Peixe na folia

Os melhores momentos de Barcelona 5 x 0 Real Madrid.

Em tempos de folia, o Museu da Pelada relembra o dia em que Romário fez três gols no Real Madrid e foi liberado pelo técnico Johan Cruyff para curtir o Carnaval no Rio de Janeiro.

– Uma vez, Romário veio me perguntar se poderia faltar a dois dias de treinos para voltar ao Brasil. Deveria ser carnaval no Rio de Janeiro. Eu respondi: 'se você fizer dois gols amanhã, te dou dois dias a mais de descanso que o restante da equipe'. No dia seguinte, ele marcou seu segundo gol com 20 minutos de jogo e imediatamente fez um gesto para mim pedindo para sair. Ele me disse: 'Treinador, meu avião sai em menos de uma hora' - lembrou Cruyff, técnico do Barcelona entre 1988 e 1996, que deixou que o atacante viajasse por ter cumprido a promessa.

CONSTELAÇÃO TRICOLOR

No início do ano, o clube Costa Brava, em São Conrado, foi invadido por uma constelação tricolor. Mais uma obra da dupla Carlos Perez e Helso Teia, que adora reunir os amigos para relembrar os bons tempos!!! Foi o Terceiro Encontro de ex-Atletas do Fluminense e a casa ficou cheia!!! A equipe do Museu apareceu por lá e aproveitou para bater um papo com três de nossos ídolos, Arturzinho, Rubens Galaxe e Paulo Goulart. Matem a saudade!!!!    

A pelada no sertão

texto: José Evandro de Sousa | fotos: Adriana Soares
 de Barra de São Miguel, Paraíba

Caco Velho F.C.

Caco Velho F.C.

O Esporte Clube São Miguel, time de pelada da pequena cidade de Barra de São Miguel, sertão da Paraíba, a 200 km da capital João Pessoa, resiste ao tempo reinventando-se. Fundado em dezembro de 1966, foi rebatizado em 1972, para Bangu Atlético Clube e agora, ah o tempo... virou Caco Velho F.C.

Passou a ser Bangu quando um dos seus jogadores, o Luís de Biino, foi tentar a vida no Rio de Janeiro, mas voltou após um ano, sufocado pela saudade. Antes, porém, teve a ideia de levar um uniforme novo para o seu time. Passando pela Rua da Alfândega, no centro do Rio de Janeiro, entrou numa loja de material esportivo e o único uniforme que encontrou foi o do Bangu. Gostou e a partir daquele momento o time foi rebatizado.

O craque veterano Luís de Biino, primeiro patrocinador do time paraibano.

O craque veterano Luís de Biino, primeiro patrocinador do time paraibano.

O Bangu carrega em sua história a essência do peladeiro que nunca desiste, mesmo com o tempo castigando as juntas e rótulas da rapaziada. Conhecido por Ferreirão, o campo era de terra e cercado, de um lado por avelós (planta nativa do sertão) e do outro por uma vista panorâmica da cidade. Ao fundo, a parede do Cemitério Municipal São Miguel Arcanjo. O piso era de terra fofa nas laterais e duro e cheio de cascalhos no meio. O vento sempre prejudicava os adversários. O Bangu era praticamente imbatível, afinal os rivais, além de enfrentá-los, também precisavam desviar-se de cabritos, jumentos e, ora e outra, de um galo de briga, que se sentia o dono do terreiro e atravessa calmamente o largo campo de terra. Padeiro e ponta-direita mais rápido da região, o baixinho Tarugo, além de fugir da violência dos zagueiros, também livrava-se com maestria dos animais. O também veloz Silvio, atacante habilidoso, certa vez ao passar por dois adversários, já próximo ao gol, precisou colocar a bola entre as pernas de um cabrito que surgiu à sua frente e pular por cima dele antes de marcar um gol apoteótico. No time também tinha Preáera, o goleiro de 1,70 que compensava a baixa estatura com agilidade e elasticidade, dando jus ao apelido, pois preá é um rato do mato muito rápido. O jovem atacante Bichinha, que não tinha medo de cara feia, chegou a atuar por alguns clubes da Paraíba, mas resolveu casar e abriu uma fábrica de confecção de calcinha. Xanga Confusão era um meia-atacante que adorava um bate bola, quer dizer bate-boca. Quando não arrumava briga com o adversário, criava confusão com os próprios companheiros. Jogar que era bom.... Cacau, atacante que garante ser o primeiro jogador gay assumido do Bangu, foi contratado pelo Treze, de Campina Grande, e hoje é casado com uma mulher e tem um filho. Tataí, lateral-direito, estilo iôiô, sobe e desce, era muito voluntarioso. Assis era um zagueiro alto, estiloso, que quando a situação apertava, resolvia com o famoso “bola pro mato”. Centroavante, Paulo era aquele peladeiro duro, ruim de cintura, guerreiro, sempre titular e irmão do presidente. Está explicado!

Robgol. Ex-Santos, Náutico e Paysandu

Robgol. Ex-Santos, Náutico e Paysandu

O Bangu orgulha-se por ter revelado Robgol (artilheiro do Náutico, Santos e Paysandu), cria mais famosa e ilustre do time e da cidade. Hoje, aposentado da bola, divide seu tempo entre Belém, onde mora, e Barra de São Miguel, onde tem os seus familiares e os amigos do glorioso Bangu.

Ah, tinha o presidente!!! Na verdade, diretor, treinador, jogador, dono do uniforme e da bola: Baieta, que apesar de seus 95 quilos, ai daquele que não tocasse a bola para ele. Com certeza, na próxima reunião de diretoria, na mesa principal do bar central, lugar de concentração na véspera dos jogos, o “cabra” correria o risco de não ser escalado para a próxima partida.

