ELÓI SAIU DOS MEUS SONHOS DE MENINO PARA ABRAÇAR-ME

entrevista: Sergio Pugliese | texto: André Felipe de Lima | fotos e vídeo: Daniel Planel 

Francisco Chagas Eloi, o querido Elói, foi uma das principais referências de craque que tive na adolescência. Seria facilmente, hoje em dia, um dos melhores jogadores do planeta, e falo isso com inteira e destemida convicção. Foi um meia magistral, de toques e dribles geniais. Lançamentos, então, Deus me livre... era um assombro.

Lá pelos meus 10 ou 11 anos de idade, tive um botão galalite “ratinho” (por ser bem miúdo) que batizei de “Elói”. Era um dos meus preferidos. A base era vermelha e a parte superior dourada, em madrepérola. Uma beleza. Dourada como os indefectíveis cachos parafinados do Elói. Aliás, que meio de campo ele formou no Botafogo, em 1985, ao lado dos também parafinados Alemão e Berg. Imagine estes três jogando juntos hoje. Haveria meia de cancha melhor que essa? Duvido. E que gol foi aquele que Elói fez no Vasco, em 1985? Minha Mãe do Céu, o cara amaciou a pelota no peito, e sem deixá-la cair ajeitou-a no ar para chutá-la contra o gol do pobre arqueiro vascaíno. Fogão 3 a 1, dois do Elói e um do Alemão.

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Agora, imagine minha emoção por estar lado a lado com um dos caras que mais admirei no futebol quando garoto? Isso aconteceu um dia desses, na praia do Recreio, no Rio. Acompanhado dos amigos Sergio Pugliese e Daniel Planel, estávamos os três sob um sol de arder o quengo, mas extasiados porque batemos um papo com o Elói. Foi demais.

Quantas histórias o craque contou pra gente, algumas hilariantes. Da pá virada. E mais: fomos privilegiados por vê-lo disputando uma partida de futevôlei. Vá jogar assim lá na casa do cacete! O cara faz da bola o que bem entende.

Elói, que nasceu no dia 1º de fevereiro de 1955, em Andradina, interior de São Paulo, está hoje com a vida mansa. Fez da carreira um respeitável cartão de visita para a posteridade. Quem conhece seu retrospecto de craque sabe que está diante de um camarada que conhece futebol de trás para frente.

Nos tempos de jogador, pode-se de dizer que foi um verdadeiro andarilho. Rodou por clubes do Brasil e do exterior. Em São Paulo, arrebentou jogando pelo Juventus, Portuguesa de Desportos (quem não se lembra da figurinha do Futebol Cards...), Inter de Limeira e Santos. Mas foi no futebol carioca onde mais se destacou.

Vestindo o manto rubro do meu, do nosso América, Elói conquistou um dos títulos mais emblemáticos troféus da carreira dele: o de Campeão dos Campeões, em 1982, pra cima do Guarani, na final. Naquele mesmo ano, ele foi fundamental para a conquista da primeira edição da Taça Rio, o segundo turno do campeonato carioca. O América não levou o campeonato estadual, mas Elói entrou para a história do clube como um de seus maiores ídolos.

O meia fez sucesso também com a camisa do Ceará ao participar da inesquecível campanha do vice-campeonato da Copa do Brasil, em 1994. Os cearenses acabaram derrotados na decisão pelo o Grêmio, de Luiz Felipe Scolari. O “Vovô” fez, porém, uma grande campanha eliminando pesos pesados do futebol brasileiro, como o todo poderoso Palmeiras bancado pela Parmalat e o Internacional.

Elói também perambulou no futebol italiano, de 1983 a 1985, e no de Portugal, de 1985 a 1987. No Genoa, se destacou, mas poderia ter sido mais efetivo por lá se não fossem as “panelinhas” montadas pelos jogadores nativos. A inveja, definitivamente, é uma merda. No Porto, a “panelinha” se formou, mas não foi tão efetiva quanto a dos italianos.

Pelo clube lusitano, Elói foi campeão foi campeão nacional, venceu uma Supertaça de Portugal e participou da campanha até à final da Taça dos Campeões Europeus. Poderia ter disputado a final da competição máxima do Velho Continente, mas, inexplicavelmente, Elói, que era respeitado pelo treinador Artur Jorge, rescindiu o contrato com o Porto. Mesmo assim, foi um jogador decisivo para que o clube português conquistasse o campeonato europeu. Era um time extraordinário que, meses depois, seria campeão mundial interclubes após derrota de 2 a 1 o Penãrol. Elói, que passou rapidamente pelo também português Boavista, viu de longe a festa dos ex-companheiros do Porto.

Mas a vida é assim mesmo. Um dia a gente acerta; no outro quebra a cabeça; levanta-se, e segue adiante. Mas com o Elói: o cara sempre se levantou com uma elegância e luz que só os craques ostentam. Um ídolo do América... e do meu time de botão, onde formou um quarteto avassalador com “Roberto Dinamite”, “Zico” e “Sócrates”. Que sonho lindo de menino. Mas sonhos podem se tornar realidade. Certo dia, o meu craque de botão surgiu diante de mim e abraçou-me.