O PONTA GARÇOM QUE VIROU FORMADOR DE CIDADÃOS

texto e entrevista: Claudio Lovato | vídeo: Edu Andrade | edição de vídeo: Daniel Planel

 

É uma manhã de terça-feira, no fim de junho, e José Francisco Solano Júnior circula pelas instalações do SESI Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. Cumprimenta e é cumprimentado a todo instante. Distribui sorrisos e recebe o troco na mesma agradável moeda. É um homem benquisto que está à vontade em seu ambiente de trabalho.

Trabalho que ele exerce com a satisfação daqueles que se realizam no cotidiano – a cada aula, a cada ensinamento que oferece generosamente, a cada chance que tem de compartilhar com os mais jovens aquilo que de mais importante aprendeu na vida.

Aqui, na cidade que o acolheu quando ele tinha apenas um ano de idade, em 1959, procedente de Alvinópolis, no interior de Minas Gerais, José Francisco Solano Júnior relembra, para o Museu da Pelada, momentos especialmente marcantes de sua carreira.

José Francisco Solano Júnior é Júnior Brasília.

Minas, Mato Grosso, Sul.

Ex-ponteiro-direito de Flamengo, Cruzeiro e Brasil de Pelotas, entre outros clubes, camisa 7 clássico, ele gostava mesmo era de deixar a bola “queimar” na linha de fundo e então cruzar, para presentear o centroavante que chegava de frente, bola na testa do parceiro.

- Nunca fui de fazer muitos gols! Eu gostava mesmo era de ser ‘garçom’, servir os companheiros - diz Júnior, que foi “Júnior II” antes de se tornar “Júnior Brasília”.

Disputou seu primeiro Campeonato Brasileiro em 1975, aos 17 anos, pelo CEUB, de Brasília. Jogou tanto que, no ano seguinte, estava no Flamengo treinado por Carlos Froner e que tinha no elenco feras como Cantarelli, Rondinelli, Jaime, Júnior (a quem deve o acréscimo de “Brasília” ao seu Júnior), Geraldo, Cláudio Adão, além de um certo Arthur Antunes Coimbra, com quem Júnior Brasília nutre uma grande amizade, que atravessa as décadas.

Júnior Brasília e Hélio Vieira, os calos do Flamengo

Conquistou seu espaço no rubro-negro carioca, depois – envolvido numa troca que levou Raul Plassmann para a Gávea – foi para Minas, jogar em outro timaço da época, o Cruzeiro, esteve rodou no Paraná (Grêmio Maringá), Mato Grosso do Sul (Operário), Mato Grosso (Mixto) e então chegou àquele que é, até hoje, o clube que ocupa mais espaço em seu coração: o Brasil de Pelotas. Lá foi treinado por Luiz Felipe Scolari e por Valmir Louruz, ajudou a levar o Xavante à semifinal do Campeonato Brasileiro de 1985, tornou-se ídolo e herói de um clube e de uma cidade.

- Era um ambiente muito bom! Tínhamos realmente uma família, apoiada por aquela torcida maravilhosa. Sinto muita saudade daquele tempo! - relembra um emocionado Júnior Brasília.

Desde 1997, Júnior Brasília ensina futebol a crianças e jovens de 5 a 17 anos, no SESI. Mais que formar jogadores de futebol, ele quer ajudar a formar cidadãos.

- Essa preocupação é algo que não existia no meu tempo. As coisas mudaram bastante! - diz, com a satisfação e a alegria de quem, há muito tempo, aprendeu a se realizar com o seu aqui e o seu agora.