Me lembro quando tinha 16 anos, estava de férias e fui convidado para jogar pelo Bangu contra uma equipe rival, em uma cidade vizinha chamada Gravatá. Jogo fora para peladeiro é sinal de festa. Contrataram um caminhão e os jogadores iam na carroceria, juntos com torcedores e parentes, quase 50 pessoas!!! E lá ia o caminhão cruzando as estradas de terra do sertão árido da Paraíba. Só alegria!!! Quando chegamos lá me colocaram na reserva do time principal e avisaram que eu entraria no segundo tempo. Durante o jogo observei um jogador do time adversário conhecido por Pedro Pipoco, muito violento! Quando a bola passava, o jogador ficava. Ele tinha essa “habilidade” de desfazer uma jogada, mas também tinha um canhão no pé! Entrei no jogo e logo o Pedro Pipoco me deu um tapão na orelha e fiquei com medo. Então, durante a partida em que o Bangu ganhava por 1 x 0 do Gravatá, aconteceu uma falta quase em cima da linha de cal da grande área. Pedro Pipoco pegou a bola, ajeitou com carinho, tomou distância de pelo menos uns 10 metros e a torcida começou a gritar. Parecia um gladiador prestes a abater o adversário.  Pedro Pipoco correu, disparou um balaço e a bola passou por cima da barreira, do muro e acertou em cheio um torcedor que assistia a peleja em cima de um cajueiro, atrás do gol. Com o impacto da bolada, ele caiu e levou outros três torcedores junto. A partir daí, entendi porque Pedro Pipoco era temido pelos adversários e respeitado pela torcida. Ganhamos o jogo, festa na volta e o presidente prometeu bicho pela vitória. Chegando à cidade, após aquela tarde esportiva, ainda sujo de terra, pois não havia lugar para trocar de roupa nem para tomar banho, o presidente liberou cerveja, cachaça e galinha cozida.

Jogo em casa era pressão total e dificilmente o Bangu perdia, pois quando o presidente estava, costumava pressionar os bandeirinhas. Em jogos mais tranquilos, entrava para emplacar seus golzinhos, afinal de contas a camisa 9 era dele!!!

Hoje, uma nova geração brota. Com a saúde debilitada, Baieta, o presidente, passou o bastão para seu filho, Pão. Sua neta, Alice, de 12 anos, também tem futuro e vive dizendo: “prefiro uma bola do que uma boneca”.

Alice, Pão e Baieta.

Alice, Pão e Baieta.

Assim, o tempo passou. Hoje, o velho Ferreirão é cercado com alambrado, uma barreira contra os cabritos. Alguns atletas como Dedé, marrento e habilidoso, estão nas cadeiras cativas do velho cemitério municipal, ao lado do antigo campo. Agora, nasce o Caco Velho F.C., com jogadores do antigo Bangu, aposentados, atrofiados, mancos, com tendinites crônicas, artroses, etílicos, mas vivos.  Uma vez peladeiro, sempre peladeiro!



LONDRES PRA VOCÊ

por Sergio Pugliese

Há algumas semanas postamos um saboroso texto do jornalista Pedro Redig sobre aventuras futebolísticas em Londres, onde trabalha como correspondente. Sua amiga, a videomaker Tina Wells viu, gostou e também enviou a sua colaboração, um vídeo registrando sua visita ao lendário estádio Wembley. Tina oferece passeios personalizados no site londrespravoce.com. Vale conferir:

RESSACA BOA

A equipe do Museu da Pelada está de ressaca até agora por conta da presença em dezenas de resenhas e eventos de fim de ano. Pena não termos conseguido participar de todas, como a peladaça organizada por Tuca Negri e o aniversário de 81 anos de Armando Pittigliani, no Clube dos 30, regada a arroz de carreteiro, mas, entre outras, estivemos no amigo oculto do Caldeirão do Albertão, no Grajaú, com a presença dos jornalistas Ricardo Boechat e José Carlos Araújo, e no Jogo das Estrelas, organizado por Zico, no Maracanã (Valeu Vinícius e Tinoco!!!). Ah, também fomos ao Iate Clube Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, na tradicional pelada da Modus, de José Moraes, conselheiro do Tribunal de Contas do Município, e nas rodas de samba de nosso ídolo Rogê, no Clube Federal, no Alto Leblon, e, em Guapimirim, na do parceirão Gabriel Figueiredo, camisa 10 do Pelicanos Azuis, de Niterói.

 

Quem reúne 72 mil pessoas para assistir uma pelada pode dizer que é dono da maior pelada do mundo. É só mais um golaço de Zico, que falou com o Museu da Pelada no Jogo das Estrelas 2015.

Um papo com Edu Coimbra, Renato Gaúcho, Tita, Roger, Marcão, Alex, Beto, Edmundo, Junior, Rodrigo Caetano, Péricles Bassols, José Aldo, Lucas Lima, Elias, Falcão no Jogo das Estrelas 2015, no Maracanã.

Ricardo Boechat no Caldeirão do Albertão.

Garotinho direto do Caldeirão do Albertão, no Grajaú, Rio de Janeiro.

Guaraci Valente, André Gasparetii, José Loretto, Mussunzinho, Marcelo de Lima e Silvinho Blau Blau dão seus recados na pelada do Planet Globe, no Iate Clube Jardim Guanabara.

UM TÍTULO BOM PRA CHUCHU.... (ÁGUA DE MACARRÃO)

por Serginho 5Bocas

O que tem em comum, Índio, do Coritiba que fez gol na final do Brasileiro, de 1985, contra o Bangu, César, do Vitória, da Bahia, que fez gol na final do BA-VI, de 1981, Chiquinho que jogou futsal na Bradesco, na década de 80, entre outros tantos ex-jogadores profissionais e craques anônimos? O campeonato de pelada do Melo Tênis, clube da Zona Norte, do Rio de Janeiro.

Lá, onde se joga um dos campeonatos de pelada (ou de várzea) mais disputados que já conheci, eu, Serginho5Bocas, caçador de peladas, não poderia deixar de jogá-lo, não é mesmo? Então vou contar a história de mais um torneio de peladas que participei e, com muito orgulho, ganhei.

Entre todos os campeonatos, torneios, copas que já participei, nunca um deles foi tão inusitado, pelo menos o capítulo final.

Vejam vocês, que passados cinco ou seis meses, sei lá...três turnos, semifinais, muitos gols, expulsões, cartões amarelos, cerveja, água, gelo e, vejam só, quando chegam as duas partidas finais, os caras do time do “Cuiabá”, não apareceram para jogar, isso mesmo, ganhamos o campeonato por WO!!!

