CRAQUE DAS LENTES

por André Mendonça

No último sábado, dia 5, aconteceu a entrega da premiação do I Concurso de Fotografia Carlos Lacerda, em comemoração aos 50 anos da inauguração do Aterro do Flamengo. Palco de inesquecíveis e históricas peladas do Rio de Janeiro, o clima do parque foi muito bem captado por nosso parceirão Milton Montenegro. Com uma imagem magnífica, por trás da rede de um dos gols, o fotógrafo conquistou mais um prêmio em sua vitoriosa carreira.

De acordo com Milton, que precisou levar um segurança para proteger-se da violência, uma das principais queixas dos boleiros, além da falta de banheiros públicos, a foto não foi pensada com antecedência. “Foi coisa de momento. Eu fiz vários registros e andando por lá acabei chegando aos campos e fazendo algumas fotos”, explicou, sem esconder a felicidade pela conquista. E exaltou o momento da fotografia. “Cada vez que acontece um evento desses, fico contente porque é mais um dado de afirmação de nosso mercado.”

Apaixonado pela arte desde os sete anos, quando foi presenteado pela avó com uma câmera “caixote”, Milton morou em Londres, na década de 70, para estudar cinema. Na capital inglesa, ficou fascinado com os trabalhos de grandes mestres da fotografia e, um ano depois, voltou para o Brasil decidido a viver daquilo que o encantava desde criança.

No frio londrino, uma decepção. Torcedor do Fluminense, o estudante, na época, lia as notícias do Brasil com três dias de atraso e, por isso, não conseguiu acompanhar como gostaria a Máquina Tricolor, trituradora de adversários. Comandado por Rivellino, que vivia grande fase na carreira, o timaço encantava os amantes do futebol arte.  “Naquela época não tinha internet. Vi muito pouco tempo o Rivellino. Só fui compensar isso nos anos 80, com o Casal 20, Washington e Assis”, resignou-se.

O tricolor chegou a jogar algumas peladas nos parques ingleses. Mas, assim como muitos jogadores brasileiros, teve dificuldades e, por isso, acabou se afastando dos gramados. “Armaram uma pelada, mas começou no inverno e eu não consegui me adaptar. Jogar de calça era muito estranho”, revelou.

Sobre seu desempenho em campo, assim como Fio Maravilha, Milton teve humildade em gol. “Nunca fui um craque, mas um artilheiro esforçado”, assumiu. Com um “bico” potente e preciso, era um dos goleadores da pelada que jogava aos sábados na quadra da PUC, no Rio de Janeiro. Segundo ele, era um grupo bacana cheio de figuras folclóricas. Uma delas, o cantor Toni Platão, também tricolor, que entrega o apelido do amigo: Milton Bicanca.

Há pelo menos 10 anos, por conta das dores no joelho, o camisa 9 foi obrigado a pendurar as chuteiras. A pelada, no entanto, ainda não foi esquecida. “Eu jogo futebol só nos sonhos. Sonho muito com futebol, com as jogadas. Estou com 61 anos, meu joelho se aposentou antes de mim”, brincou. De acordo com ele, o impacto provocado pelo chão duro do futebol de salão levou muitos peladeiros para o  estaleiro precocemente. 

Frequentador assíduo do Maracanã, o craque das lentes assumiu que o saudosismo o afastou do estádio. “Ainda não tive coragem de ver a tal arena. Tenho medo de sentir a diferença. Vou adiando essa ida para não ter esse baque, essa perda do um dia maior do mundo. Mas eu volto, prometo, deixa o Fluminense melhorar um pouquinho.”


Milton Montenegro, fotógrafo, carioca, tricolor, ex-peladeiro, foi atacante esforçado desde o absurdo futebol jogado com pedrinhas no pátio de recreio do Colégio de Aplicação.