ORIGINAL E OBRAHMA

Texto: Sergio Pugliese | Fotos: Marcelo Tabach

Os dois Obamas nasceram no dia 4, o original em agosto e o genérico em junho, “um mês antes da Independência dos Estados Unidos”, como gosta de frisar o sósia Rinaldo Gaudêncio Américo (quase América!!!). Os dois Obamas tiveram pais negros e mães brancas. Os dois Obamas não são muito íntimos de uma bola de futebol, o original prefere basquete e o genérico, atletismo. Mas no Museu não existe concorrência e tudo acaba em cerveja. Se um é Original o outro é Obrahma e fica tudo em casa!!!

– Esse é último ano “nosso” no poder, mas ainda temos um futuro brilhante pela frente – afirmou Rinaldo, motorista da Rádio Globo.

Cria de Campo Grande, Rinaldo Barack, como assina no perfil do Facebook, é constantemente chamado para eventos e até desfilou de sunga na Parada Gay. É ultra profissional e acompanha a mudança de guarda-roupa do presidente. Sabe quando mudou a gravata, os cortes de terno e cabelo. Quando sua participação é mais profissional chega a pintar o cabelo de grisalho. Virou folclore na Geral do Maracanã quando ia aos jogos de seu Mengão, de terno e com dois guarda-costas, de óculos escuros e elegantemente vestidos.

– Se tivesse o poder de um presidente ordenava que trouxessem a Geral de volta. Não custava nada criarem um espaço para esses personagens que davam vida ao Maracanã.     

Hoje tem pelada? YES WE TEM!!!
Vídeo: Guillermo Planel | Videografismo: Izabel Barreto

Vídeo: Izabel Barreto

A FUGA DE CAFURINGA

A FUGA DE CAFURINGA

Volta e meia me perguntam se as histórias contadas aqui realmente são verdadeiras. Difícil acreditar, mas são!!!! Por isso, fazemos questão de fotografar os personagens, ouvir testemunhas e confirmar com até três peladeiros, como se isso fosse garantia de alguma coisa, mas...

FAMÍLIA PELICANO

por Sergio Pugliese

É praticamente impossível recusar os convites da galera do Pelicanos Azuis, de Niterói. A rapaziada é divertida por natureza e tem o espírito sintonizado com o que buscamos, do contrário não teria nos convocado para o evento “Onze anos sem títulos, onze anos de resenhas vitoriosas”. Em 2015, venceram apenas duas partidas, uma de WO e outra de um time “estranho”, que sequer lembram o nome. Mas os atletas não se abatem e as resenhas musicais estão cada vez mais concorridas. Participamos dessa última, em Guapimirim, na casa de Márcio e Nadir, pais do maestro do meio-campo, Gabriel Figueiredo, e comprovamos: os Pelicanos são show!!!!

– Quanto mais perdemos, mais nos unimos – resumiu o showman Diogo, o Sandro Silva, acompanhado da mulher, a estrela Mariana.

Nesse ponto, os Pelicanos também fazem a diferença: as esposas e namoradas não faltam nunca.

– Só perdemos, precisamos de carinho após os jogos – explicou o zagueiro Márcio Beckerman, braços dados com Thalita.

E é um tal de Gláucia “de” Gabriel, Júlia “de” Jorginho do Cavaco, Bruna “de” Renatinho Família, Walney “de” Lidiane. Teve até Sílvia “de” Pugliese. Em Niterói, eles gostam dessa forma carinhosa “de” tratamento. Mas e a Renatinha é “de” quem? Dizem que foi tentar a sorte, afinal tem muito “pelicano” solteiro na área. O pandeirista Oirthon é um desses, um eterno apaixonado em busca da amada. O amor faz milagres!!! Não acreditam? Basta olhar para o novo Dogão, de Kaká, algumas toneladas mais magro, modelo!!!!

– Resenha sem samba, cerveja e mulher não tem vez com os Pelicanos – atestou Paulinho, o Paulinóquio, de Marina.