Meu time, o “Assim que se faz”, venceu o 1º turno, Portugal venceu o 2º e os caras do Cuiabá, que foram vices dos dois primeiros, venceram o 3º turno, concluindo uma fase classificatória espetacular, pois fizeram mais pontos e foram às três finais.

Obviamente que isso não garante o título, mas é uma excepcional credencial e enche de moral para as fases finais. Nas semifinais, eles passaram pelo time do “Colômbia” que foi o 4º time classificado por força do regulamento, após um empate e uma vitória suada por 3x2, em que jogaram com um homem a mais todo o 1º tempo. Nós eliminamos “Portugal” nos pênaltis, após uma vitória para cada equipe.

Chega à semana da final e Cuiabá informa que só poderia jogá-la se fosse em apenas uma partida, em razão de outros compromissos e pede nossa anuência. Lógico que numa guerra, não se dá armas para o exército inimigo, sem contar que em outras ocasiões quando nós precisamos de alterações nas datas dos jogos, não fomos ajudados, então só nos restava negar o pedido e jogar as partidas. Fez-se cumprir o regulamento e “toca o enterro, mermão”.

E assim Cuiabá cumpriu o prometido: se fossem em duas partidas eles não apareceriam para jogar, e pela primeira vez na minha vida, infelizmente, fui campeão sem final, por WO.

Confesso que não fiquei feliz porque sou um tremendo “fominha” e, além disso, fica um vazio tremendo pela falta de competitividade, de não vencer no campo uma final tão aguardada. Restou o sabor meio com gosto de guarda-chuva da vitória.

Ocorre que houve mais um fato inusitado para mim, mas que é pratica muito comum no futebol, o de trapacear: pois se Cuiabá foi o time mais regular da competição, muito se deve ao fato de ter muita força física para uma categoria de seniores e nesta categoria a idade faz uma diferença muito grande. Só que o que não se sabia é que eles tinham um jogador (quem sabe se não seriam mais...) que era bem mais jovem do que a idade mínima permitida para o campeonato e ai fazia diferença para sua equipe. Ou seja, eles tinham um “gato” às avessas.

Confesso que preferia não saber dessa história antes do fim do campeonato, até porque enfrentei os caras com esse cara (ou mais) e sinceramente achei os jogos muito iguais, decididos em detalhes. Aliás, em nenhuma das partidas fomos massacrado ou eles tiveram todo o domínio da partida, muito pelo contrário, sempre dominávamos os jogos até cansarmos e só aí eles sobressaíam. Talvez aí esteja o segredo, porque eles tinham tanto preparo físico em relação a nós. Mesmo assim, até mesmo perdendo, não tenho raiva dos caras, tenho indiferença, pois jamais utilizaria um expediente desses para ser campeão. Para mim, isso é como um doping, Deus me livre, vencer assim.

Não sei se o cara ia decidir a partida, mas o certo é que eles tomaram uma goleada de ética e de moral fora de campo. Talvez tenha sido melhor eles não aparecerem mesmo, pois fez-se justiça. Também tínhamos time para ser campeão, fizemos jogos maravilhosos contra eles e essas duas partidas prometiam, uma pena!

Agora, que os troféus e medalhas ficaram com gosto de chuchu, de água de macarrão ficaram, ah, se ficaram!

Agora, um breve resumo dos campeões da esquerda para a direita:

Feinho - acrescentou aos seus mais de 60 anos, mais um caneco, agarra muito o coroa;

5Bocas - caçador de peladas, comprovou sua sina, não é um virtuose, apenas um cara difícil de ser vencido, luta na vida e na bola;

Marcio - cornetou tanto que ficou rouco e com calo nas cordas vocais, mas no final valeu a pena;

Luis - o passe preciso, nosso zagueirão que deu show;

Manel - seu futebol é como sua silhueta, finíssimo, sem exageros;

Alfredo - nosso lateral carteiro, começou bem mas depois sumiu, aparece meu amigo!

Jaiminho - nosso guerreiro azarado, jogou muito esse campeonato (como sempre), mas se quebrou demais, primeiro o ombro, depois o tendão de Aquiles, vai se benzer muleke!

Jorge - foi nosso curinga, jogou bem em todas;

Carlinhos - o nosso Fred Astaire esteve bem, mas precisa se cuidar, esse negócio de treino funcional no Cincão quase te mata;

Belmiro - começou no campo e acabou conquistando o título fora das quatro linhas, parceirão;

Cesar - ex-"profissa" que chegou no meio da brincadeira e conseguiu o seu espaço, um cara gente boa e humilde, mas que sabe jogar muita bola;

Manguinha - muito talento na meiúca, ficou um pouco ansioso durante o torneio, mas se recuperou na fase final, é fera;

Gueré - o cara é um maluco beleza, corre o campo todo, parece garoto, mereceu o título; 

Betinho - faz gol com imensa facilidade, é fera, também gastou a bola;

Pastel - joga fácil e em dois toques, entrou muito bem no decorrer do torneio e nos ajudou muito nesta conquista;

Grilo - ex-boleiro que jogou pouco por conta de problemas de saúde, mas entrou em muitas ocasiões com êxito e fora de campo era só alegria, mas cuidado com o seu sabonete ou sua toalha, com ele no vestiário....chiiiii

Marco Aurélio -  paredão que entrou no final do campeonato e jogou muito na hora em que mais precisamos, é fera.

Faltou na foto o Carlinho, goleiro que agarrou muito e nos salvou nos pênaltis da semifinal, o Jobson que apesar da lesão, nos ajudou muito durante todo o torneio e o Carlyle que nos ajudou muito dentro e fora de campo, com sua seriedade e simplicidade em campo e com seu bom humor, inteligência e ótimas tiradas fora dele, e o Marquinhos que pouco se viu, mas quando aparecia era certeza de qualidade e força.

Obrigado a todos por mais essa conquista.

Faltou alguém? Se faltou foi mal, me avise que eu edito e mando a medalha pelo correio.

A PELADA COMO ELA NÃO É!

