SINfONIA RUBRO-NEGRA

texto: Sergio Pugliese e André Mendonça | fotos: Marcelo Tabach | vídeo: Daniel Perpétuo

“Garçom, um chope!!!” O pedido, verdadeiro mantra dos bares, seria mais um se não fosse direcionado a um dos maiores jogadores do futebol brasileiro: o maestro Júnior. Tudo bem que o craque, mestre das assistências, já deu, de bandeja, muitos passes consagradores, mas servir chope só aos amigos, em suas rodas de samba!  A cena carioca aconteceu na resenha promovida pelo Museu da Pelada, no Bar Cevada, em Copacabana, entre os parceiros rubro-negros, do samba e da bola, Júnior e Moacyr Luz. Culpa de quem? De Marcelo Tabach, claro, fotógrafo de nossa equipe, que sugeriu aos ídolos posarem atrás do balcão, afinal a especialidade da dupla é atrair a freguesia.  Após o pedido de chope, o cliente, intrigado, olhou para a namorada e cochichou: “parece demais o Júnior, do Flamengo”. Mais para lá do que pra cá, a jovem preferiu não esticar o assunto: “Pirou, amor?”. Não faltaram gargalhadas.

– É cada uma que acontece nesse bairro... – divertiu-se Júnior, o jogador que mais atuou com a camisa do Flamengo, 876 vezes.

Além do talento musical e do gosto pela bola rolando, Júnior e Moa tem em comum a facilidade de arrastarem multidões. Enquanto Júnior era empurrado por mais de 100 mil torcedores no Maracanã, Moacyr Luz, consagrado músico e compositor, vem arrastando quase 2 mil pessoas,  em plena tarde de segunda-feira, ao “Samba do Trabalhador”, animadíssima roda de samba, no Clube Renascença, no Andaraí. Com 11 cds gravados, o violonista já dividiu o palco com grandes nomes da música brasileira, entre eles Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Alcione e Beth Carvalho. 

Júnior chegou cabisbaixo ao encontro e não podia ser diferente. No dia anterior, o centroavante Gaúcho, exímio cabeceador e que aproveitava como poucos as assistências do Capacete, morrera, vítima de câncer de próstata. Assim que chegou ao bar, Júnior explicou sua tristeza e revelou uma conversa no celular com o artilheiro, poucos dias antes.

– Um amigo me disse que o Cabeça (Gaúcho) não estava legal. Mandei uma mensagem para ele, que me respondeu com um áudio. Pela voz, senti a situação complicada.

Juntos, os craques comandaram o Flamengo ao título brasileiro de 1992. Para descontrair, Moa brincou exibindo o seu modelito: uma camisa apertadinha, presente do próprio Júnior, anos antes. Mas a camiseta comemorava justamente os 20 anos do penta brasileiro, em 92, contra o Botafogo. Júnior e Gaúcho estavam lá e novamente o centroavante voltou ao tema da conversa. Não tinha jeito, a solução era pegar o violão e animar a mesa! E de cara, veio o hino do Mengão!!! Júnior, afinadíssimo, acompanhou batucando com o garfo no prato. Emocionante!!!!  E emendaram em outra, eternizada por João Nogueira... "Flamengo joga amanhã e eu vou pra lá, vai haver mais um baile no Maracanã, o mais querido tem Zico, Adílio e Adão...”. Na voz de Moa virou “Júnior, Adílio e Adão”, mas o “Samba Rubro-Negro”, composto nos anos 50, por Wilson Baptista e Jorge de Castro já teve várias versões. A primeira homenageava Rubens, Dequinha e Pavão pelo tricampeonato carioca de 53/54/55. Mas também cantavam Rubens, Dequinha e Jordan. Em 2008, Diogo Nogueira deu uma apeladinha e alterou para “Souza, Obina e Juan.....e como seria hoje?

– Coisa boa estar aqui com você – comemorou Moa, enquanto abraçava Júnior ao fim da canção.

Amigos de longa data, relembraram momentos de felicidade na infância. Com apenas cinco anos, Júnior mudou-se da Paraíba para o Rio de Janeiro e a paixão pelo samba começou a aflorar.  Menino, acompanhava o tio Walter nas rodas de samba do Bar Viriato,  esquina da Domingos Ferreira com Siqueira Campos, em Copacabana, pertinho de onde estavam. Segundo o craque, a música é herança familiar.

– Aprendi a tocar pandeiro olhando o meu tio. Eu olhava o pessoal tocando e quando eles paravam, eu pegava os instrumentos para tentar tocar. Meu bisavô também gostava muito de música. Ele era artesão de violinos.

O encontro não foi marcado no Cevada por acaso. O bairro sempre sediou as rodas de samba do tio Walter e foi onde Júnior morou mais da metade da vida. Em Copacabana, nos anos 60, o craque deu os primeiros chutes, na Rua Domingos Ferreira, com sandálias de “traves”. Logo depois, conheceu uma das maiores paixão de sua vida: o futebol de areia. Nas peladas, fez muitos amigos, muitos da Ladeira dos Tabajaras, e passou a frequentar a escola de samba da comunidade, onde aprendeu a tocar de verdade. O outro mestre da resenha, Moacyr Luz também se declarou fã de Copacabana. Apesar de ter morado em muitos lugares, o craque do samba não mediu palavras para falar do bairro.

– Já morei em mais de 20 bairros, mas Copacabana é o onde eu mais gosto. Morei aqui em uns quatro lugares diferentes. É o bairro com a cara do Rio – disse o compositor que já teve mais de 100 músicas gravadas por outros grandes intérpretes do Brasil.