E é verdade! Chegamos às 10h30 e o cantor Maycon, o cozinheiro Nico, o empresário Bruno, o roupeiro massagista Felipe “Menina”, o roqueiro, agora esbelto, Tiago Guima, e Teteuresminho, da cuíca, já estavam na piscina saboreando algumas geladas. Segundo Paulinóquio foram comprados 624 latões de cerveja. Seria verdade? Como acreditar em alguém com um apelido desses?  Os que ainda dormiam eram embalados pelo som de Reinaldo, o príncipe do pagode. A música tinha tudo a ver com uma rapaziada que não se abala com derrotas: “Samba, a gente não perde o prazer de cantar e fazem tudo para silenciar a batucada dos nossos tantãs”.  

– Não existe união igual a essa – garantiu Anderson, o camisa 10.1, acompanhado de Marcela.

E se alguém podia afirmar isso, era ele. Na noite anterior envolveu-se numa confusão de trânsito e acabou preso. Na delegacia, quase se engalfinhou com um policial, mas de repente lembrou-se da resenha no dia seguinte e virou um cordeirinho, desculpou-se, partiu para o abraço e só faltou distribuir flores aos envolvidos. Final feliz! Chegou Moacir!!!! Muita moral, afinal o “pelicano” mudou-se para São Paulo e veio exclusivamente para a resenha. Também teve festa para Gun, o pai do ano, e para Gláucia por ter acertado na Megasena ao conhecer o estiloso Gabriel, tatuagem gigante nas costas de um anjo com o rosto de Zico.

– Essa confraternização é a extensão da pelada – filosofou o capitão João Canário enquanto apontava para a piscina lotada de “pelicanos”.

Resenha pegando fogo, uma dúvida de Márcio, pai de Gabriel: por que o Pelicanos Azuis perde tanto? Tudo bem que o filho dele foi o principal responsável em algumas partidas, perdendo pênaltis, sonolento, mas melhor deixar quieto. Ou o excesso de churrasco e cerveja venha deixando os craques um pouquinho, quase nada, mais pesados. Só especulação. Mas nossa equipe consultou os orixás e eles chegaram a uma interessante conclusão. O símbolo do Pelicanos, que mais parece um flamingo, lembra o íbis, ave pernalta e de pescoço longo, que batiza o pior time do mundo. Outra curiosidade é que o íbis anuncia tragédias e é sempre a primeira ave a surgir após a tempestade passar. Ou seja, depois das goleadas já chega querendo uma gelada. 

– A verdade é que com nossa rapaziada não tem chororô – afirmou Jorginho do Cavaco.

Falou e disse!!! Na resenha dos “pelicanos” só quem chora é a cuíca, de preferência nas mãos do craque Teteuresminho, que ditou o ritmo enquanto a galera fazia o coro e entoava “a amizade, nem mesmo a força do tempo irá destruir, somos verdade, nem mesmo este samba de amor pode nos resumir....”.

O TIME DO TIM

O TIM-aço feminino de O Dia, que teve como técnico o saudoso Tim Lopes, se reencontra 25 anos depois dos torneios entre jornais. | Vídeo: Guillermo Planel

O saudoso Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, o Tim Lopes, estava enroladíssimo com a entrega de mais uma divina matéria e não conseguiu comparecer ao evento promovido por suas ex atletas e companheiras de redação de O Dia, na Fiorentina, no Leme. Certamente estava levantando o perfil dos 12 apóstolos da Santa Ceia ou tentando descobrir o segredo dos anjos, mas conseguiu um tempinho e assistiu, da arquibancada celestial, o reencontro, 25 anos depois, do timaço feminino da Rua do Riachuelo, que comandou brilhantemente durante os torneios entre jornais, realizado no Mimosão, campinho nos fundos da Vila Mimosa, concorrida área de prostituição do Rio.

– O Tim Lopes era um técnico motivador, estilo Joel Santana – comparou Marluci Martins, hoje colunista de Esportes, do Extra, e a primeira a chegar.

E assim foi durante toda a noite, a “presença” de Tim celebrada a cada história, a cada brinde. A ideia de reunir as craques surgiu após Daniella Sholl, adversária do Jornal do Brasil, postar uma foto do time “jotabeniano”, no Facebook, convocando a galera para um encontro. A época era a mesma, 1991, e o torneio também. O evento aconteceu há alguns meses, na mesma Fiorentina, o que causou arrepios de rivalidade em Stellinha de Moraes, pontinha veloz, do Dia, que não só apareceu na festa do JB para colocar água no chope, como organizou a festa do Dia.