Memórias de um brasileiro no reino da bola, 
por Pedro Redig, de Londres

 

Pelada na Inglaterra? Nem na cama! O país que inventou o futebol é também famoso pela frase “No sex please, we are English.” Mas a vida dos boleiros de plantão daqui tem muito pouco a ver com o que nós chamamos de pelada. 

A primeira grande diferença: com o terreno pesado por conta do mau tempo, a maioria dos craques amadores joga de chuteira. Com a chuva e o frio, aquele churrasco de congraçamento regado a muito bom humor também não existe.

Numa coisa os ingleses talvez superem os brasileiros: a cervejinha depois do apito final, consumida em copos de mais de meio litro chamados de ‘pints’ – medida imperial antiga que equivale a exatamente 568 mililitros. 

Se o Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de litoral para bater uma bola, uma cidade como Londres tem centenas de parques. Enquanto a gente joga na areia, terra, cimento e campos artificiais, o que não falta por aqui são gramados naturais, verdinhos - ideais para a prática do velho esporte bretão. 

Nos fins de semana, espaços como o Regents Park e Battersea Park no centro de Londres estão sempre cheios de gente que gosta de correr atrás da bola. Muitos destes jogos são para valer e fazem parte de milhares de ligas que existem na Inglaterra.

Com uma presença enorme de estrangeiros, é muito comum ver times formados por gente que veio do mesmo país. No Battersea Park, existe um campeonato exclusivo de latinos: colombianos contra equatorianos, bolivianos contra peruanos, chilenos contra brasileiros e por aí vai.

Em Cherry Tree Woods, o parque que fica em frente à minha casa, o que atrai mais a galera é o futebol em que adultos se misturam com crianças. Pais e filhos, tios, cunhados e primos, suando a camisa num ambiente descontraído e leal.

A pelada em família obedece a requisitos de organização de fazer inveja aos brasileiros. Cones marcam as laterais e bandeirolas de verdade assinalam o local para os escanteios. As traves muitas vezes são feitas de pedaços de cano de plástico enterrados na grama molhada pelo tempo inclemente.

Uma alternativa à tradicional pelada são as partidas disputadas em centros que alugam campos de grama sintética. Um dos maiores é a chamada Power League. A turma divide o dinheiro e aluga o campo por meia ou uma hora no máximo. Um destes espaços funciona, inclusive, do lado de fora do famoso estádio de Wembley.

Outro ritual exclusivamente inglês são as chamadas Sunday Leagues – campeonatos disputados aos domingos, organizados com promoção e rebaixamento por centenas de ligas ligadas aos diversos bairros da capital inglesa.

Quando eu cheguei na Inglaterra em 1986, aderi ao clube da vizinhança chamado Highgate Albion. Vi um anúncio num pub e me entreguei de corpo e alma à causa deste novo time de coração. Foram cinco anos de uma carreira amadora que acabou com uma contusão de profissional: ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo aos 38 anos, num jogo no oeste de Londres contra uma turma de asiáticos excessivamente empolgados.

Em todas estas ligas, cada partida tem súmula, juiz, bandeirinha, impedimento, linha burra e jogadores nem tão inteligentes. Mas vale a pena. Eu acordava as 7 da matina para nadar e ficar alerta e esperto para a hora do jogo as 11 horas.  Era comum pisar os gramados cobertos de gelo com minha chuteira Puma King - um presente do Pelé para o saudoso Armando Nogueira que o filho dele e meu grande amigo Manduka doou para mim.

Cada um destes ‘clubes’ tem vários times, inclusive veteranos. Mas inglês nao é que nem brasileiro que vai envelhecendo na vida jogando sempre com os mesmos amigos - até muitas vezes depois dos 60 anos. A carreira média de um boleiro aqui resiste no máximo até os 50.

Meu futebolzinho modesto de lateral direito ou esquerdo não era lá grandes coisas mas contribui muito para o time. Numa viagem ao Brasil, consegui um jogo de camisas e chamei vários brasileiros que tinham atuado em divisões de bases - até no Santos - para fazer parte do time.

Esta história irreverente do futebol puramente amador não podia acabar sem uma lembrança do que foi a experiência de levar meu filho para uma escolinha inspirada no jeito de jogar brasileiro.

De uniforme azul e amarelo feito a nossa combalida Seleção, ele suava a camisa todo fim de semana num liga mirim do conhecido bairro de Camden Town.  O Luca era naquela época um menino esforçado. Mas não conseguiu aturar as constantes mudanças táticas.  Às vezes, ele começava jogando, saía no do primeiro tempo, ficava no banco morrendo de frio para voltar no segundo tempo e sair de novo.

Pais neuróticos gritavam à beira do campo e tudo não passava no fundo de uma grande paranóia. Nada de diversão ou deixar os garotos livres para se expressar ou improvisar do que jeito que bem entendessem. Os adultosreplicavam nas crianças o mesmo clima tenso que existe numa partida entre profissionais.

É claro que depois de uns três anos, o meu filho abandonou o time que tentava jogar inspirado no modelo do Brasil mas não chegava nem perto. Hoje com 20 anos, ele ainda disputa uns ‘rachas’ com os amigos ingleses no campo de uma escola que eles usam no fim de semana.

Para este botafoguense de fé, o prazer do futebol continua com a torcida pelo meu clube adotivo Tottenham Hotspur. Em 30 anos na Inglattera, posso concluir que a vida aqui teve dois tempos: o primeiro quando era feliz jogando bola. Neste segundo tempo, por conta do joelho bichado, tenho que me contentar em assistir à margem do campo – ou pela televisão. 

Uri Geller, o inferno de Nicanor

porJoão Carlos Pedroso
Jornalista, fã de carteirinha de Uri Geller e filho de zagueiro do Flamengo

Charge de Marcos Vinícius Cabral

Charge de Marcos Vinícius Cabral

Na segunda metade da década de 70, a Cidade Alta, em Cordovil, era limpa, pacífica, divertida e boa de bola. Era feliz, apesar de boa parte dos seus moradores viver ali uma espécie de exílio, banidos que foram do Leblon e adjacências (Praia do Pinto, Parque Proletário da Gávea etc) para um até então desconhecido subúrbio carioca.

