O FUTEBOL AGONIZA, MAS NÃO MORRE

por Marcelo Soares

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Meu pai, parceiro de arquibancada, cresceu com o futebol das décadas de 70 e 80. Hoje já não tem mais vontade de ir aos jogos.

Será que naquela época eram muito bons mesmo ou hoje são muito ruins? Acredito que as duas opções estejam certas.

Anteontem, toda essa festa antes da final da Copa do Brasil mostrou como as coisas estão mudando no futebol brasileiro. Após a bola rolar acabou a festa. Cartões para todos os lados e os onze jogadores atrás da linha bola. 

Certamente não é essa a mudança que queremos.

VAR... Não me lembro de ouvir do meu pai e do meu avô reclamações sobre arbitragem. Esqueceram o futebol nas décadas passadas e buscam sempre um vilão.  Árbitros, jogadores. Talvez o problema não estejam neles. Sabemos que não estão dentro de campo.

Categorias de base em situações precárias, dívidas bilionárias…

Aquele que é considerado o melhor time do país apresenta um futebol fraquíssimo. Vence pois os adversários são piores ainda. O famoso "extracampo" está cada vez mais sendo decisivo.

Apesar de tentarem e muito acabar com ele, o verdadeiro futebol agoniza, mas não morre. Como diria Nelson Sargento.

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O que fez e faz meu pai perder a vontade? Times sem padrão de jogo? Escassez de craques? Ingressos caros? Ou toda essa palhaçada que estão fazendo fora de campo?

Anteontem, infelizmente não fomos ao estádio.

Para o Corinthians, nunca foi fácil. Mas está cada vez mais difícil. Difícil comemorar um gol, uma boa partida.

Talvez o mais difícil será convencer a próxima geração a ser meu parceiro de arquibancada. 

As próximas gerações podem olhar para o futebol e dizer:

Que jogo mais chato, VAR pra PQP.

CRAQUES INESQUECÍVEIS

Dener e a dúvida eterna: Até onde ele poderia chegar?

por Mateus Ribeiro

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Dener Augusto de Sousa, ou apenas Dener. Um grande talento do futebol brasileiro. Infelizmente, um talento que não conseguimos apreciar por muito tempo.

Dener, que hoje pode ser considerado um anjo, era um demônio nos gramados. Arisco, veloz, driblador. Como dizem na gíria, Dener era liso. Muito liso.

De tão bom de bola que era, Dener conseguiu arrancar aplausos de ninguém menos que Maradona, desacostumado a reconhecer os feitos alheios.

Vimos Dener pouco tempo. E revendo seus lances, cria-se a impressão de que todo o tempo do mundo não seria suficiente. Dener conseguia reunir habilidade e velocidade como poucos. Tudo isso temperado com uma dose grande de malandragem.

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O craque da Lusa é a ilustração perfeita do futebol moleque, que tanto caracterizou o Brasil tempos atrás. Seu gol marcado contra o Santos mostra tudo isso: a rapidez, a facilidade de driblar, e a malandragem para se livrar do zagueiro com uma falta (que o árbitro não marcou, mas deixa pra lá).

Dener era humano. Mas não parecia.

Talvez foi cedo demais para encontrar Garrincha, e ver quem era o melhor no mano a mano.

Talvez partiu antes da hora para que tantos deuses do futebol que já se foram pudessem ver de perto todo o seu talento.

Infelizmente, nós, meros mortais, ficamos apenas com as lembranças, a saudade, e a eterna dúvida: onde Dener poderia chegar?

Você arrisca um palpite?

Um abraço, e até a próxima

CENTENÁRIO DO LEÃO

por Rafael Santana

Fundado em 18 de outubro de 1918, o Fortaleza Esporte Clube comemora hoje seu centenário. Líder da série B, com chances altíssimas de subir, o clima lá no Pici está ótimo, mas agora vamos falar da história gloriosa de um dos maiores times do nordeste brasileiro.

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O estado do Ceará inaugurou seu principal estádio, o “Castelão”, em novembro de 1973 com um publico de 70 mil pessoas ou mais, já que até hoje não se sabe quantas pessoas estiveram dentro do Castelão para assistir à partida entre Ceará x Fortaleza, válida pelo Campeonato Brasileiro de 73. Volta e meia os torcedores mais velhos falam desse grande evento, dizem que teve gente pulando muro, outros com ingresso na mão que não conseguiram entrar. Enfim, um mar de gente, além da transmissão nas televisões do Brasil inteiro.

O jogo foi um empate sem gols com destaque para os goleiros. Apesar de Hélio Show e Lulinha terem “estragado” a festa de inauguração com defesas de cinema, o estádio estava finalmente inaugurado e o ano de 1974 reservou surpresas muito agradáveis para o torcedor do Leão.

Naquele mesmo ano, houve uma troca de treinadores e o Fortaleza passou a ser comandado por Moésio Gomes. De família tricolor, o técnico conhecia os bastidores do Fortaleza como ninguém, e, além disso, era o criador de uma escolinha de futebol que revelou inúmeros craques cearenses, como Luciano Oliveira, Pedro Basílio, Facó, Zé Augusto, Mano, Hamilton Rocha, Zé Paulo, Neto, Izoni, Ronner, Cícero, Zé Meu, Wilkinson, Vanor e Louro.

