A PELADA COMO ELA NÃO É!

Memórias de um brasileiro no reino da bola, 
por Pedro Redig, de Londres

 

Pelada na Inglaterra? Nem na cama! O país que inventou o futebol é também famoso pela frase “No sex please, we are English.” Mas a vida dos boleiros de plantão daqui tem muito pouco a ver com o que nós chamamos de pelada. 

A primeira grande diferença: com o terreno pesado por conta do mau tempo, a maioria dos craques amadores joga de chuteira. Com a chuva e o frio, aquele churrasco de congraçamento regado a muito bom humor também não existe.

Numa coisa os ingleses talvez superem os brasileiros: a cervejinha depois do apito final, consumida em copos de mais de meio litro chamados de ‘pints’ – medida imperial antiga que equivale a exatamente 568 mililitros. 

Se o Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de litoral para bater uma bola, uma cidade como Londres tem centenas de parques. Enquanto a gente joga na areia, terra, cimento e campos artificiais, o que não falta por aqui são gramados naturais, verdinhos - ideais para a prática do velho esporte bretão. 

Nos fins de semana, espaços como o Regents Park e Battersea Park no centro de Londres estão sempre cheios de gente que gosta de correr atrás da bola. Muitos destes jogos são para valer e fazem parte de milhares de ligas que existem na Inglaterra.

Com uma presença enorme de estrangeiros, é muito comum ver times formados por gente que veio do mesmo país. No Battersea Park, existe um campeonato exclusivo de latinos: colombianos contra equatorianos, bolivianos contra peruanos, chilenos contra brasileiros e por aí vai.

Em Cherry Tree Woods, o parque que fica em frente à minha casa, o que atrai mais a galera é o futebol em que adultos se misturam com crianças. Pais e filhos, tios, cunhados e primos, suando a camisa num ambiente descontraído e leal.

A pelada em família obedece a requisitos de organização de fazer inveja aos brasileiros. Cones marcam as laterais e bandeirolas de verdade assinalam o local para os escanteios. As traves muitas vezes são feitas de pedaços de cano de plástico enterrados na grama molhada pelo tempo inclemente.

Uma alternativa à tradicional pelada são as partidas disputadas em centros que alugam campos de grama sintética. Um dos maiores é a chamada Power League. A turma divide o dinheiro e aluga o campo por meia ou uma hora no máximo. Um destes espaços funciona, inclusive, do lado de fora do famoso estádio de Wembley.

Outro ritual exclusivamente inglês são as chamadas Sunday Leagues – campeonatos disputados aos domingos, organizados com promoção e rebaixamento por centenas de ligas ligadas aos diversos bairros da capital inglesa.

Quando eu cheguei na Inglaterra em 1986, aderi ao clube da vizinhança chamado Highgate Albion. Vi um anúncio num pub e me entreguei de corpo e alma à causa deste novo time de coração. Foram cinco anos de uma carreira amadora que acabou com uma contusão de profissional: ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo aos 38 anos, num jogo no oeste de Londres contra uma turma de asiáticos excessivamente empolgados.

Em todas estas ligas, cada partida tem súmula, juiz, bandeirinha, impedimento, linha burra e jogadores nem tão inteligentes. Mas vale a pena. Eu acordava as 7 da matina para nadar e ficar alerta e esperto para a hora do jogo as 11 horas.  Era comum pisar os gramados cobertos de gelo com minha chuteira Puma King - um presente do Pelé para o saudoso Armando Nogueira que o filho dele e meu grande amigo Manduka doou para mim.

Cada um destes ‘clubes’ tem vários times, inclusive veteranos. Mas inglês nao é que nem brasileiro que vai envelhecendo na vida jogando sempre com os mesmos amigos - até muitas vezes depois dos 60 anos. A carreira média de um boleiro aqui resiste no máximo até os 50.

Meu futebolzinho modesto de lateral direito ou esquerdo não era lá grandes coisas mas contribui muito para o time. Numa viagem ao Brasil, consegui um jogo de camisas e chamei vários brasileiros que tinham atuado em divisões de bases - até no Santos - para fazer parte do time.

Esta história irreverente do futebol puramente amador não podia acabar sem uma lembrança do que foi a experiência de levar meu filho para uma escolinha inspirada no jeito de jogar brasileiro.

De uniforme azul e amarelo feito a nossa combalida Seleção, ele suava a camisa todo fim de semana num liga mirim do conhecido bairro de Camden Town.  O Luca era naquela época um menino esforçado. Mas não conseguiu aturar as constantes mudanças táticas.  Às vezes, ele começava jogando, saía no do primeiro tempo, ficava no banco morrendo de frio para voltar no segundo tempo e sair de novo.

Pais neuróticos gritavam à beira do campo e tudo não passava no fundo de uma grande paranóia. Nada de diversão ou deixar os garotos livres para se expressar ou improvisar do que jeito que bem entendessem. Os adultosreplicavam nas crianças o mesmo clima tenso que existe numa partida entre profissionais.

É claro que depois de uns três anos, o meu filho abandonou o time que tentava jogar inspirado no modelo do Brasil mas não chegava nem perto. Hoje com 20 anos, ele ainda disputa uns ‘rachas’ com os amigos ingleses no campo de uma escola que eles usam no fim de semana.

Para este botafoguense de fé, o prazer do futebol continua com a torcida pelo meu clube adotivo Tottenham Hotspur. Em 30 anos na Inglattera, posso concluir que a vida aqui teve dois tempos: o primeiro quando era feliz jogando bola. Neste segundo tempo, por conta do joelho bichado, tenho que me contentar em assistir à margem do campo – ou pela televisão.