– Elas nunca nos venceram. Então nós tínhamos mais motivos para festejar – explicou a craque, última a chegar, com o maridão Alexandre Albuquerque.

É verdade, o Dia venceu todos os torneios entre jornais, nunca encontrou adversárias a altura. E olha, que a estrela Martha Esteves, grávida, na época, desfalcou o time. Mas em compensação fazia crônicas divertidas e motivacionais, guardadas até hoje por Stellinha, apelidada por ela de “Bebetinha”.

– Éramos felizes e sabíamos, mas o que importa é que o tempo passa, o tempo voa e continuamos numa boa  – resumiu Marta.

Tem razão! As “dietes” continuam em plena forma e até bateram uma bolinha _ ou um bolão _ na calçada do restaurante para delírio dos garçons. E chegaram até a arrancar alguns “fiu fius” de clientes. Martha Mendonça garantiu que mantém a forma correndo na areia fofa com tornozeleiras de 20 quilos, mas como ela é uma das criadoras do Sensacionalista, site isento de verdade, ninguém acreditou. E para surpresa geral a atacante Malu Fernandes, do Jornal do Brasil, apareceu!!!

– Reconheço a superioridade das adversárias e vim brindar com elas – explicou, repleta de humildade.

A meio-campo Rachel Vita, estilosa, esguia, praticamente um Paulo Henrique Ganso, lembrou o duelo entre os técnicos Tim Lopes, do Dia, e Oldemário Touguinhó, saudoso cronista esportivo do Jornal do Brasil. Oldemário chegou a levar as “Jobetes” para treinos noturnos, e secretos, no campo do América. Tim Lopes, liberal, autorizou até Renata Schmitt, a Juliana Paes da época, a posar fumando para a foto oficial do time.

– O Tim era objetivo e dizia ganhem e pago as cervejas. Quer combustível melhor do que esse – divertiu-se a cervejeira Marluci Martins, casada com o papa do samba Moacyr Luz.

Outra musa da Riachuelo, Renata Fraga, divertia-se mostrando a série de charges criadas em sua homenagem pelo fera Jaguar e lembrou dos áureos tempos, quando O Dia chegava a vender 1 milhão de exemplares aos domingos. Martha Esteves puxou um brinde por todas estarem ali, superando crises e os zagueiros da vida. Perguntaram pela goleira Janete e pela fotógrafa Rosane Bekierman, não Beckham, do astro inglês David Beckham. Mas o futebol ficava ali, pau a pau. Mas, surpresa, Taísa Mundy, ex produtora do Linha Direta, apareceu com Chris, o maridão americano de alma carioca. E Bruno Quintella, filho de Tim Lopes, enviou mensagem desculpando-se pela ausência. Ê resfriado chato....

– Um brinde a Tim! – convocou Martha Mendonça.

Foi mais um golaço da seleção do Dia! Tim vibrou, deu socos no ar, fez o símbolo do coraçãozinho e saiu voado para não atrasar o fechamento.



................................

Resenhas feitas por Martha Esteves na época dos torneios e nos amistosos entre louras e morenas da redação, do Dia:

LEMBRA?

:::: A PELADA COMO ELA É ::::
por Sergio Pugliese

Sergio, Guará e Wilsinho. | Foto: André Teixeira

Sergio, Guará e Wilsinho. | Foto: André Teixeira

Numa conversa com amigos psicólogos comentei sobre a criação do Museu da Pelada, esse site que, humildemente, se propõe a eternizar histórias bacanas de boleiros. Nunca imaginei que a notícia desencadearia uma sessão de análise em plena mesa de bar.

– Interessante essa iniciativa! Até me animo em escrever um artigo propondo uma discussão epistemológica para o estudo do futebol como objeto científico – dissertou Paulinho Assef ou Dr. Assef para os “analisados”.

Achei o comentário denso e, não tendo cultura suficiente para debater o tema, pedi um pastel de angu. Mas Julinho Bandeira, colega de profissão de Assef, não fugiu ao debate.

– O Museu desperta os sentimentos de afetividade e paixão, como enredo para o entendimento do futebol para além do racional e pragmático.