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No entanto, o time de 74 teve muitas baixas também. Hamilton Rocha, excelente jogador, deixou a equipe, assim como experiente lateral Bauer e o atacante Marciano, artilheiro do Campeonato Cearense em 73. Muitos dizem que foi uma reformulação necessária para a equipe, já que a chegada do zagueiro carioca Ozires, vindo do River do Piauí, e a consolidação do grande lateral Ronner, oriundo da escolinha de futebol de Moésio, deram um novo gás para o Tricolor.

O novo time fez um Campeonato Brasileiro regular em 1974, terminando em 16° lugar. Mas foi no Campeonato Cearense que o time se imortalizou. Confiante após as vitórias expressiva no nacional, o time formado por Lulinha, Pedro Basilio, Ozires, Ronner, Zé Carlos, Louro, Haroldo, Amilton Melo, Lucinho, Chinesinho e Geraldino Saravá deitou e rolou no Estadual.

Não é por acaso que esse time é considerado um dos melhores da história do Fortaleza. O brilhantismo de Lucinho e Amilton Melo, a habilidade de Haroldo e o faro de gols de Geraldino foram as marcas especiais dessa equipe.

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Estudante de futebol como era, Moésio Gomes viu a tremenda qualidade no meio de campo do time e resolveu implantar uma forma de atacar e de se organizar em campo em forma de quadrado! Com Chinesinho, Zé Carlos, o maestro Lucinho e o craque Amilton Melo, foi formado o famoso quadrado de ouro, que deu muito trabalho aos adversários.

O jornalista Tom Barros do Diário do Nordeste exemplificou bem o que era o quadrado de ouro jogando: "Os quatro davam equilíbrio à equipe e assim podiam sacrificar um jogador na frente, deixando dois na parte ofensiva. Os dois da frente eram Haroldo e Geraldino que, abertos nas pontas, afunilavam para receber os lançamentos. Quando não fazia o contra-ataque e vinha tocando a bola, o Fortaleza jogava com seus dois pontas avançando pelo meio e abria o Zé Carlos pela direita e o Lucinho pela esquerda com o Amilton pelo meio na cobertura para reparar qualquer erro, na armação estava o Chinesinho e a sua agilidade. Esta segunda manobra ofensiva, abrindo seus meias para jogarem com os laterais, foi uma criação do então técnico do Fortaleza Moésio Gomes. Esta variação tática fazia o Leão jogar de forma diferente do quadrado mágico do Santa Cruz que também ficou famoso neste tempo."

Esse time foi campeão cearense de 74 sem dar chance ao Ceará, seu maior rival. Decidido numa melhor de três, o título foi conquistado pelo Leão, que venceu as três partidas (4x0, 1x0 e 3x1) e fez a festa com o primeiro título dentro do Castelão.

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Para completar a farra, o lateral Louro foi bola de prata pela Revista Placar, e considerado o melhor lateral direito do Brasil. Seu vigor físico e inteligência em campo são lembrados até os dias de hoje no Fortaleza.

Nesta data tão importante, podemos dizer que o Fortaleza de 74 marcou época no Brasil por um futebol muito bem jogado e por ser a primeira equipe a levantar um titulo no Estádio Governador Plácido Castelo, o Castelão.

À PROCURA DE ERIC

por Paulo Escobar

Em Marselha nasceu aquele que talvez no futebol mundial não aceitou ser domado nem por interesses e nem por treinadores que tentavam a todo custo domesticar Eric. Desde seus primeiros passos no futebol francês teve problemas já no seu primeiro clube, o Auxerre, e para termos uma noção, já em 1991 Cantona pensou em se aposentar após chutar a bola contra o juiz e pegar um gancho de dois meses.

Cansado da França, decide retomar o futebol na Inglaterra e fecha com Leeds Clube pelo qual foi campeão em 1991, e finalmente em 1993 chega ao clube que seria sua casa e onde viria a se tornar uma religião, o Manchester United.

No meio dos diabos vermelhos, Eric foi idolatrado e com gols e belas atuações foi aumentando o amor que a torcida de Manchester tinha por ele. Balançando a rede de formas memoráveis, como na partida contra o Sunderland em 1996, que talvez seja o que traduz o que era Eric: aqueles dribles do meio de campo, uma tabela, e da entrada da área mete uma cobertura maravilhosa. Na comemoração faz aquele olhar típico como quem olha não acreditando e com uma marra abre os braços e da uma volta no mesmo lugar olhando a torcida e companheiros de time.

Cantona nunca teve medo de expor suas posições e dentro de campo foi um demônio das finalizações, teve seu nome cantado e gritado. Na sala de imprensa do Old Trafford tem uma foto que embaixo leva escrito uma fala de Ferguson, que agradece os cinco anos maravilhosos que teve com o francês. Eric era fervoroso dentro de campo e a cada partida das jogadas e atitudes imprevisíveis era uma delícia ver esse cara dentro e fora das quatro linhas.