E a Cidade Alta tinha Nicanor. Negro retinto, forte como um touro, bravo (e bota bravo nisso) lateral da Portuguesa da Ilha. Nicanor tinha tudo para ser um ídolo local e todo dia sair de casa a cada manhã sorrindo e com o peito mais estufado ainda do que o normal - ele tinha peito de pombo.

Mas Nicanor não sorria. Ao menos não em público. Ele devia rir até pegar na maçaneta, talvez. Mas ao abrir a porta, dava de cara com seu vizinho e algoz, seu inferno na terra, o escolhido dos deuses: Júlio César Uri Geller, um gênio da bola em flor.

Julinho, como era chamado na Alta, ainda estava longe de ser titular do Flamengo. Mas já jogava nas seleções de base, era adorado pela vizinhança e vivia sorrindo. Em especial na peladas disputadas no finais de semana livres...

Não havia gramado, nem mesmo um terrão. O campo era o ponto final do 334, que ligava (e liga, até hoje) o conjunto habitacional até a Praça Tiradentes. Asfalto cascudo, irregular, que arrancava a pele e tirava o sangue dos aspirantes a craques. E mesmo dos craques. No caso, de Uri Geller.

      Nicanor nunca saiu da Portuguesa e nunca foi um primor dentro das quatro linhas. Resolvia praticamente tudo na base da ignorância, quando estava em campo. Mas ali, numa pelada de bairro, ele se destacava, como qualquer "federado", quando cercado de amadores. Batia na bola diferente de todos, sabia marcar melhor que os outros, tinha mais visão de jogo que qualquer um. Seria fácil o craque da área. Seria, se não existisse um demônio chamado Julinho.

Era sempre um de cada lado. Jamais parceiros, sempre inimigos. Julinho já humilhava no visual: calção oficial da Seleção Olímpica (ele disputou os Jogos de Montreal, em 1976), pisante invocado... Mas eram apenas as preliminares. E sim, a imagem sexual faz todo o sentido, porque o que ele fazia com o Nicanor quando a bola rolava...

É verdade que Uri Geller narrava as próprias jogadas. "Lá vai Julinho pelo meio, dribla um, passa pelo segundo, caneta no terceiro! Mas o que que é isso, minha gente!". Agora imagina o Nicanor ouvindo isso, vendo seu time armado com tanto carinho sendo desmontado, peça após peça, e só esperando pela sua vez... a angústia, a dor.

Julinho narrava e sorria, sorria e avançava. E ai chegava na frente do Nicanor. Não, ele não passava TODAS as vezes pelo colosso de ébano. Nicanor nunca teve aspirações de Nilton Santos e odiava o oponente com todas as forças. Assim sendo, não tinha o menor pudor de finalizar o futuro Uri Geller sempre que possível. "Tá lá o corpo estendido no chão". Um chão duro e áspero que nem ralador de coco. Sangue, lógico. E Julinho sorria.

Em volta, casa cheia. E, acreditem, torcida dividida, já que muita gente achava que o pobre Nicanor era mais "raiz". Tinha uns rádios portáteis daqueles grandões. Samba. Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, cujo sucesso do ano, "O Surdo", era principal fonte de inspiração para Nicanor: "Eu bato forte em você/ E aqui dentro do peito uma dor/ Me destrói"... Não existia funk, ainda. Julinho sorria. Nicanor, não. E tinha um adolescente de óculos que via aquilo tudo e jurava que iria fazer igual ao maior jogador que viu de tão perto. Bem que tentei...

RUBRO-NEGROS SEM ÍDOLOS

:::: LUIZ CARLOS CASCON ::::

Desconheço se há estudo a respeito, mas tenho a impressão que um ídolo se forma e se consolida na nossa cabeça na fase de transição entre a infância e a adolescência.

Se essa tese tem algum fundamento, posso concluir que os rubro-negros da minha geração não tiveram muita sorte para eleger um craque para idolatrar.

Comecei a acompanhar futebol no início dos anos 1960. Nos primeiros anos da década, o Mengo, como era mais chamado, tinha um time bom, mas os  jogadores com potencial de ídolo, como Dida e Joel,  já estavam em fim de carreira. Atletas talentosos surgiram, como Gérson, mas os dirigentes do clube na época, amadores e incompetentes, deixaram escapar.

Seria possível contar nos dedos jogadores de qualidade que vestiram por várias temporadas o manto sagrado naquele período -  o meia-atacante Silva, os laterais Murilo e Paulo Henrique, o volante Carlinhos Violino e, no finalzinho daqueles anos, o argentino Doval. Em suma, foi muito pouco para formar equipes de qualidade e promover ídolos de verdade.

Como todo flamenguista, era teimoso e não deixava de ir ao Maraca. Íamos ao estádio em grupo e não havia discriminação – faziam parte da “turma do Ingá” (bairro de Niterói) torcedores de todos os times. Tinha até um americano. Os botafoguenses deitavam e rolavam. E não era para menos: Manga, Leônidas, Carlos Roberto, Rogério, Roberto, Gérson, Jairzinho e Paulo César formavam um timaço. Era duro voltar para casa de cabeça inchada, enfrentando uma barca da STBG lotada e aturando um bando de botafoguenses irritantes.

Aliás, “Cri-Cri” (sinônimo de chato) era o personagem do Botafogo criado por Henfil. O genial cartunista publicava tirinhas de humor nos jornais esportivos naqueles anos sobre o comportamento dos torcedores. Tinha um representante para cada time carioca: o vascaíno “Bacalhau”, o “Pó-de-arroz” tricolor, o “Gato Pingado” americano, e o “Urubu” flamenguista. Rubro-Negro declarado, Henfil conseguiu, com fino humor, instituir a ave urubu como símbolo da nação, transformando em orgulho toda a carga pejorativa e preconceituosa que a palavra carregava – sinônimo de negro, favelado, comedor de carniça.

A partir de meados dos anos 70, os ventos começaram a soprar a nosso favor. Surgiram jogadores de altíssima qualidade, formou-se a Frente Ampla pelo Flamengo, liderada por Márcio Braga, que passou a gerir o clube com um pouco mais de profissionalismo. Mais tarde, como todos sabem, seríamos campeões do mundo.