Isso deve ter sido lindo, pensei, mas sem universitários por perto recorri ao garçom.

– Mais uma gelada!!!!

O papo se aprofundava, intenso, recheado de psicologês. Mas meu radar captou um termo que sempre adorei ouvir: memória afetiva. Não saberia explicá-lo tecnicamente. Certamente os meus amigos cabeçudos clareariam meus pensamentos, mas, mergulhei, solitário, numa sessão de regressão etílica e me lembrei do Capri, meu primeiro campinho de futebol e onde vivi, sem qualquer sombra de dúvida, alguns dos melhores dias de minha vida. Exagero? Não, certeza!!!!

– Posso elaborar esse artigo, Pugliese? – perguntou Assef, como se eu estivesse a seu lado, deitado num divã.

O Capri merecia bem mais do que um artigo. Deveria ter sido tombado pelo Patrimônio Histórico. Era a memória afetiva de um bairro! Memória afetiva, adoro falar isso!!!! Quando entrei no Capri pela primeira vez senti uma emoção muito, mas muito, mas muito maior do que em minha estreia no Maracanã para assistir Vasco x Portuguesa. O campinho ficava, na Murtinho Nobre, em Santa Teresa, nos fundos do colégio Machado de Assis, onde estudava. Não fazia ideia de sua existência até, um dia, vários garotos entrarem correndo no pátio da escola para resgatar uma bola que caíra na área da cantina. A partir daí, eu, Luís Antônio, Paulo Roberto, Carlos Gordo, Mauro, Zezinho & Cia elegemos o Capri como nossa segunda casa. Cresci ali! Na mesa, o debate prosseguia:

– Fatores chamados não-cognitivos influenciam no desempenho da memória de maneira significativa – ensinava Julinho. 

Talvez minha memória seja seletiva porque só me lembro de momentos especiais, pelo menos os vividos no Capri. Na rua do campo, moravam dois cracaços, Orlando Bomba e Edu Tostão. Ficar sentado, sob as árvores vendo jogá-los era uma dádiva. Ali, vi os caras que conquistaram o primeiro título do Aterro, em 66, Hugo Aloy e Rony, deitarem e rolarem. Quantos tênis o explosivo Rony arremessou no telhado do Machado de Assis!!!! E Porquinho, o artilheiro Duílio, o trio Roberson, Flávio e Ruy? Seu Djalma marcando o tempo e vendo o filho Márcio encher Cesar de gols. Meu irmão Bruno, o Diabo Louro, espanando, na zaga, e meus amigos da vida toda Guará, Wilsinho, a pontinha Mônica Villaça e os saudosos Vitinho e Adãozinho. Será que isso é memória afetiva? Na verdade, o Capri foi parte da memória afetiva de um bairro inteiro.

– Você lembra de seu primeiro campo, Pugli? – perguntou Assef.

Ah, como lembro, pensei!!!! Quando anunciaram que na semana seguinte o Capri seria interditado para a construção de uma praça, anexa ao Parque das Ruínas, a resenha virou uma terapia coletiva. Aquele campo tinha um valor social além da conta!!! Vi amigos chorando e, claro, desabei também. Percebi, talvez, pela primeira vez, que a relação entre o homem e a bola ia muito além da imaginação. Talvez naquela situação se encaixasse a frase atualíssima do Assef: “entendimento do futebol para além do racional e pragmático”. Deve ser isso. Só sei que ontem fui ao Parque das Ruínas para ver a exposição do parceiro Cosme Martins. Tantos anos sem ir lá, uns 35 talvez. Encontro Guará e Wilsinho!!!! Caraca, memória afetiva perde!!!! Mas é isso, memória afetiva é um armazenamento de sensações sedimentadas, que explodem, brotam, ganham vida própria quando, por exemplo, encontramos o Guará e o Wilsinho!!! E do alto do Parque das Ruínas, coração disparado, os três olhando para o que um dia foi o Capri, Guará, conservando a pureza juvenil, abre a porteira das emoções com uma pergunta objetiva, curta, no fígado da memória: “Lembra?”.   