Era o anti-herói e anti-bom mocismo que o futebol que vivemos hoje da moral e dos bons costumes não suporta, de meião abaixo da canela e gola levantada não pagava simpatia pra ninguém. De entrevistas que com um posicionamento politico e falas que fugiam da mesmice das coletivas de imprensa.

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O mesmo Eric já reconheceu que uma das melhores jogadas da sua vida não foi dentro de campo, mas sim ao ser expulso contra o Crystal Palace (1996). Na saída de campo, aquela voadora num nazista que o xingava de maneira xenófoba e preconceituosa. Cantona pega 9 meses de gancho e uma das supostas punições também deve ter sido a não convocação a Copa de 1998, que azar da Copa não ter tido ele lá. Sempre imaginei as falas em meio a esse evento tão dos bons costumes que seria essa Copa com Eric. Seriam momentos de tensão nos organizadores.

Nos dias de hoje, tão cheios de preconceitos, de uma xenofobia, de racismo, de homofobia e de ideias fascistas que vemos aumentando e tomando formas das mais cruéis possíveis, que falta fazem jogadores como ele. Cantona não compactuaria jamais com o que vemos sendo gritado em algumas arquibancadas e com certeza nos dias de hoje estaria em mais voadoras e discussões com o que vemos crescendo.

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Eric, o do futebol bem jogado, o definidor nato e bom de cabeça e das ideias foi o mesmo que na crise dos refugiados na Europa abriu as portas da sua casa para recebê-los. Continua sendo o mesmo que recentemente criticou a seleção brasileira pelo amistoso contra Arábia Saudita, país com um regime no qual as pessoas desaparecem por motivos políticos (regime que bate as nossas portas também).

Nós, os órfãos de bons jogadores e que ainda por cima pensem e se posicionem, continuamos a procura de Eric.

JOGOS INESQUECÍVEIS

Brasil 0 x 1 Argentina - Oitavas de final da Copa de 1990

por Mateus Ribeiro

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A vida de torcedor não é um mar de rosas. Nem só de títulos e vitórias vive um fanático por futebol. Derrotas, algumas vezes, muito dolorosas, fazem parte do nosso cotidiano. E é sobre uma dessas derrotas que falarei aqui. Na verdade, sobre a primeira derrota que eu sofri nessa vida futebolística.

Eu era uma criança em 1990. Estava começando a entrar de cabeça no planeta bola, e um dos meus princípios era seguir tudo o que o meu pai falava sobre o esporte bretão. Inclusive a paixão que eu tive por alguns anos pelo time da CBF, herdei dele, um apaixonado pela camisa amarela.

Como era muito novo, lembro de pouca coisa. Mas lembro. Principalmente de Maradona, Caniggia e Dunga. O primeiro, pela jogada do gol. O segundo, pelo golpe fatal. Já o terceiro, lembro por ter visto pela primeira vez a busca por um culpado. Mal sabia eu que tal prática é procedimento padrão por parte dos brasileiros (em qualquer área, é bom que se diga, mas no futebol a perseguição atinge níveis absurdos).

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O comandante da nave brasileira era Sebastião Lazaroni, um treinador com um currículo longe de ser vistoso, e que tentou mudar o esquema tático da seleção, jogando no 3-5-2.

Após uma primeira fase apenas ok, com três vitórias magras pra cima de Suécia, Costa Rica e Escócia, o Brasil enfrentaria a Argentina nas oitavas. É fato que os campeões de 1986 tinham feito uma primeira fase bem abaixo da média (para não dizer desastrosa).

Ironicamente, a única partida que o Brasil atuou bem foi na derrota para a Argentina. O time criou bastante, mas não conseguiu converter em gol as chances criadas. Obviamente que o velho ditado "quem não faz, leva", iria fazer sentido mais cedo ou mais tarde.

Para tornar tudo mais dramático e cruel, o golpe de misericórdia em cima da terrível campanha brasileira veio no final da partida. Depois de fazer uma baderna no meio campo brasileiro, Maradona achou Caniggia livre. O ligeiro atacante deixou Taffarel falando sozinho e acabou com o sonho do tetra, que ali já completava duas décadas.

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O jogo contra a Argentina foi a cereja de um bolo amargo, que cheirava a vexame desde o começo da receita. Até os dias de hoje, é um dos episódios mais desprezíveis da recente história do futebol nacional.

Depois da eliminação, Dunga virou símbolo da geração derrotada, estigma que o volante conseguiu mandar para o espaço quatro anos depois, ao levantar a taça na Copa dos Estados Unidos.

Quanto ao criticado Lazaroni, ao lado de Dunga, continua sendo um dos nomes mais contestados a passar pela Seleção.

O grupo que tinha bons nomes, mas era desunido, não conseguiu fazer o que se esperava do Brasil naqueles dias. Mal sabiam eles que a decepção, as derrotas e a mediocridade iriam se tornar a marca registrada do futebol brasileiro. Tudo temperado com toneladas de soberba e prepotência.

E você, qual lembrança guarda desse jogo inesquecível?

Um abraço, e até a próxima.