O ESPELHO

texto: Sergio Lobo e André Mendonça | fotos: Marcelo Tabach | vídeo: Rodrigo Cabral

 

A semelhança com o pai salta aos olhos. A posição da mão enquanto conduz a bola e os dribles curtos, rápidos, são inconfundíveis. A equipe do Museu da Pelada foi conferir o treino de futsal de Lucas Loureiro, o filho mais velho do craque Felipe, eterno ídolo do Vasco. Integrante da equipe sub-11 do Bradesco, Lucas, que não demorou muito a ser reconhecido por nossa equipe, sonha em seguir os passos do paizão. Sonho compartilhado pelo craque, que acompanha o filho em todos os treinos e orienta o jovem passando um pouco de sua experiência.

Eu ouço mais o meu pai do que o treinador.
— Lucas

– Eu ouço mais o meu pai do que o treinador – revelou a promessa.

A declaração não surpreende, afinal o pai do moleque foi um dos jogadores mais habilidosos que já surgiu no futebol brasileiro. Com uma canhotinha endiabrada, Felipe entortava os adversários e fazia muitos marcadores terem pesadelos. A facilidade do craque em driblar era tanta, que alguns chegaram a fazer comparações com ninguém menos do que Garrincha.

Conhecido por todos, o drible clássico aplicado por Felipe raramente era interceptado pelos defensores. O motivo era simples: a habilidade e a agilidade adquiridas nos tempos de futsal faziam o craque pensar muito mais rápido do que os marcadores. Resumindo: o marcador sabia qual drible seria dado e mesmo assim não conseguia evitar. Felipe reconhece que o futebol mudou muito de sua época para os dias atuais, mas ainda vê semelhanças.

Na minha época, o futsal não era tão corrido como hoje, mas ainda acho que é um excelente caminho para quem quer ser jogador.
— Felipe

– Hoje em dia, os jogadores são muito mais exigidos. Na minha época, o futsal não era tão corrido como hoje, mas ainda acho que é um excelente caminho para quem quer ser jogador. Além de ser importante para a parte técnica e tática do jogador, dá muita agilidade.

Embora jovem, Lucas tem plena consciência da importância do futebol de salão para a formação do jogador. Diferente da grande maioria dos garotos da sua idade, que preferem jogar em campos maiores, o menino se sente bem mesmo é nas quadras.

Além dos trejeitos do pai, Lucas também atua como ala-esquerda e, por vontade própria, escolheu vestir a camisa número seis. Vale lembrar que o número foi muito bem representado por Felipe, principalmente quando o craque surgiu na equipe do Vasco, em 1996, como lateral-esquerdo. Com exibições convincentes, Felipe não demorou muito a cair nas graças da torcida vascaína e despertar o interesse de clubes europeus. Apesar de todas as semelhanças já citadas, uma diferença chama a atenção: Lucas é destro, mas nem por isso menos habilidoso.

Ele tem meus trejeitos. Se ele vai jogar igual a mim, só Deus sabe.
— Felipe

– Ele tem meus trejeitos. Se ele vai jogar igual a mim, só Deus sabe. Ele leva jeito, mas é um caminho muito difícil. Eu explico para ele que na minha época de futsal somente eu e Pedrinho tivemos sucesso e conseguimos chegar ao profissional.

Felipe garante que não coloca qualquer tipo de pressão no filho e que a vontade de se tornar jogador de futebol partiu do próprio garoto. Segundo o ex-jogador, o importante é a criança se divertir jogando futebol. Para fazer o que mais gosta, no entanto, Lucas precisa fazer por onde.

A educação e o estudo estão sempre em primeiro lugar e depois vem o lazer, que é o futebol!
— Felipe

– O estudo é a prioridade. Se tiver mal na escola, a gente tira o futebol. Meu pai fazia isso comigo e deu certo. A educação e o estudo estão sempre em primeiro lugar e depois vem o lazer, que é o futebol! – afirmou o ex-jogador.

Aposentado dos gramados desde 2014, Felipe não consegue ficar longe da bola. Aos 38 anos, o craque busca uma chance para ser treinador e joga futevôlei diariamente com os amigos, na Praia da Barra, enquanto é observado por Lucas, que só não entra em quadra por um motivo:

Eu sei jogar, mas meu pai ainda não me liberou para brincar com eles.
— Lucas

– Eu sei jogar, mas meu pai ainda não me liberou para brincar com eles – resmungou.

Se o Lucas vai se tornar um jogador profissional ninguém sabe, mas se jogar metade do que o pai jogou...