PLANETA DO BEM

:::: A PELADA COMO ELA É, por Sergio Pugliese

Se tem uma rapaziada que eu adoro é a do Planet Globe, capitaneada por Guaraci Valente, o Gaúcho, Cláudio Cunha, Paulinho “Meu Filho”, Heitor Martinez e Nicola Siri. Por que eu gosto deles? Por que é fácil gostar deles!!! Tudo bem que Nicola e Heitor quando entram em campo, se transformam, odeiam perder, viram outras pessoas. Mas atores vivem de se transformar em outras pessoas e nunca saberemos se aqueles semblantes de poucos amigos, dentro das quatro linhas, é real ou apenas a criação de mais um personagem. Já estive com eles em várias situações porque os atletas, além de bons de bola, praticam o futebol solidário, não nos moldes do tic tac barceloniano, com a bola passando de pé em pé, mas no sentido de amplificar campanhas do bem, arrecadar dinheiro, alimentos e roupas para salvar instituições e ajudar vítimas de violência ou catástrofes, como a de Mariana, em Minas.

–  Esse time é 100% coração – resumiu Gaúcho, o presidente.

O Planet Globe se transformou num case de sucesso na área de eventos porque não dá espaço para rivalidades e reúne no grupo atores do Globo, Record e SBT, e cantores de sertanejo, samba, rap, MPB e funk. E, juntos, todos fazem o que mais gostam: jogam bola e ajudam o próximo!!!! No aniversário de 120 anos do Flamengo, domingo passado, o Planet Globe foi desafiado para um amistoso, no Maracanã contra o máster rubro-negro, com Adílio, Andrade, Júlio César Uri Geller, Cláudio Adão & cia. Seria a preliminar do Mengão principal contra o americano Orlando, de Kaká. O Museu da Pelada foi convidado e chegou cedo para não perder nenhum detalhe, da chegada ao estádio, vestiário e entrada no, ainda, monumental Maracanã!!!

– Olha ali o Nunes e o Rondinelli – vibrou o tricolor Daniel Oliveira, videomaker de nossa equipe.

Ele tricolor e eu vascaíno. Não sei se por pegadinha, Gaúcho avisou que teríamos que vestir o manto sagrado do Mengão se quiséssemos prosseguir na cobertura. Topei porque ele é mais vascaíno do que eu e a causa era nobre. O Daniel também não correu. De cara encontrei Frederico Luz e Marcio Mac Culloch, o primeiro diretor e o segundo gerente de Comunicação do Flamengo. Ambos sabiam meu time de coração e, claro, gargalharam.

– Fotografa ele - sugeriu Marcio.

– Isso é que é vestir a camisa pelo trabalho - brincou Fred.

Em seguida, apareceu o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, e antes de ouvirmos mais alguma gracinha emendamos numa entrevista. Humilde, o cartola disse que não jogaria para não ofuscar nenhum jogador do time principal.  Ainda bem que Nélio, Beto, Marquinhos e Djalminha não ouviram. Se bem que Djalminha reforçou o time do Planet, com Gasparetti, Diogo Nogueira, que tinha até torcida organizada, o galã Felipe Simas, Nicola Siri, Bochecha, Thiago Rodrigues, Leandrinho, do Bonde do Tigrão, o parceirão Rogê, entre outros.

– Quem se garante em jogar na lateral e marcar o Júlio César Uri Geller? – perguntou Gaúcho, pelo megafone.

Silêncio absoluto. Após repetir algumas vezes, sem sucesso, o técnico exerceu o poder do cargo.

– Gasparetti, você!!!!!

– Uiiiiii!!!!! A santa pirou???

O elástico que Uri Geller aplicou em Nego do Borel | Vídeo: LANCE!

O vestiário foi abaixo!!!! No fim das contas, escalaram o astro do funk, Nego do Borel, moleque arisco, velocista e gingado contagiante. Julio Cesar Uri Geller olhou para ele e preferiu nem calcular a diferença de idade entre os dois. Mas, peraí, o Maracanã é o palco de Julinho, onde ele entortou laterais consagrados e fez a torcida do Mengão muitas vezes reverenciá-lo. Resultado do desafio: Em menos de 10 minutos, Julinho aplicou um elástico em Nego, que o fez quase criar um novo passo de dança. Final, máster do Mengão 13 x 1 nos artistas, gol de Diogo Nogueira. Mas que fique claro. Não era o time titular do Planet Globe, bicampeão mundial e campeão sul americano de artistas. Mas a missão era exatamente a mesma: integrar, divertir, inserir e semear alegria e paz. Salve, Gaúcho!!!! 