Era (e sou) um grande admirador da geração de Zico e Cia. Durante muitos anos, aquela equipe espetacular, de toque rápido e refinado, deixava os flamenguistas em estado de êxtase e os torcedores adversários atônitos. Mas nessa altura da vida, o futebol já não era a prioridade absoluta entre as minhas preocupações. Por isso, costumo dizer que faço parte da geração rubro-negra dos sem-ídolos.


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LUIZ CARLOS CASCON, jornalista há mais de 30 anos, primeiro como repórter e depois como chefe de reportagem, só trabalhou em editoria esportiva em situações excepcionais, como em cobertura de Copas do Mundo. Mas sempre esteve ligado no mundo da bola. É rubro-negro desde 1953. 

Garotada honra condomínio Ubá Floresta

por André Mendonça

Fundado por jovens amigos, moradores de um condomínio, o Ubá Floresta Futebol Clube é um dos muitos times de pelada de Niterói. Naquela época, em 2007, como os jogadores eram muito jovens, não levaram nada a sério e temiam se machucar nos campeonatos, preferiam os amistosos, sem compromisso algum. 

No segundo semestre de 2015, no entanto, os amigos, agora na faixa dos 20 anos, se reuniram novamente e decidiram ressuscitar o talentoso time. Dessa vez, a brincadeira ficou mais séria. A equipe arrecadou mais de R$ 1 mil de patrocínio para pagar a confecção de uniformes e a inscrição no campeonato. Mesmo assim, os jogadores tiveram que desembolsar “algum” para fechar as despesas.

Um dos apoiadores, o “Espeto & Cia” é um bar próximo ao condomínio, onde a rapaziada costuma se reunir depois dos jogos para a famosa resenha. O mais curioso é que o apoio financeiro dado pelo dono é inferior ao que a turma costuma gastar quando frequenta o bar. Mas está valendo, afinal toda contribuição era bem-vinda, os jogadores aceitaram e a marca foi estampada nas costas das camisas dos atletas.

Disputando o primeiro torneio desde que voltaram a atuar, os garotos do Ubá Floresta Futebol Clube apresentaram um futebol de gente grande e, de equipe desconhecida, passou a ser favorita ao título. Não deu outra. Com oito vitórias em oito jogos, o time se tornou campeão da Real Copa e garantiu vaga para a disputa da Copa dos Campeões, que será realizada no início de 2016. 

Na premiação, um fato curioso. O número 1 do Ubá, que apesar de suas boas defesas não costuma passar muita segurança aos companheiros, por conta de sua miopia, ganhou o prêmio de melhor goleiro do torneio. A conquista foi motivo de muita comemoração e também de muita zoação. Mais tarde, graças à criatividade dos amigos, o prêmio passou a ser chamado de “Troféu Quem Diria”. 

Em ascensão, o futebol society, que é jogado com sete atletas para cada lado, é um dos esportes que mais cresce no país. Niterói desponta nesse cenário como o berço do futebol society nacional. Vale destacar que, nos últimos anos, a cidade foi sede de importantes campeonatos profissionais, como carioca, brasileiro e a Liga das Américas.


André Mendonça é aluno de jornalismo da PUC e calouro do Museu da Pelada. Rubro-negro de coração, não vive longe da bola e é presença garantida na resenha dos peladeiros, principalmente no aconchego dos botecos.

Jogo a favor do meio ambiente

::: GERAL ::::
por Pedro Trengrouse

Todo o arranjo produtivo do esporte nacional precisa assumir a responsabilidade de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para melhorar concretamente a vida dos brasileiros

Enquanto o Brasil se recupera da última Copa do Mundo, preparando-se para receber os próximos Jogos Olímpicos, a bacia hidrográfica mais importante da Região Sudeste é vítima da maior tragédia ambiental da história do país. Milhões de pessoas que vivem às margens do Rio Doce sofrem a falta d’água e sua contaminação por metais pesados pode gerar efeitos nocivos imprevisíveis. A queda da atividade econômica em mais de 230 municípios, muitos deles iminentemente agrícolas, tende a acentuar bastante a atual tendência de desemprego no país.

Competições esportivas transformaram-se em eventos de entretenimento, com cada vez mais recursos e enorme capacidade de comunicação. Todo arranjo produtivo do esporte nacional precisa assumir a responsabilidade de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para melhorar concretamente a vida dos brasileiros.

A Organização das Nações Unidas (ONU) há algum tempo preconiza que o esporte é um poderoso instrumento para o desenvolvimento humano, econômico e social. Desde 1994, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) reconhece o potencial de atletas como embaixadores de causas ambientais e defende que o esporte tem o poder de mobilizar pessoas em torno de objetivos comuns em prol do meio ambiente. O Brasil tem a responsabilidade de cuidar de 12% da água doce e da maior biodiversidade do planeta, com 20% de todas as espécies da Terra espalhadas por biomas como, por exemplo, a Mata Atlântica, o Cerrado, a Floresta Amazônica (a maior floresta tropical do mundo) e o Pantanal, a maior planície inundável. Deveria ser impossível imaginar eventos esportivos no país dissociados de questões ambientais.

Em 2006, na Alemanha, houve um programa na Copa chamado Gol Verde, para compensar seu impacto ambiental, promovendo o uso responsável de recursos hídricos, o reaproveitamento e a reciclagem de materiais, o transporte favorável ao meio ambiente e o uso eficiente de energia. Em 2014, no Brasil, como pensar no meio ambiente se nem as obras prometidas ficaram prontas? Em 2000, um ícone dos Jogos Olímpicos de Sydney foi a recuperação de Homebush Bay, uma área de depósito de lixo tóxico que foi restaurada para ser o Parque Olímpico. Por aqui, os Jogos Olímpicos de 2016 sequer cumpriram a promessa de despoluição da Baía de Guanabara.

O meio ambiente não pode mais ficar em segundo plano. O esporte tem tudo para ser decisivo na consciência ambiental e na promoção de ações comunitárias. Por que não começar por ações em favor de vítimas desta tragédia e estímulo constante a iniciativas de recuperação das bacias hidrográficas, como a que vem sendo implementada pelo Instituto Terra há tempo no próprio Rio Doce?

