Chapecoense e já escolheram Guto Ferreira, ex-técnico do Bahia. Marcos Paquetá durou apenas cinco jogos no Botafogo e já foi substituído por Zé Ricardo.

Por falar no Botafogo, já esqueceram que o Alberto Valentim estava no clube e não pensou duas vezes antes de deixar os jogadores na mão quando surgiu uma proposta da Arábia? O mesmo caminho foi trilhado por Fábio Carille, que levou o Corinthians ao título brasileiro do ano passado e agora comanda o Al Wehda, enquanto a equipe paulista ocupa atualmente a sétima posição do Brasileiro.

É mais do mesmo, por isso nosso futebol vive esse marasmo. A verdade é que, assim como os jogadores, os técnicos não têm mais compromisso e identificação nenhuma com os clubes. Grande parte deles não está nem aí porque sabem que, se foram mandados embora hoje, amanhã estarão empregados.

Não temos que ficar com pena deles porque foram eles que criaram esse círculo vicioso, então eles que se virem para sair dessa teia. Mas o que mais me irrita nessa história é olhar todos os programas esportivos e ver que os jornalistas não culpam os técnicos e vivem passando a mão na cabeça do Tite, como se fosse o último biscoito do pacote.

Para mim, me perdoem, mas a data de validade desse biscoito já venceu faz tempo.