SERGIO PUGLIESE tem mestrado em chutes de trivela, doutorado em resenhas e é pós-graduado em gols no ângulo. Por quatro anos e meio assinou a coluna A Pelada Como Ela É nas páginas de O Globo, mas, agora, é o ponta arisco do Museu da Pelada.

Fotos e vídeos.

Fotos e vídeos.

DANIEL PERPÉTUO, jornalista, embrenhado na câmeras DSLR desde a Copa do Mundo de 2014, vive pescando uma imagem para contar uma história. Eterno camisa 1 das terras de Araribóia.

AS JOBETES

:::: A PELADA COMO ELA É ::::
Sergio Pugliese

A escalação, da esquerda para a direita: Françoise Imbroise, Daniella Sholl, Mariucha Moneró e Fabiana Sobral. Abaixadas: Isabela Kassow, Marcia Penna Firme, Eliane Bardanachivili, Leila Youssef e Leila Magalhães.

A escalação, da esquerda para a direita: Françoise Imbroise, Daniella Sholl, Mariucha Moneró e Fabiana Sobral. Abaixadas: Isabela Kassow, Marcia Penna Firme, Eliane Bardanachivili, Leila Youssef e Leila Magalhães.

A primeira a entrar “em campo” foi a técnica Mariucha Moneró, talvez para manter intacta a fama de disciplinadora. Pura impressão. De cara, chutou o balde e pediu chope e pizza. Em seguida, surgiu, elegantérrima, a goleira Isabela Kassow, de óculos, marca registrada que não dispensava nem durante as partidas incendiárias no campo chapiscado do Mimosão, apelido da quadra do Sindicato dos Metroviários, vizinho à Vila Mimosa, onde aconteciam os torneios de futebol entre os jornais cariocas. Foi o primeiro brinde da noite, na Fiorentina, no Leme, palco escolhido pelas ex jornalistas do JB para o reencontro, 23 anos depois, do timaço da redação.

– Só eu mesma para convocar uma goleira de óculos – divertiu-se Mariucha, que na época integrava a editoria de Esportes e dividia a função de técnica com o saudoso Oldemário Touguinhó. 

Bastou um jogo para Oldemário perceber que o time das coleguinhas era, digamos, debilitado tecnicamente. Não perdeu tempo e marcou treinos noturnos, secretíssimos, no campo do América para aprimorar os chutes, trocas de passes e criar jogadas ensaiadas. A evolução foi visível!

– Chegou Daniella Sholl! – anunciou Mariucha.     

Foi Daniella quem postou a foto do time no Facebook, o que gerou um caminhão de curtidas e a ideia do evento. Camisa 10, formava com Malu Fernandes um ataque devastador. A outra atacante era Eliane Bardanachivili, a quarta a chegar e emendar no chope. Ninguém tinha jogo no dia seguinte! Mariucha revelou que sofria uma pressão enorme para substituir Elaine porque ela insistia em chutar para o próprio gol. Bardana gargalhava! Aos poucos, a Fiorentina foi ficando pequena. Devido a histeria, por conta da chegada de cada estrela, teve muito cliente mudando de mesa. Também pudera, até embaixadinha Dani Sholl resolveu fazer dentro do restaurante!!!

– Cuidado com os pratos – suplicou um garçom.

Das atletas que estavam na foto apenas Françoise Imbroise, confundida com Kiki Ramalho, não pode ir porque estava em Minas. Mas as outras confirmaram: Dani Sholl, Mariucha, Celia Abend, que vendia empadas nos jogos e era a presidente da Liga das Senhoras Decentes do JB, a pontinha Fabiana Sobral, Isabela Kassow, Marcia Penna Firme, que jogava de meias Kendall, Eliane Bardanachivili e a talentosa dupla de Leilas, Youssef e Magalhães, a última a chegar por conta do temporal. Mas foi!!! A torcida também compareceu em peso! Paula Santa Maria, Elba Boechat, Isabela Abdala, Marcus Veras, Paulo Maurício, o massagista Octávio Guedes, Viviane Cohen, Dulce Jannoti e Cláudia Antunes.