Jogando futebol de areia toda quinta-feira com os amigos, Júnior decidiu montar um vitorioso time de pelada, que até hoje se mantém ativo, o Juventus. Com muita resenha e um futebol bonito, os meninos encantavam as pessoas que passavam pelo calçadão. Um dia, a equipe foi convidada para um torneio de futsal no Sírio Libanês. O futebol de salão, no entanto, não encantava Júnior. Pelo contrário, e o motivo era simples e digno de um bom peladeiro:

– Aquelas chuteiras primitivas, duras, de couro, machucavam muito meus pés. Eu evitava ao máximo. Gostava mesmo era de jogar descalço na areia – revelou.

Com menos habilidade do que o Maestro, mas com o mesmo gosto pelas peladas, Moacyr atuava como zagueiro. Tendo um bom porte físico, o músico dificultava a vida dos atacantes que o enfrentavam. Deu sorte de não enfrentar Júnior. Esse, infernizava a vida dos marcadores, mas não tinha êxito nas peneiras que realizava. Somado a isso, seus pais o cobravam bastante em relação aos estudos. Em 1973, quando estava quase desistindo do futebol e se preparando para iniciar o curso de veterinária na faculdade, fez um teste no Flamengo, a convite de Napoleão, amigo de seu tio. Desanimado com as injustiças que via no mundo da bola, o craque foi ao treino só por consideração a Napoleão. Chegando lá, a categoria de sempre, dribles, lançamentos, show!!!! Só tinha vaga para lateral. Topou! No meio-campo, posição preferida, teria que disputar vaga com outros 20 garotos. Pra que esse esforço todo? No ano seguinte, em outubro de 1974, subiu para os profissionais e logo foi campeão carioca. Fez parte do timaço do Flamengo que encantou o mundo e destacou um companheiro.

– O Leandro era nosso ídolo como jogador de futebol. Era a essência daquele time.

Júnior, hoje comentarista da TV Globo, opinou em relação à função dos laterais da atualidade. Segundo ele, antigamente os donos dessa posição tinham a vida mais dura.

– Enfrentávamos pontas rápidos e habilidosos. Era muito difícil marcar aqueles caras. E ainda tínhamos a obrigação de apoiar. Era complicado não tomar bola nas costas.

Na posição, Júnior fez história no Flamengo de 1974 a 1984, quando foi negociado para o Torino, da Itália. Antes disso, integrou a seleção brasileira de 1982, considerada por muitos como a maior da história, mesmo sem ter sido campeã do mundo. Naquela época, os maiores craques do mundo atuavam na Itália: Maradona, Zico, Platini, entre outros. A proposta por si só já era muito boa para o Maestro, mas quando o dirigente italiano disse que o craque seria contratado para jogar como meio-campo, não teve dúvidas.

– Se fosse para jogar de lateral eu não ia mesmo. Ele disse que eu iria fazer a função de organizador do jogo. Isso pesou muito na minha decisão.

Jogou por três temporadas no Torino e depois transferiu-se para o Pescara, também da Itália. No país, inicialmente teve dificuldades por ficar longe de duas das suas paixões: futebol de areia e samba. Contudo, o craque logo arrumou uma taberna que tocavam música ao vivo. Costumava frequentar o local para relaxar após as partidas e discutir sobre o desempenho do time.

– Comecei indo só com um amigo. Depois de um tempo, ia o time todo e até os dirigentes. Aquela resenha após os jogos melhorou o desempenho da equipe. Ficamos mais unidos. A gente discutia, bebia uns vinhos e ficava tudo certo.

O futebol de areia, no entanto, não tinha jeito. Júnior ficou um bom tempo sem praticar e ainda tinha que aturar a zoação dos amigos de infância. Enquanto passava frio na Itália, vez ou outra recebia ligações dos companheiros do time praia, após os jogos.

– Ficavam perguntando “Cadê você, Leo, não vem para a resenha? Mais tarde tem samba!” – recordou, sorrindo.

A zoação rendeu até 1989, quando, aos 35 anos, decidiu retornar ao Flamengo. Sendo um dos mais velhos do elenco, o craque comandou o rubro-negro nas conquistas da Copa do Brasil de 90, no Carioca de 91 e no Brasileiro de 92. Neste último, sem Zico ao lado, com 38 anos e atuando no meio-campo.  Ganhou o apelido de “vovô-garoto” por sua disposição. Moacyr Luz ouvia as histórias com um encanto juvenil. Dedilhava o violão e exaltava o passado. Considera desinteressante o futebol de hoje. Bateu no peito e novamente exibiu com orgulho a camisa, presente do ídolo.

– A verdade é que não existem mais jogadores como o Júnior. Hoje em dia, o cara joga cinco partidas com a camisa de um clube e já é transferido para outro. Não existe mais amor à camisa. Lembro que quando Bebeto foi para o Vasco cheguei a ter pesadelo – comentou Moa, antes de iniciar “Povo Feliz”, que embalou a seleção de 82 com o refrão “Voa, canarinho, voa”, na voz de Júnior.

Um vendedor ambulante parou quando viu a dupla cantando. E olhando, do lado de fora, da janela do bar, cantou junto e comentou com o casal, o mesmo do início da história, que, agora, bebia na calçada. “Caramba, nunca pensei ver o Júnior, do Flamengo, tão de perto”.  E a jovem, mesmo “trêbada”, concluiu que o namorado não estava tão pirado assim.