O OURO MAIS BRILHANTE E FELIZ DAS LARANJEIRAS

entrevista: Sergio Pugliese | texto: André Felipe de Lima | vídeo: Daniel Planel 

Recife era uma cidade pacata naquele ano de 1939. Brotaram dali figuras excepcionais da intelligentsia nacional, como o sociólogo Gilberto Freyre (que dispensa apresentações) e Barreto Campello, um jornalista e criminologista que teve as teorias debatidas internacionalmente, uma delas a da menoridade social, com a qual Campello sugere que índios não podem ser imputados pela lei. Foi ele também um dos primeiros nomes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, em 1940, exatamente um ano após ingressar na Academia Pernambucana de Letras. E foi exatamente em 1939, que surgiu por lá, na capital do frevo, uma figura que anos depois se mostraria cultíssimo, ávido leitor de Humberto de Campos e apreciador de obras de arte, mas que se tornaria nacionalmente conhecido não pelas letras ou artes plásticas, mas sim com a bola nos pés. Chamava-se O rlando de Azevedo Viana, o extraordinário Orlando Pingo de Ouro, irmão de outro grande ídolo do futebol local, o goleador Tará, que o mimava como todo irmão mais velho faz com o caçula. Orlando se espelhou nele e desabrochou em gols. Muitos mesmo. É o segundo maior artilheiro da história do Fluminense, com 186 gols em 310 jogos. Fica atrás apenas do centroavante Waldo, que o sucedeu no ataque tricolor, na década de 1950.

Orlando nasceu em um dia bacana de 1923: 4 de dezembro. Digo “bacana” porque é o dia de Santa Bárbara, minha santa de devoção, e, creio, que a dele também. A santa certamente deu muita força para Orlando encher de muita alegria a torcida do Fluminense, mas, sobretudo, encantar a vida de uma mulher singular: Dona Maura, a grande companheira de toda a vida, e com quem tive o imenso prazer de conversar sobre Orlando Pingo de Ouro, juntamente com o repórter Sergio Pugliese e Ana Paula Viana, filha do artilheiro com dona Maura.

Orlando ensinou-a gostar de futebol, mas, especialmente, a amar o Fluminense. O marido levava a esposa para todos os lados. Almoço, jantares, festas, estádios. Se Orlando estava lá, dona Maura também. Um grande e formidável casal.

Dona Maura contou um pouco dessa deliciosa convivência com Orlando, lembrou, inclusive, que Pingo de Ouro não se achava tão craque quanto o irmão mais velho, para muitos o maior ídolo da história do Santa Cruz. “Sempre dizia que ele [Tará] era o melhor”. A modéstia do Orlando, um cracaço de bola, faz muita falta hoje no milionário universo do futebol. Impossível encontrar uma “estrela” da atualidade que se comporte como um Orlando, ou mesmo como um Ademir de Menezes, um Zizinho, um Telê, um Bigode... aliás, os quatro foram grandes amigos do centroavante do Fluminense. As famílias sempre se encontravam. Dona Maura recordou alguns desses momentos. Inclusive o último filme que o craque assistiu no cinema: Titanic.

A história de Orlando foi linda, com momentos de extrema alegria, mas também de dificuldades, de perdas. De dor. Foi emocionante ouvir dona Maura e Ana Paula descreverem um pouco do que foi Orlando. “Paro com o futebol antes que o futebol pare comigo”, dizia ele para ambas, demonstrando uma sabedoria incomum nos dias atuais do nosso maltratado futebol. “A melhor época da vida dele foi no futebol”, reconheceu Ana Paula.

A filha de Orlando está corretíssima. O excelente papo com dona Maura e Ana Paula confirmou que Orlando foi um grande pai e marido, mas também ídolo inesquecível da história Tricolor. No acervo de Orlando, que foi restaurado pelo Museu da Pelada, estava reservado um presente para a imensa torcida do Fluminense: a reportagem resgatou a foto — assinada por “Rudy” Machado — do primeiro gol de Orlando Pingo de Ouro no Fluminense, em jogo que terminou 5 a 1 para o Tricolor contra o Bonsucesso. No verso da foto — talvez o único registro do primeiro gol dele no Fluminense —, Orlando escreveu: “Meu primeiro gol em campos cariocas, Rio, 15/7/45, ass. Orlando Viana”. O primeiro de muitos, em muitas tardes de festa pintadas de grená, branco e verde. O Orlando, que deu nó em pingo d’água e fez dos seus gols centenas de pingos... de ouro. Ouro maciço e feliz.