Enquanto nada for feito, esportistas podem ser comparados a Maria Antonieta, achando que a fome do povo se resolve com brioches, e os Jogos Olímpicos de 2016, ao Baile da Ilha Fiscal, financiado com dinheiro que deveria socorrer flagelados da seca.


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Pedro Trengrouse é Advogado, Professor de Direito Desportivo da FGV e foi Professor Visitante da Harvard Law School. 

Bacharel em Direito pela PUC-Rio, com monografia sobre Princípios de Direito Desportivo, publicada pelo Instituto Brasileiro de Direito Desportivo.

Mestre em Humanities, Management and Law of Sports – FIFA Master, melhor pós-graduação do mundo no ranking da Sportbusiness. Sua dissertação deu origem ao departamento de responsabilidade social da FIFA.

Foi Vice-Presidente Jurídico da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, Assessor Especial da Presidência do Clube de Regatas do Flamengo, Membro da Comissão Jurídica do Clube dos 13, Professor Convidado da SDA Bocconi, FIFA Master, e Consultor da ONU para questões legislativas do desporto, em especial referentes à Copa do Mundo 2014. 

É Membro da Comissão de Estudos Jurídicos do Conselho Nacional do Esporte e da Comissão de Juristas do Senado Federal responsável por elaborar Anteprojeto de Lei Geral do Esporte, Vice Presidente Jurídico do Conselho Empresarial de Desenvolvimento do Esporte da Associação Comercial do Rio de Janeiro e Coordenador Acadêmico do Curso de Gestão, Marketing e Direito no Esporte FIFA/CIES/FGV.

O RENASCIMENTO DO CANTUSCA

Toca o telefone. Do outro lado, um amigo do Pugliese (chefe que me ensinou muito do que sei hoje, he, he, he) me convidando para uma reunião. Pergunto qual seria a pauta. A resposta: queremos resgatar o futebol do Canto do Rio e pensamos em você para o projeto. Na mesma hora passou um filme em minha mente. O Canto do Rio, Cantusca para os íntimos? Aquele clube que sempre esteve nas histórias contadas pelos meus avós, depois pelos meus pais? Aquele clube onde disputei vários Jogos Estudantis de Niterói? Aquele clube que revelou Gérson, o Canhotinha de Ouro, e tantos outros craques? Topei na hora! Todo niteroiense se orgulha do Canto do Rio e acho que qualquer um adoraria estar em meu lugar. No sábado, dia 14, o Canto do Rio Foot-Ball Club completou 102 anos. Foram programados vários eventos comemorativos, entre eles torneio de futebol de salão entre os sócios, feijoada e um baile de gala. Mas o mais importante aconteceu nesse último domingo, dia 22, com homenagens à várias celebridades esportivas niteroienses, entre elas, Roberto Miranda, campeão da copa de 70, Marcelo Ferreira, bicampeão olímpico de vela, e Bruno Souza, número 1 de nosso handebol e secretário municipal de esporte e lazer. Até o prefeito Rodrigo Neves apareceu para distribuir as camisas retrô, que foram lançadas, na lojinha nova! Ficaram lindas e vão virar moda! Custam R$ 89,90. Claro, já comprei a minha! Nesse trabalho de recuperação, vasculhamos o acervo e, por isso, pensamos em procurar o Museu da Pelada. Queríamos contar nossa descoberta! Achamos, em frangalhos _ mas já mandamos restaurar _  o troféu do Torneio Início de 1953, título mais importante do clube. Desculpa Pugliese, mas o Canto do Rio venceu o Vasco por 3 x 0 na final, há! há! há! Também achamos uma cruz de Malta dada pelo mesmo Vasco ao Canto do Rio em homenagem à inauguração do Caio Martins, estádio criado para o Canto do Rio, em 1941, que hoje voltou a treinar lá. Isso! Vale lembrar que o Cantusca está com um projeto de reestruturação do futebol e deve retornar ao Campeonato Carioca Série C, em 2017!!!! O objetivo é ano que vem começarmos a disputar os estaduais pelas categorias de base. Essa era a notícia que nós, amantes do futebol, gostaríamos de dividir com o Museu da Pelada!


Henrique Maranhão é jornalista, sambista e flamenguista. Ficou conhecido como o Xerife do Maraca, quando trabalhou na Federação de Futebol. Dono de uma marcação implacável, tinha uma relação de amor e ódio com os repórteres de campo. Pai do Arthur (nome de rei), abandonou os gramados em 2011, mas volta e meia ainda dá seus carrinhos pelas peladas da vida.

RECEITA DE FUTEBOL QUE VEM LÁ DO CEARÁ

:::: GERAL, por Nando Antunes

BANDEIRA DO CEARÁ :::: O Ceará está de parabéns porque além de nos passar as receitas maravilhosas de sua culinária, agora também nos dá, de "mão beijada", uma receita otimista do velho e bom futebol brasileiro.

BANDEIRA DO CEARÁ :::: O Ceará está de parabéns porque além de nos passar as receitas maravilhosas de sua culinária, agora também nos dá, de "mão beijada", uma receita otimista do velho e bom futebol brasileiro.

No final de setembro, participei de palestras em algumas cidades do Ceará, na companhia sempre prazerosa do competente amigo Rondinelli, nosso deus da raça, e de Francisco Ribeiro, grande incentivador do futebol interiorano daquele estado. Percorremos algumas cidades serranas e o nosso ponto de partida era sempre na cidade de Reriutaba. Ali, além de palestras para atletas mirins, entregamos os troféus de campeões e vice-campeões amadores de Reriutaba. É impressionante, mas alguns jogos, à tarde, num dia útil da semana, lotam os estádios. No dia seguinte, fomos a Guaraciaba do Norte, localizada no alto da serra, a 900 metros de altitude. Participamos da solenidade de fundação da liga independente de futebol da cidade, com representantes de mais de 50 clubes. Ao lado do prefeito da cidade tivemos o prazer de ver o presidente de cada clube recebendo o documento legal, com o seu devido CNPJ. Fomos também a Croatá, São Benedito, Ypu e Cariré. Em todas as regiões, fomos muito bem recebidos e ficamos impressionados com a organização crescente no futebol amador do Ceará. Sem dúvida, um caminho a ser seguido para melhorar a nova estrutura de nosso futebol e sair do fundo do poço.

