A FUGA DE CAFURINGA

Armando Pittigliani e Cafuringa

Armando Pittigliani e Cafuringa

Volta e meia me perguntam se as histórias contadas aqui realmente são verdadeiras. Difícil acreditar, mas são!!!! Por isso, fazemos questão de fotografar os personagens, ouvir testemunhas e confirmar com até três peladeiros, como se isso fosse garantia de alguma coisa, mas... Se não me cercasse desses “cuidados” me chamariam de mentiroso quando contei, por exemplo, a história de um boi que despencou de um morro, caiu dentro de um campo e virou churrasco. Não é Sérgio Sapo??!!! Aí, conversando, outro dia, com o parceirão Armando Pittigliani, o Pitti, no Clube dos Trinta, em São Conrado, escuto uma pérola envolvendo o saudoso Cafuringa, ídolo tricolor, e, claro, duvido. Para quê??? Pitti abriu seu baú abarrotado de preciosidades e calou o meu bico.

– É verdade, o Cafuringa forjou uma dor de barriga para sair no intervalo de um jogo do Fluminense, no Maracanã, para não perder uma pelada, na Tijuca!!! – garantiu.

Era uma quarta-feira, 31 de março de 1971, e Pitti prometera levar um time para jogar apostado contra o Country Clube Tijuca. Alguns dia antes, como de hábito, recebeu uma ligação de Cafuringa, fiel companheiro de peladas, para saber como estava a programação futebolística da semana. Pitti falou que tinha duas notícias, uma boa e outra má. O folclórico ponta preferiu ouvir a boa primeiro. Tinha jogo!!!! E a má? Seria quarta-feira, dia de Fluminense x Campo Grande.

Surpreendentemente, Cafuringa disse que daria um jeito e falou para Pitti esperá-lo às 22h30, na estátua do Bellini.

– Não contrariei, afinal seria o nosso maior reforço – recordou Pitti, que chegou bem antes da hora ao local marcado.

Cafuringa e Simonal.

Cafuringa e Simonal.

Pitti, na época com 36 anos, era diretor do Departamento de Serviços Criativos da gravadora Phonogram (depois Polygram e, hoje, Universal) e organizava peladas memoráveis!!! Jogava, entre outros campinhos, no Piraquê, Caiçaras, Clube dos Trinta, Country Clube da Tijuca e Polytheama. Seus parceiros mais constantes eram Amaral, Rochinha, Mauro Laviola, Zé Britto, Amaury, ex-goleiro do Botafogo, Jorge Bem, Sylvio Cesar, Chico Buarque, Betinho Cantor, Paulinho Tapajós, Ronaldo, do Golden Boys, o quarteto do MPB4, Paulinho da Viola, Erlon Chaves, Zeca do Trombone, o saudoso Miéle, João Carlos Barroso, Nuno Leal Maia, Francisco Cuoco, Arnaud Rodrigues, Dary Reis e Reynaldo Gonzaga.

– Fui com os amigos Sebastião Amaral e o goleiro Três Com Goma, integrante do Trio Nordestino, e ficamos na arquibancada, ligados no meu inseparável radinho de pilha – contou.

O Fluzão, do presidente Francisco Laport, disputava a liderança e precisava vencer para continuar na cola do Botafogo. O time era bom! Félix, Oliveira, Denilson, Galhardo, Assis e Marco Antônio, Cafuringa, Didi, Flávio, Ivair e Lula. Jorge Cury, pela Rádio Nacional, e Waldyr Amaral, pela Globo, arrasavam nas transmissões e fizeram o estádio explodir narrando os dribles de Cafuringa e o cruzamento certeiro para a cabeçada do príncipe Ivair abrir o placar. Alguns minutos depois, para espanto geral, Cafuringa, o ponta com fama de não fazer gols, pegou um rebote na área e marcou o segundo. Embora o atacante tenha sido campeão carioca pelo Fluminense quatro vezes, nunca brigou pela artilharia, mas consagrou vários centroavantes, como Ivair e Flávio.

– Quando terminou o primeiro tempo eram dez horas e duvidei que ele não voltasse para o segundo tempo.

A ideia era ver o início do segundo tempo e correr para o Country Clube Tijuca. Porém, às 22h15, o repórter de campo interrompeu os comentários de Ruy Porto para informar que Wilton substituiria Cafuringa. Ninguém tiraria Cafuringa naquele dia. A torcida chiou!!!! Mas entendeu quando veio a explicação: “desarranjo intestinal, passou o intervalo todo na privada”, informou Kleber Leite. Pitti, Sebastião e Três Com Goma foram os únicos a comemorar. Quem poderia imaginar que aqueles três malucos correndo desesperados em direção à Estátua do Bellini estavam indo resgatar Cafuringa para uma pelada????

– Foi mágico! Cafuringa chegou e nos abraçamos como crianças – comentou, feliz da vida.

O time do Flu, campeão naquele ano.

O time do Flu, campeão naquele ano.

No clube, os tricolores que ouviam a partida não entenderam nada!!! Mas Cafuringa não estava jogando??? O craque, dedo indicador cruzando a boca, pediu silêncio, “chiii, não espalha”. Gargalhada geral!!! No Maracanã, final 2 x 1 e o Fluzão campeão naquele ano. No Tijuca, o time do Pitti maltratou o adversário, 8 x 3, e o ponta fujão emplacou três. Ali, na pelada, braços dados com a irreverência, Cafu dava as cartas, era o grande artilheiro!