– Chegou Stelinha!!! – berrou Fabiana.

A competitiva Dani Sholl ergueu a sobrancelha, franziu a testa, fez cara de poucos amigos. Tinha motivo. Stelinha era estrela de O Dia de quem as “jobetes” nunca venceram. A turma do deixa disso não precisou entrar em cena, mas Dani ficou bicuda. O time da Riachuelo era uma máquina, treinada pelo eterno Tim Lopes. Tinha Marluci Martins, Martha Esteves, Marta Mendonça, Renata Schmitt, Renata Fraga, Rachel Vita, Rosane Bekierman e a própria Stellinha Moraes.

– Não posso negar, mas elas não viam a cor da bola – arriscou-se a dizer, protegida por Fabiana Sobral e Isabela Kassow, que depois foram companheiras de redação.

O clima era de festa! Reencontros emocionam, ainda mais de jornalistas cheios de boas histórias para contar. Mariucha lembrou que foi a primeira mulher de jornais brasileiros a cobrir uma Copa do Mundo. Amava Esportes e odiava quando algum chefe a mandava cobrir bueiros explodindo. Naquela mesa barulhenta, podem ter certeza, a mulherada já fez de um tudo, de coberturas de carnaval e de eleições a tiroteios no morro, denúncias de escândalos, réveillon, manifestações. Era uma grande época! JB brigava cabeça a cabeça com o Globo e O Dia chegava a vender 1 milhão aos domingos. Rogério Reis era o editor de fotografia do JB!!! Olha o nível!!! Ainda tinha Flávio Pinheiro, Roberto Pompeu de Toledo, Marcos Sá Correa, Dácio Malta. As redações eram como o Maracanã e, hoje, encolheram como ele. Jornalistas são vaidosos, nostálgicos. Mas divertidos, muito divertidos!!!

– Sobrevivemos! – resumiu Isabela Kassow.

Na hora da foto oficial, a mulherada sentiu falta de Dani Sholl e Malu Fernandes, a coxa mais grossa do time. Quando ela se machucava surgiam massagistas de todos os cantos. Acreditem, as duas estavam na calçada do restaurante disputando campeonato de embaixadinhas!!!! Na chuva!!! Os clientes pararam para ver. Dani, de salto alto, xingava a bola quando a coitadinha escapava e Malu reclamava do tênis. Por uma embaixadinha, Dani venceu. Aproveitando que todas estavam ali, na torcida, a foto de 23 anos atrás foi reproduzida, sob temporal, com Malu no lugar de Françoise. Espírito intacto! Se o tempo passou, o fotógrafo não captou.  

O reencontro das ex jornalistas do JB 23 anos depois, do timaço da redação.

Daniella Sholl

Malu Fernandes e Leila Magalhães 

Fabiana Sobral e Stella de Moraes

Stella de Moraes

Mariucha Moneró e Marcia Penna 

Eliana Bardanachivili e Isabela Kassow

23 anos depois... Malu Fernandes (substituindo Françoise Imbroise), Daniella Sholl, Mariucha Moneró e Fabiana Sobral. Abaixadas: Isabela Kassow, Marcia Penna Firme, Eliane Bardanachivili, Leila Youssef e Leila Magalhães. | FOTO E VÍDEOS RODRIGO CABRAL.

23 anos depois... Malu Fernandes (substituindo Françoise Imbroise), Daniella Sholl, Mariucha Moneró e Fabiana Sobral. Abaixadas: Isabela Kassow, Marcia Penna Firme, Eliane Bardanachivili, Leila Youssef e Leila Magalhães. | FOTO E VÍDEOS RODRIGO CABRAL.


SERGIO PUGLIESE tem mestrado em chutes de trivela, doutorado em resenhas e é pós-graduado em gols no ângulo. Por quatro anos e meio assinou a coluna A Pelada Como Ela É nas páginas de O Globo, mas, agora, é o ponta arisco do Museu da Pelada.

Balança a Roseira!