Nestas cidades que citamos acima, a criação da liga independente foi uma grande sacada. Em reriutaba participam do campeonato anual 24 clubes na série A e 24 clubes na série B. Em Guaraciaba do Norte, esse número é superior. Em Ypu, Cariré e São Benedito, a mesma coisa. Nestas seis cidades, se somados, são mais de 340 clubes, todos muito bem estruturados e amadores. Ora, como o nosso país tem mais de 5.000 municípios, pode-se imaginar a imensa quantidade de clubes disputando competições organizadas por ligas independentes e que não precisariam se curvar às federações e muito menos à CBF. Seriam dezenas de milhares de clubes por este Brasilzão, em campeonatos municipais. Com certeza, daí começaria a despontar futuras promessas para o nosso "caidinho" futebol brasileiro.

Receita simples que os municípios do Ceará estão passando para os demais municípios brasileiros. Isto não é uma ideia, mas uma realidade e deve ser copiada.

Fomos felizes testemunhas desta nova emancipação, tão simples e muito motivadora de jovens em seus respectivos municípios. O interior do Ceará está de parabéns porque além de nos passar as receitas maravilhosas de sua culinária, agora também nos dá, de "mão beijada", uma receita otimista do velho e bom futebol brasileiro já desgarrado do que há de pior no futebol: a perpetuação de falsos donos do futebol. Que outros municípios usem esta receita, simples e eficiente.


Nando Antunes, Quintino na veia, é o irmão de Zico, responsável pelo arquivo da família, carioca-cearense, primeiro jogador anistiado do Brasil e autor do livro "clube dos vitalícios".

A trilha sonora ainda é nossa!

:::: GERAL, por José Roberto Padilha

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Nossa dinastia esportiva está pagando um preço alto diante da tecnologia. Como levar meu neto para jogar bola, e dar seguimento a saga iniciada pelo seu avô, se o Playstation conseguiu organizar uma partida de futebol, com todos os requintes e emoção, sem que saíssem do quarto com ar condicionado? Quando eles, Eduardo e Felipe, decidiram qual seriam os seus presentes do Dia das Crianças (tamanha as suas personalidades e sabedoria, definem logo suas prioridades, deixando de ficar à mercê de um par de meias da titia, aquela cueca titular da vovó) já tomei um susto: PES 2016, da Playstation, a ultima geração do futebol padrão FIFA. Minha primeira reação seria vender o carro, mas minha filha acalmou-me dizendo que era apenas uma fita do sonho de consumo deles, já adquirido ano passado em 12 meses sem juros. Na véspera do dia das crianças, fui até lá entregar o presente e assistir a partida inicial com eles. Quem sabe poderia ajudar com alguma intervenção esportiva?

Em dois minutos instalaram o jogo, escolheram campeonatos ao redor do mundo e, entre milhares de equipes, o clássico escolhido foi Argentina x Alemanha. São os dois primeiros do ranking da FIFA e como poderia sugerir um Fla x Flu? Tal era a nitidez da imagem, a semelhança dos jogadores e a perfeição com que subtraíram gestos, características individuais de cada um, que já estava pronto a jogar a toalha. O que poderia contribuir uma velha raposa da bola se a Sony já criara em laboratórios o que levamos uma vida dento e foradas quatro linhas para conhecer?

Meio sem graça, saia de fininho pela porta carregando uma frustração esportiva acumulada, que nem um minuto foi por eles notada, reforçada pela minha total incapacidade de entender os fundamentos daquels manetes que dominavam como se fossem a extensão dos seus dedos, com botões que chutavam, o outro que dominava a bola e aquele maior que concluía em gol. De repente, uma luz no túnel acendeu naquele gramado digital quando foi iniciada a partida. “Está valendo!!”, gritou o narrador da partida. Parei diante da porta do quarto e retornei: seria mesmo a voz de Silvio Luis, um narrador esportivo da minha época? Foi aí que o chute da Argentina do Felipe acertou a trave da Alemanha do Eduardo e a telinha soltou a mais bela das sinfonias da bola: “No pau!!!” E repetiu: No pau!!!

Estava zero a zero e Silvio Luiz traduzia assim o placar: “Ninguém é de ninguém!!” Meus netos notaram então minha presença e, em silêncio, recorreram a ajuda de um Zé Tradutor por que o Google Tradutor não reconhecia esta gíria. De nada valeria. Era Cristiano Ronaldo plastificadoque preparava o chute, mas era “Espeta, meu filho” que ecoava conservando as nossas raízes. Quando acabou o jogo e o time do Edu perdeu, ele, cabisbaixo, perguntou: o que significava “a vaca ter ido pro brejo com badalo e tudo”!  Expliquei que era a tradução de uma derrota de mentirinha para uma narração de uma vitória de um jogo de verdade. Mal pode reclamar com o irmão por um gol em impedimento, porque a narração insistia em dizer que o Messi estava na banheira. Mas, o que seria estar um atacante na banheira?

Neste dia das crianças, colocaram dentro do meu presente todo o avanço digital do mundo, mas preservaram a voz que começou comigo num campo de terra batida. Deram um banho de loja virtual no futebol, mas deixaram-lhe o perfume da várzea. De lá para os estádios de futebol, foi traduzida uma linguagem única, peculiar que nem a Sony, ou o padrão FIFA, ousaram ocultar. Obrigado Silvio Luis, Waldir Amaral, Jorge Cury, Luciano do Valle, Januário de Oliveira, Mario Vianna, Osmar Santos e José Carlos Araújo, entre outros narradores brasileiros, por sua inimitável arte. E “Ripa na Chulipa”, “Pimba na Gorducinha”, que “Voltei!” para casa todo feliz “Nas águas da galera!”.


JOSÉ ROBERTO PADILHA entortou muito lateral na época da Máquina Tricolor, depois formou-se em Jornalismo e, agora, nos brinda em outro campo, o literário. É o autor de “Arquibaldo, o saudosista” e “Crônica de um fracasso anunciado”


 
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