:::: A PELADA COMO ELA É, por Sergio Pugliese

O rei das resenhas Léo do Peixe e Sandrinho com a famosa cordinha no Caldeirão do Albertão. (foto: Guilherme Careca Meireles)

O rei das resenhas Léo do Peixe e Sandrinho com a famosa cordinha no Caldeirão do Albertão. (foto: Guilherme Careca Meireles)

Léo do Peixe é daquelas figuras obrigatórias em qualquer resenha. Camisa 10 do Caldeirão do Albertão, outro dia contou uma história digna de roteiro de cinema. Envolvia o churrasqueiro Sandrinho e Pai Juca, uma das tantas figuras que brotam naquela pelada, sempre às 10h, de domingo, no Grajaú. Igreja Universal em alta e os padres católicos cantores atraindo multidões, ele vivia uma crise de clientes. Na pindaíba, resolveu apelar para a publicidade e publicou um anúncio no jornal prometendo "reativar pessoas falecidas". O cenário seria o próprio campo, vizinho da Floresta da Tijuca. Mas seria preciso um parceiro para ativar o plano celestial. E aí entrou em cena Sandrinho, pinguço dos bons.

– Pior que o anúncio deu resultado - contou Léo, durante divertida resenha no Albertão.
Os interessados em "conversar" com entes queridos do andar de cima começaram a aparecer. O primeiro foi o advogado Aderbal, curioso em saber se o primo Lucas estava realizado no paraíso. A consulta custava R$ 60 e era simples. Uma conversa rápida no bar para um passe-descarrego e o ápice, a esperada viagem ao além, no campo, cercado de mata. A essa altura, o coadjuvante Sandrinho já estava escondido entre os arbustos com uma cordinha amarrada a alguns galhos. Quando ouvisse Pai Juca cantar "balança a roseira!" ele deveria puxar a cordinha freneticamente, sinal claríssimo de que o falecido dera sinal de vida.  

– Eles ganharam um bom dinheiro, chegou a formar fila - garantiu Léo.

– Mas o Betão permitia isso? - quis saber o bisbilhoteiro Guilherme Careca Meireles.
Verdade, Beto Ahmed, dono do campo, desconhecia o fato. As sessões eram em dias de semana, à tarde, enquanto ele trabalhava. E Sandrinho, além de churrasqueiro também é o caseiro, o que facilitou a operação. 

– Mas um dia quase deu problema - recordou Léo do Peixe.

Foi quando o militar Hamílcar marcou uma consulta para saber notícias do amigo Tom, morto num assalto. Acostumado a treinar em selva fechada e enxergar inimigos com roupas camufladas em esconderijos improváveis, o sargento suspendeu a sessão quando as plantas começaram a se mexer. Quase pulou o alambrado para ir atrás de um vulto, que jurou ter visto, mas foi contido pela reza e a lábia de Pai Juca. Ele argumentou serem comuns esses delírios e deu cortesia ao desconfiado milico. Nesse dia, Pai Juca quase demitiu Sandrinho do cargo de balançador de roseiras. 

–  E por onde anda o Pai Juca? - perguntou Betinho Cantor, que também costuma ter alucinações, após suas visitas ao estacionamento do Albertão.

A última "aparição" de Pai Juca foi há dois meses. Chegou atrasado ao campo e mandou Sandrinho correr para a mata porque o casal Sheila e Afrânio estava chegando. Na pressa, não percebeu o estado etílico do parceiro. Enquanto Pai Juca limpava a mesa do bar, Sandrinho, trôpego, foi guiado pelos deuses até sua área de atuação. Antes de desmaiar, enroscado na cordinha, ainda ouviu vozes ao fundo. Só não captou Pai Juca cantar "balança a roseira!". Na terceira tentativa, Pai Juca afugentou o casal ao esgoelar-se "balança a porra dessa roseira, caceta!!!!". Claro, a sociedade foi desfeita, Betão perdoou Sandrinho e Pai Juca está cantando em outro terreiro.


SERGIO PUGLIESE tem mestrado em chutes de trivela, doutorado em resenhas e é pós-graduado em gols no ângulo. Por quatro anos e meio assinou a coluna A Pelada Como Ela É nas páginas de O Globo, mas, agora, é o ponta arisco do Museu da Pelada.